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Academia Maranhense de Letras

Ubiratan Teixeira

Cadeira ubiratan-teixeira


Hoje é dia de…

21 de março de 2014

HIC IPSUM EST

A noite deslizava morna e aconchegante. Recordávamos nosso passado manso vivido em idílios enquanto o seresteiro lá no fim da praça, ressuscitado ninguém sabe de onde ou se sobra do carnaval, sussurrava ternas melodias de amor: é quaresma, parecia dizer.

Lembrávamos nosso conviver comum de mocidade descapitalizada, mas nem por isso frustrada.

Eu ingeria minha gororoba de São João da Barra com cachaça enquanto ele sorvia com prazer uma delicada meladinha preparada no capricho. E na virada da madrugada já havíamos equacionada a dívida externa, solucionado o problema da violência urbana, acomodado os sem-terra em várzeas úberes, reinventado as artes plásticas, revolucionado pela enésima vez o cinema, o teatro e homenageado Alain Resnais – prometendo-nos assistir, tão logo chegássemos às nossas casas, “O Ano Passado em Marienbad” -; recriamos a música e reproclamamos a República.

Aquela claridade mágica que só os boêmios, os santos e os sadios madrugadores conseguem vislumbrar naquele instante em que as sombras começam a se diluir na luz que vai se instalando começava a se insinuar em nosso horizonte.

Levantamos mais um brinde; este para o mágico momento. Já havíamos brindado ao vagalume que passou riscando teorias de formas luminescentes sobre nossas cabeças; brindado ao pio do bacurau escondido nas dobras da madrugada; brindado ao grilo que mergulhara no meu copo de bebida, ao sereno, a areia, às anônimas com suas estranhas anatomias: tudo digno de ser brindadotínhamos brindado.

De repente ele se fixou no meu sorriso e falou com aquele sotaque de profissional.

– Ih, cara! Esse teu sorriso está arruinado. Vou restaurar esses teus destroços.

Foi aí que calculei, mentalmente, o volume de caipirinhas que já tínhamos sugado e num relancear de olhos pela pilha de garrafas que nos cercava, medi o nível de cevada que já circulava pelas nossas veias. Olhei para meus braços, dissimuladamente passei a mão pelo meu próprio rosto, medroso fui me levantando lentamente esperando pelo pior: consegui andar sem tropeço; ereto e sobre as duas pernas – mesmo assim, logo pensei, os macacos cometem dessas proezas; mas olhei para traz e não vi a cauda.

Então, naquele mijador infecto de beira de praia pronunciei alto e em bom som meu próprio nome: sem problemas. Era aquele mesmo o meu nome e eu escutava de forma clara e compreensível. Podia até estar embriagado; mas continuava lúcido e humano.

Mas então; oh terrível dúvida! Por que me lembrei então justamente naquele hora de Kafka? Afinal, GregorSamsa já era aquele inseto repugnante, mas continuava raciocinando lucidamente: chegando a entender o que pensava e a escutar o som de sua própria voz. Mesmo assim, não me dando por satisfeito, chamei o Garçom que nos acompanhava e pedi à sonolenta criatura que me olhasse bem firme e me dissesse o que via e se acreditava que eu estava bem.

“Bebo bosta”, foi a sentença do profissional.

– E minha cara; está direita?

– Foi com essa que o senhor chegou ontem à noite aqui.

Respirei aliviado. É que o parceiro agora adormecido sobre seu próprio vômito e prometera consertar minha arcada dentária é veterinário; deixando-me aquela dúvida se de repente houvera regredido (?) no gênero animal.

Mesmo assim ficou a sequela: a confirmação teórica de não passarmos de frágeis evoluções.