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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Janeiro branco: alerta para a saúde emocional

27 de janeiro de 2018

Neste mês de janeiro uma campanha particularmente importante pretende chamar a atenção da sociedade para um problema que ainda merece muito esclarecimento e conscientização. Institucionalizada desde 2014, a campanha recebeu o nome de Janeiro Branco e foi criada por um grupo de psicólogos mineiros, entre eles Leonardo Abrahão – seu principal idealizador, com o intuito de chamar a atenção para um tema que tem tudo a ver com a realidade dos grandes aglomerados urbanos. A campanha conta com o apoio do fenômeno das redes sociais que permitem muitos contatos, ainda que de relações superficiais. Trata-se da saúde mental e, em específico, da saúde emocional.

As tentativas de enfrentamento para esses males não são recentes. “Uma nova perspectiva de saúde dos canadenses” é o nome oficial de um documento elaborado, em 1974, e que ficou mundialmente conhecido como Relatório Lalonde (Marc), sobrenome do ministro da saúde do Canadá à época e principal fomentador do trabalho. É considerado o primeiro estudo que deu início ao salto da compreensão da saúde pública do nível meramente infeccioso para um complexo sistema de variáveis, dentre as quais, o estilo de vida das pessoas nas grandes concentrações urbanas, especialmente. Desde então, todas as pesquisas que abordam as doenças mais importantes, do ponto de vista da saúde pública, apontam claramente para a interação da biologia humana, ambiente e estilos de vida, além, é claro, da disponibilidade de serviços para atender às demandas em saúde das populações.

A ideia de bem-estar, felicidade e saúde emocional tem sido estudada e abordada por pesquisadores e até em políticas públicas com a criação, por exemplo, no reino do Butão, do índice Felicidade Interna Bruta (FIB). Embora, nesse contexto, tenha explicações de proteção da cultura e estilo de vida daquele povo, o tema reverberou e chamou a atenção, não por seu exotismo, mas pela necessidade de se atentar para questões não apenas da ordem cartesiana. Embora contestada, a definição de saúde da OMS diz que não é só ausência de doença, mas um completo estado de bem-estar físico, mental, social e espiritual.

Há alguns anos, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS), vem chamando a atenção para os transtornos mentais, em particular da depressão, assunto que foi escolhido, no ano passado, para ser o tema central do dia mundial da saúde, comemorado em 7 de abril. Segundo a OMS, a depressão é a maior causa de invalidez para o trabalho em todo o mundo. Esta organização estima que haja 350 milhões de pessoas no mundo, em todas as idades, que sofrem de depressão. Sabe-se, porém, que a quantidade de pessoas que não têm acesso a serviços de saúde mental, especialmente em países em desenvolvimento, pode inflacionar aquele número em muitos milhões.

O Janeiro Branco quer colocar a questão da saúde psicoemocional à luz, pois é um tema ainda cercado de preconceito e que só reforça o estigma em quem sofre. Um dos objetivos da campanha Janeiro Branco é convidar as pessoas a pensarem sobre suas vidas, o sentido e o propósito dela, a qualidade dos seus relacionamentos e o quanto elas conhecem sobre si mesmas e sobre suas emoções, seus pensamentos e seus comportamentos. Não por acaso ela se realiza neste momento, quando se inicia um novo ano, cercado de significados pessoais e familiares, expectativas, projetos e sonhos.

Um dos livros mais famosos sobre esse assunto recebeu o sugestivo título de “O demônio do meio dia – uma anatomia da depressão”, e foi escrito por Andrew Solomon. O único sentimento que resta nesse estado de espírito despido de amor é insignificância, sintetiza o autor em relação às almas acometidas por esse mal. Compreender, solidarizar-se e procurar ajudar deve ser o papel dos amigos e familiares daqueles que sofrem ou poderão vir a sofrer abalos dessa ordem. O poeta Fernando Pessoa, em “Deve chamar-se tristeza”, assim definiu esse sentimento: “Deve chamar-se tristeza/Isto que não sei que seja/Que me inquieta sem surpresa/Saudade que não deseja.”

Acolher, orientar, e não julgar são passos positivos que vão auxiliar aqueles que, submetidos a terapias e medicamentos, lutam bravamente pelo alívio de suas dores. A estes, minha solidariedade e incentivo, para que suas emoções possam alcançar a saúde e paz tão almejada.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA