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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


Há esperança

9 de fevereiro de 2019

O conhecido médico e escritor Dráuzio Varella é autor de um livro cujo título é muito sugestivo: Por um fio. A obra é um composto de diversos relatos do sofrimento de pessoas adoentadas e que incluem o próprio irmão do autor, que também era médico. Acometido por um câncer, o paciente lutou bravamente e se disse grato por estar diante de uma morte que lhe permitiu refletir e preparar algumas coisas antes de sua partida.

Trago essa história a propósito de se atribuir, a 4 de fevereiro, o dia de combate mundial ao câncer, uma data que serve de alerta para que toda a sociedade se mobilize em torno dessa que é uma das mais complexas enfermidades que assolam a humanidade.

Os estudiosos apontam que a complexidade se deve a uma série de fatores que não podem ser de todo evitados. Mas em uníssono apontam para o fato de que uma vida com hábitos saudáveis pode e muito contribuir para evitar que esse grave mal seja desencadeado.

O percurso de luta da medicina contra este formidável inimigo tem sido coroado, nos últimos anos, por avanços realmente surpreendentes. Basta dizer que mais de setenta por cento dos tipos de câncer têm uma abordagem terapêutica eficaz. O lamentável é que várias formas de tratamento ainda não estão disponíveis em larga escala ou de forma mais abrangente. Este é um desafio a ser vencido.

Países pobres não dispõem de pessoal técnico habilitado nem das tecnologias já disponíveis. Exemplifica isso relatório recente da Organização Mundial de Saúde que diz: das 8,8 milhões de mortes no mundo por câncer, a maioria ainda se dá em países de baixa renda.

É neste contexto que o oncologista Daniel Tabak( da Academia Nacional de Medicina), em entrevista a O Globo, fez uma afirmação que pode parecer controversa incialmente: Controlar o câncer vale mais que a cura. E porque o especialista fez tal afirmação? A resposta não tenta retirar a esperança das pessoas com a derrota da doença, mas ser exata e precisa em relação ao estado da arte no tratamento atual.

O raciocínio do dr. Tabak reflete muitas pesquisas e uma linha de ação que é buscada em vários centros desenvolvidos: transformar o câncer de uma doença letal, em uma doença crônica como, mal comparando, a hipertensão. Ora, isso é, sim, uma boa notícia, pois na quase totalidade das doenças cronificadas é possível dar às pessoas algo precioso: qualidade de vida, o que implica poder levar uma vida usufruindo de tudo o que o não doente tem acesso.

Nosso país, em que pese as severas limitações de financiamento do sistema de saúde, desperdício de recursos, pode melhorar e empregar os recursos disponíveis de forma mais eficiente. Um grande exemplo é o hospital de câncer de Barretos.

Por outro lado, a OMS produziu um guia que dá uma série de estratégias para melhorar o diagnóstico precoce e ofertar tratamento básico, em si mesmo uma ação que pode salvar vidas e ajudar especialmente países com poucos recursos.

Além das ações governamentais nesta direção, cada pessoa pode incluir este hábito saudável com cuidados que são comprovados universalmente e que se baseiam na tríade: alimentação, exercício físico e exames periódicos.

Infelizmente os diagnósticos em estágios avançados tornam o tratamento caro, produz mais agravo à qualidade de vida e diminui substancialmente as chances de sucesso. De qualquer forma, vivemos uma época em que as possibilidades de tratamento do câncer são muito maiores que há poucas décadas. Há esperança.

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA