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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Irmã Dulce

26 de outubro de 2019

Canonização é um ato da Santa Sé, que declara que uma pessoa, por seus méritos de uma vida consagrada ao bem de outros e à Igreja, tem o reconhecimento, o status de receber veneração dos fiéis. Este ato teve início antes do primeiro milênio da era cristã.

O processo é dividido em dois momentos principais. No primeiro, a pessoa é declarada beata e, em seguida, santo. Uma comissão qualificada de altos membros do clero tem o encargo da investigação das manifestações miraculosas atribuídas ao candidato objeto da avaliação. Uma vez finalizado o processo, o papa dá sua aprovação final.

O Brasil, considerado o maior país católico do mundo, tem aumentado gradativamente seu panteão de santos nativos. Irmã Dulce, agora reconhecida como Santa Dulce do Pobres, trouxe festa aos corações dos brasileiros.

Ela, que foi chamada, ainda em vida, de “O anjo bom da Bahia”, teve o merecido reconhecimento por ter sido uma pessoa que dedicou a vida inteira ao cuidado dos pobres entre pobres. Sua obra de caridade que, a rigor, começou antes de sua vida religiosa e sua biografia revelam que, aos 13 anos, Santa Dulce já acolhia necessitados em casa.

Manifesta tão precocemente o chamado em favor dos pobres, Santa Dulce realizou uma obra que começou nos Alagados, bairro paupérrimo de Salvador. Em sua história contam-se invasões de casas vazias com a finalidade de concretizar uma meta social: acolher enfermos e desabrigados.

Seguiu-se um profícuo trabalho junto ao proletariado, incluindo hospital e escola para os filhos dos trabalhadores. Em certo momento, o próprio galinheiro do convento foi transformado em albergue que, mais tarde, tornou-se o Hospital Santo Antônio.

Na homilia pregada no dia em que Dulce oficialmente virou santa, ao lado de outros beatos, o papa Francisco assim se manifestou, a partir de três importantes verbos na vida do cristão: “(…)Invocar, caminhar, agradecer. Hoje, agradecemos ao Senhor pelos novos Santos, que caminharam na fé e agora invocamos como intercessores. Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela o esplendor da Páscoa.” Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman, quando diz: «O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (…) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (…) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte, que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum» (Parochial and Plain Sermons, V, 5). Peçamos para ser, assim, «luzes gentis» no meio das trevas do mundo. Jesus, «ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros» (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.

O legado de quem alcança tamanho status tem muito a ver com o exemplo a ser seguido também. Dulce serviu de bom grado, cumpridora da Palavra-Ação vivenciada por Cristo que, na última ceia, lava e enxuga os pés dos discípulos num supremo ato de humildade, mas também de ordenança.

Acredito que não estamos tão distantes dos santos assim, uma vez que humanos iguais a nós e sujeitos às mesmas intempéries, sublimaram as vicissitudes como se a nos dizer que sim, é possível trilhar um caminho de serviço e consagração.

Um bom começo é manifestar a graça que o Evangelho nos convida a partilhar; a espalhar a bondade e a semear a misericórdia. Esse, com certeza, foi o caminho trilhado por Santa Dulce.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA