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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

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IMPRESSÕES DE VIAGEM

9 de outubro de 2020

Estou de volta. E confesso que sou dos que partilham a opinião comodista de que o melhor da viagem é o regresso. Lembram aquele personagem do filme “O Turista Acidental” que, obrigado a viajar, procurava fazê-lo como se não saísse de seu país, de sua cidade, enfim de sua casa? Essa é uma atitude extremada, mas não há como negar um paradoxal desejo do cotidiano, do familiar enquanto se busca o novo e o desconhecido. Talvez um modo de obtermos mais segurança ou de confirmar nossa identidade pátria em meio a culturas estranhas. É no terreno gustativo onde isso mais se evidencia. Aquela coisa do brasileiro querer tomar café com jeito e gosto de café brasileiro, e se pôr a reclamar do “chafé” que se serve por aí, com especial referência ao americano. Ou ensinar ao garçom que, de olhos arregalados, tenta compreender nosso linguajar, como se faz um bife de verdade: grosso, macio, tostado por fora e vermelho por dentro, em contraposição ao servido pelas europas, fininho, sem cor ou gosto definido. Ficamos irritados com a mania dos povos do hemisfério Norte servirem qualquer prato com batatas, cozidas, fritas, assadas, sautés… E com um arrozinho, não vai nada? Vai daí, para não correr riscos, vão direto às casas de fast food. Ruim por ruim, pelo menos não terão surpresas. Nesse afã de conferir o conhecido – tenho uma amiga que, fora do Brasil, invariavelmente, pede banana como sobremesa. Vai-se a oportunidade de provar e descobrir o novo, que talvez traga boas e inusitadas sensações. Deve haver uma relação com o retorno ao conhecido, ao passado idealizado, um fenômeno que ocorre nas grandes cidades: os points mais concorridos dessas metrópoles, o lugar cult de encontro , são justamente os que reproduzem o ambiente de pequenas cidades. Lugares de ruas estreitas, casas baixas, pequenos largos de igreja, que propiciam a convivência e o contato ausentes na pólis. O Convent Garden londrino é exemplo disso, suas ruelas e pracinhas fervilham à noite; da mesma forma que as vielas tortuosas de Bruxelas, próximas à Grand Place e os barzinhos empoleirados nas ladeiras do bairro de Alfama, na entrada de Lisboa. Montmartre, em Paris, é um bairro emblemático. Há séculos, artistas, escritores, intelectuais se refugiam em suas ladeiras, morando em pequenas casas ou estúdios, dando bom dia aos vizinhos, papeando com as comadres da redondeza e com o padeiro, como o faziam nas suas cidades de origem. E depois, quando essa praga que são os turistas permite, frequentam a Place de Tertre. Não deixa de ser paradoxal que pessoas abandonem suas cidades provincianas, cidades de muro baixo, em busca de maior privacidade, da anonimidade, e procurem esses núcleos reprodutores do cotidiano invasivo das pequenas comunidades para o lazer e moradia. E continuamos na busca do próprio rosto. Se vamos a uma casa de fados, por exemplo, queremos ouvir – e reconhecer – aqueles mais cantados no Brasil. Explodimos em aplausos se o gajo canta “Teus Olhos Castanhos”, “Nem às Paredes Confesso” ou “Mouraria”, fartamente divulgados aqui, por meio de novelas, inclusive. Na verdade, aplaudimos menos o cantor que nossa capacidade de reconhecimento, congratulando-nos intimamente pela nossa sapiência e acuidade. E agora uma pergunta e uma observação desvinculadas do capítulo “eu quero a minha mãe”. Quem alguma vez entrou de gaiato naquelas verdadeiras romarias a Veneza, Sant Michel e outras cidades famosas, em que pessoas percorrem ruas estreitas espremendo-se em intermináveis filas – uma indo outra voltando -, como gado num brete? Experimentaram observar a cara dos outros turistas? Pois é, então constataram que quase todos exibem uma cara de enfaro e um olhar bovino , como a dizer: “E eu com tudo isso”?.. Sobre esse enfaramento de quem cumpre uma obrigação “cultural”, mas não está entendendo nada, lembro-me de um grupo de turistas em Pompéia, da vez que lá fui com um grupo guiado – que ninguém percorre sozinho o labirinto de Pompéia, impunemente. Compunha o grupo um falante casal de novos-ricos paulistas, acompanhado do filho, um garotão armado de uma filmadora supermoderna a reclamar, a todo instante, que não ia gastar filmagem com aquele monte de velharias. Lá pelas tantas, chegamos a um lugar onde estão expostas reproduções famosas de moradores da cidade cujas formas foram preservadas pelos moldes de lava que recobriu seus corpos, permitindo, à moda dos fósseis, sua reconstituição. Diz o filhote, Olha quanta estátua de gente feia! Responde o sábio pai, Não diz besteira, menino. Não tá vendo que são múmias? Depois dessa, resolvi deixar o grupo e gozar sozinha daquela cidade mágica. Não preciso dizer que me perdi. E pior, na volta, a correr para não perder o ônibus, recebi uma salva de palmas dos passageiros, já todos acomodados, o que, na linguagem do turismo organizado, equivale a uma bem dada vaia.