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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Haickel

Cadeira 37


Fátima e Quíron

21 de dezembro de 2019

Há dois anos tive a ideia de escrever aquele que seria meu primeiro e único romance, uma vez que não pretendia me embrenhar definitivamente nesta seara, pois tenho consciência que sou eminentemente um contista que escreve crônicas com alguns toques de poesia. Romance é coisa pra gente GRANDE!

Naquele dia, como faço todas as manhãs até hoje, acordei!… E como quase sempre, acordo com uma ideia na cabeça, como se durante a noite um anjo ou quem sabe um demônio, se é que eles existem, tivesse semeado na cera de meus ouvidos uma ideia para que eu desenvolvesse e acabasse por colocá-la no papel.

A ideia que me veio naquela manhã foi escrever algo no estilo de meu bom amigo Mário Prata, um texto ágil, sofisticado, cheio de referências pessoais e culturais, que falasse de pessoas, traçasse seus perfis, desenhasse seus habitats, dissecasse seus relacionamentos, tudo sempre com muito bom humor, mas também com grande elegância e precisão literária. Imaginei um conto grande, com todas as ondulações que levasse os leitores a subir e a descer as ladeiras da efervescente curiosidade e da satisfação de identificarem os detalhes que estivessem em comum com os personagens.

Achei muita responsabilidade para alguém que como eu reconhece suas limitações, qualidade da qual não abro mão e não me acho cabotino ao evocar pra mim.

A história que me veio à cabeça naquela manhã, já pronta e acabada, foi a de Fátima, uma ludovicense do Desterro que desejava ser artista e fugiu de casa para tentar o sucesso no Rio de Janeiro. Queria ser atriz ou cantora, mas acabou se tornando apenas e tão somente uma das mais belas mulatas do Sargentelli.

Os personagens saiam de minha cabeça como que por mágica. Seu marido, Lindoval, Lindo para umas e Doval para outros, ganhava a vida imitando Sidney Magal; sua irmã, Nazareth, essa sim com talento para a música, uma cantora pronta e acabada, era também uma grande cozinheira, além de Filha de Santo.

Naquela manhã, criei de estalo uma dúzia de personagens periféricos que viriam para encher de brilho aquela constelação.

O tempo se passou, as carnes amoleceram, Sargentelli morreu, e Fátima tinha que continuar a vida. Como aprendera a jogar Tarô, passou a dar consultas em seu minúsculo apartamento, em Copacabana. Era uma embusteira. O que sabia dessa arte era meramente mímica e papagaiagem.

Existem muitos outros detalhes sobre essa história! São tantas coisas, que não dá pra contar em uma crônica de fim de semana. O certo é que antes mesmo de terminar de escrever o primeiro capítulo do tal romance, ele se transformou em uma minissérie em duas temporadas de 12 episódios de 26 minutos, que versará sobre a história da mesma Fátima, cujo nome será Arcanos, pois usarei os arcanos maiores do Tarô para contar a história dos personagens que desfilarão pelo cenário.

Já fiz o argumento da série, escrevi as sinopses dos 24 episódios e registrei na Biblioteca Nacional para resguardar meus direitos de criador e autor, mas precisarei de muita pesquisa e ajuda de consultores e outros roteiristas para que possa realizar esse que tenho certeza será um belíssimo trabalho, que deverá ser realizado em parceria com uma grande produtora do sul do país.

Recentemente, quando fazia pesquisas sobre esse assunto, revisitei uma passagem que sempre me emociona, algo com o qual me identifico muito.

Como bom sagitariano, sinto uma afinidade muito grande com um ser mitológico, o centauro Quíron, a quem tenho como uma espécie de padrinho. Segundo a lenda, Quíron é filho do Titã Cronos e da Ninfa Filira, e foi mestre de vários heróis gregos, como Teseu, Hércules, Jasão, Aquiles e Enéas.

Quíron é descrito como um grande preceptor. Inteligente, sábio e culto, era um gênio das artes, da filosofia, da magia e da medicina, além de um grande guerreiro. Era civilizado, pacífico e bem humorado, o que o diferenciava dos demais centauros, tidos com beberrões e sátiros.

Em uma desavença na caverna de Folo, no monte Pélion, durante a execução do quarto dos 12 trabalhos de Hércules, este teria atingido Quíron em uma das pernas com uma flecha banhada no veneno da Hidra de Lerna. Imortal, Quíron sobreviveu, mas a ferida envenenada lhe causava dores violentas. Então, Hércules, apiedou-se dele e pediu a Zeus que trocasse a imortalidade de Quíron pela mortalidade de Prometeu, o senhor do fogo, cujo fígado era devorado por uma águia todos os dias e se regenerava todas as noites. Zeus fez o que Hércules pediu, trocou a imortalidade de Quíron pela de Prometeu, mas tomou a alma do centauro para formar, no céu, a constelação de Sagitário.

Bem, com um patrono como este, não será difícil dar vida a Fátima e sua turma!?…

Joaquim Haickel

Membro das Academias Maranhense e Imperatrizense de Letras e do IHGM