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Academia Maranhense de Letras

Lino Moreira

Cadeira 08


Indiferença ante a Morte

20 de janeiro de 2021

O presidente genocida do Brasil disse em 21 de outubro de 2020: “Já mandei cancelar. O presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade. Até porque estaria comprando uma vacina [em] que ninguém está interessado (por ela, sic), a não ser nós”. As mal traçadas linhas dele tinha poucos erros – 2 em 3 linhas. Ele já errou mais outras vezes. No entanto, a mensagem podia ser entendida até por seu ministro Eduardo Pazuello. Bolsonaro estava ordenando a quebra de acordo de compra já feito pelo Ministério da Saúde, mal dirigido por Pazuello, com o Butantã, para a compra da vacina Coronavac pelo governo federal. O ministro aproveitou o momento para falar sobre sua função de obedecer a ordens; não pensar sobre os assuntos de sua pasta, acrescento, por mínimo esforço que esta extenuante atividade exija, ao custo da incineração tão só de poucos de seus raros neurônios.

Por qual a razão o presidente não queria a produção local? A Coronavac a ser usada no Brasil foi desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o instituto Butantã, órgão com centenária experiência na produção de vacinas e ligado ao governo de São Paulo, sendo incluído no ajuste entre as duas entidades a transferência de tecnologia ao instituto pela Sinovac. Na visão primária de Bolsonaro, ter origem na China faria os “atingidos” pela Coronavac transformarem-se em jacaré, afirmação feita justamente por quem já foi visto oferendo cloroquina às emas do Palácio da Alvorada.

A aposta do governo federal era na vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e manufaturada pela farmacêutica AstraZenica. Infelizmente houve atraso na produção; nada foi enviado para cá. Ficamos com apenas um imunizante, o do Butantã, mas com a vantagem de sua produção ocorrer aqui mesmo no Brasil, estando, portanto, à disposição da população de imediato. Embora Bolsonaro desejasse barrar a aplicação da Coronavac, por causa do “comunismo” da vacina, tornou-se impossível fazê-lo, pois ele ficou sem ter alternativa viável e teve de se dobrar aos fatos bem como foi obrigado a liberar, a meu ver, a Anvisa de barrar a Coronavac, mesmo com a direção da Anvisa cheia de militares. Ele se viu, então, na situação de ter de usar um produto contra o qual ele fez, durante meses, campanha de descrédito, mas é o único disponível no momento.

Uma passagem deliciosa da reunião da Anvisa foi aquela da manifestação de um dos seus diretores sobre a medicina de vodu, a cuja propagação Bolsonaro se dedica diariamente. O dirigente afirmou que a cloroquina, a hidroxicloroquina e toda a carreira de produtos supostamente benéficos como tratamento preventivo contra a covid-19 não passam de engodo do tipo baixo clero e não servem para nada. Isso não foi dito com essas palavras exatamente, mas com outras a elas equivalentes. Mas elas servem para alguma coisa, servem ao fim de divulgar outras fake news de especialistas de facebook e seus seguidores sabichões da internet.

Bolsonaro sumiu durante 24 horas, após a aprovação do imunizante pela Anvisa. Foi o único chefe de Estado no mundo a não postar mensagem, em nome dos cidadãos, de boas-vindas à disponibilização da vacina. Depois soube dizer apenas que a Coronavac, tão sabotada por ele, mas a única, repito, ao dispor das autoridades sanitárias até agora, não era de nenhum governador, mas do Brasil.

Avalie, leitor, a indiferença dele ante a morte de mais de 200.000 pessoas no Brasil.

Lino Raposo Moreira

PhD, economista, membro da Academia Maranhense de Letras