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Academia Maranhense de Letras

Ubiratan Teixeira

Cadeira ubiratan-teixeira


Hoje é dia de…

28 de março de 2014

Entre a pomba e o bode

O telefone tocou bem cedo e a voz miúda do outro lado da linha indagou aflita: – Bira; tu que sabes das coisas me diz o que é jejum! E acrescentou: jejum, jejum eu sei; essa coisa dos católicos passarem fome durante a quaresma. Mas é que minha lavadeira mandou um recado dizendo que vinha buscar o jejum dela. O que é isso?

Recuei no calendário e me lembrei do tempo em que as pessoas se amavam de verdade e viviam com Fé o período da quaresma. Daquela infância verdadeira e bem-amada, dos rituais católicos preservados e cumpridos segundo os preceitos, do respeito cristão pelo calendário.

As lautas mesas do jejum – por que só se almoçava deixando o resto do dia reservado para os rituais de purificação -, o almoço farto com o cardápio rico em proteínas, bacalhau autêntico importado da Noruega, outros peixes nobres, fritadas de camarões e vinho à farta – não me lembro de ter visto ou escutado orações antes ou depois das libações, nem comentários sobre o mistério que celebravam, mas era muito clara a recomendação dos pais aos pimpolhos logo após o ritual da comilança (isso quando os filhos partilhavam a mesa, o que era raro)- “Agora todos para seus quartos e nada de alvoroço, que papai do céu está com muita dor de cabeça e sofrendo demais até morrer crucificado; nada de algazarras”. E eles, por sua vez, empanturrados até a tampa, também se recolhiam para “fazer o quilo” no silêncio tumular em que a casa mergulhava.

Lembrei-me então de minha solidão de criança, meus medos e aflições, da ansiedade que se apoderava de mim nessas horas levando-me à procura da babá, uma sarará libidinosa que me carregava para sua rede me aconchegando de modo incestuoso ficavamalinando minhas partes pudendas até a exaustão.

– E o que isso tem que ver com incesto, indaguei, confuso, ao telefone.

– Não falei nada de incesto, criatura! Perguntei sobre jejum, retornou a pessoa do outro lado da linha.

– Ah! Jejum!!! De jejum eu sei. Pera aí só um tiquinho que te falo já.

Estava na página 986 da última edição do Aurélio: “- Escuta só: do latim jejunu. Abstinência ou abstenção total ou parcial de alimentação em determinados dias, por penitência ou prescrição religiosa ou médica”.

– Entendeu? Ficar sem comer!

– Só isso? Então o que essa serigaita está querendo se o lance é esse? Fome é fome e temos conversado, não é mesmo?

– Correto.

– Então não tenho de mandar coisa nenhuma para ela!

– Se for assim, ao pé da letra, não!

E a conversa foi se prolongando para outros lados, tomando outras embocaduras, quebrando o jejum de outras práticas.

Chegou a falar para a amiga, que em algum tempo, algum bispo local havia liberado os pobres da prática do jejum considerando que os coitados já praticavam o ritual, sem mesmo perceber, ao longo de suas vidas.

E concluído o papo pelo telefone saiu para ver como os católicos estavam se arrumando para comemorar a sexta feira da paixão. E encontrou uma cidade alvoroçada pelas gondolas dos supermercado abarrotando as cestas do jejum de finas iguarias, gulodices refinadas, vinhos de marca, que completariam o ritual sagrado da Semana Santa.

E naquele rol de produtos especiais, onde figuravam generosamente os ovos de páscoa, não figurava nenhum item de recolhimento espiritual, de reflexão cristã ou revisão de vida; nada sobre a necessidade espiritual de participar de algum Ofício ou ítem de Reflexão.

Quaresma social; Paixão de calendário. Cristo transfigurado num ritual materialista de antropofagia, sodomia pura, farisaísmo completo.

A festa é do bode; nunca da Pomba.