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Academia Maranhense de Letras

Lino Moreira

Cadeira 08


Ideias bizarras

28 de março de 2020

Olavo de Carvalho, exemplar de uma espécie rara, mas não em extinção, de picareta internacional, é guru da família Bolsonaro assim como de muita gente do governo. Essa triste figura é, do ponto de vista da genética, espécimen resultante do cruzamento de genes astrológicos – pois durante algum tempo ele se proclamou astrólogo nato –, com os de influenciador digital. Nada contra a astrologia, claro, mas tudo contra astrólogos 171. Ele se proclama igualmente filósofo e jornalista e acaba de afirmar, sem ficar envergonhado, não haver “um único caso confirmado de morte” pelo coronavírus, causador da doença conhecida como covid-19. O Youtube removeu o vídeo no qual ele faz a afirmação mentirosa.

Em contraste, os meios de comunicação, em quase todos países, vêm noticiando o aparecimento de milhares de pessoas infectadas pelo vírus, das quais muitas estão morrendo. Simultaneamente há intensa mobilização dos governos e da sociedade no combate ao mal. Portanto, com meia dúzia de palavras apenas, Olavo passou uma rasteira em cientistas de renome e nas estatísticas oficiais sobre a evolução da enfermidade.

O leitor já terá percebido, por essa amostra do “pensamento” de Olavo, a influência do guru no governo do Brasil. O presidente Bolsonaro e os copresidentes, seus filhos, também acham que a covid-19 é apenas uma gripezinha sem consequências relevantes para a saúde das pessoas e da economia. Até o fim de semana passada, o presidente falava na existência de pânico e histeria com respeito à doença, com o fim evidente de minimizar os perigos derivados do crescimento exponencial dela, retardando, assim, a implantação de medidas inadiáveis e necessárias à atual circunstância, de séria ameaça à saúde pública. Não fora a ação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, até agora com desempenho muito bom em sua área, estaríamos hoje com números de infectados e mortos bem mais elevados comparados à realidade do momento. Não devemos esquecer que o trabalho do ministro provocou não elogios de parte da camarilha dos quatro (Bolsonaro, 01, 02 e 03), mas ciúmes, como era mesmo de esperar. É um compromisso inquebrantável dos quatro com a mediocridade.

Um dos aspectos mais dramáticos da crise atual está na ameaça real à vida das classes de renda mais baixa do Brasil. Pensem nas periferias das grandes cidades brasileiras e em suas péssimas condições de saneamento e de moradia, onde os pobres, em sua maior parte, moram. Nesses locais, o saneamento é praticamente inexistente e as famílias se amontoam em casas de apenas um quarto e, no máximo, de dois, não tendo, portanto, condições de isolar uma pessoa infectada. É difícil tratar do problema em outras regiões das cidades, imaginem nessas. Temos, ainda, uma rede hospitalar, pública e privada, sem capacidade de absorver a demanda por leitos, que começa a crescer. Se a tudo isso se acrescentar um governo federal capaz de minimizar o problema e, assim, minimizar as medidas capazes de enfrentá-lo com um mínimo de eficiência, então não sei onde chegaremos. O governo tem de se mexer com muita rapidez. Quase todas as medidas já tomadas, o foram sob pressão da opinião pública.

Estamos indiretamente sob a égide de um pseudo-filósofo, pseudo-qualquer-coisa e suas ideias estranhas. Estas, via Jair Bolsonaro, são objeto de tentativas do repasse à vida do povo brasileiro. Cuidado, leitor, ele tem fé verdadeira nelas. Aí está o perigo.