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Academia Maranhense de Letras

Sálvio Dino

Cadeira 32


Encontro d’Águas

17 de agosto de 2010

Jornal: O Estado do Maranhão
17 de agosto de 2010 - terça-feira
Por: Sálvio Dino

IMPERATRIZ – Em maio último, como enriqueci minha vida espiritual! Beleza pura! Mergulhei nas águas amazônicas, onde se encontram minhas raízes paternais. Lá conheci parentes, em especial, minha querida prima, de sangue e afeto – BABY, jornalista de peso e medida. Alem duma fácil identificação nas áreas das letras de lá (Academia de Letras) fiz boa amizade com intelectuais de respeito, tais como: o poeta Almir Diniz, o escritor Tenório Telles e Arlindo Porto (porto onde habita o brilho da intelectualidade manauense). Pois bem. Dentre os pontos turísticos de maior relevo da terra do meu saudoso tio, o jornalista Herculano de Castro e Costa, visitei o famoso TEATRO, criação do governador maranhense/amazonense EDUARDO RIBEIRO. Tive um outro momento de grande emoção ao ver, com meus próprios olhos, o romântico ENCONTRO DAS ÁGUAS (rios Solimões e Negro) que tanto orgulha e engrandece as terras d’ Tapajós.

Quem melhor retratou esse fenômeno (afetuoso abraço d’aguas negras com avermelhadas (?!) foi o inspirado e esbanjador de talento, poeta cearense Quintino Cunha. Do seu consagrado livro – Pelo Solimões, colhemos, a primeira e a última estrofes:

VÊ BEM, MARIA, AQUI SE CRUZAM: ESTE  É O RIO NEGRO, AQUELE E O SOLIMÕES.  VÊ BEM COMO ESTE CONTRA AQUELE INVESTE, COMO AS SAUDADES COM AS RECORDAÇÕES SE ESSES DOIS RIOS FOSSEMOS MARIA, TODAS AS VEZES QUE NOS ENCONTRAMOS QUE AMAZONAS DE AMOR NÃO SAIRIA DEM MIM, DE TI, DE NÓS QUE NOS AMAMOS!…

Dei espiritualmente fundo mergulho nas águas que se cruzam, se abraçam se beijam num envolvimento – telúrico, todo ele – levando segredos d’aventuras arrojadas, sussurros de amores que se misturando nas águas grandes se perderam no turbilhão do mundão amazônico.

Visto, de perto ou de longe, esse amplexo d’águas a correr, sob a sombra dos séculos, recordando cantos de guerra, com batuques indígenas e sotaques d’aventureiros espanhóis, entre derrotas e vitorias, leva-me a outras belas, românticas, murmurantes, torrentes povoadas de doces e amargas recordações de tempos de conquistas, aventuras sertões adentro, dando vida à nossa civilização. Sim, essas águas gêmeas guardam soluços e gemidos de passagens dramáticas entre a natureza e o homem. Sim, águas gêmeas que desenharam a geografia da navegação desde a ubá do índio à canoa dos bandeirantes. Águas que testemunharam as levas humanas fugidias do sol abrasador do nordeste em busca das terras férteis e verdejantes do nosso interior.

E, que torrentes são essas que como aquelas outras – levam a gente rever momentos outros molhados de saudades, de tudo que se foi e não volta mais?

Parafraseando o poeta Fernando Pessoa – o ENCONTRO DAS ÁGUAS amazônicas é mais belo que o encontro dos rios que correm pela minha terra. Mas, o ENCONTRO DO NEGRO/SOLIMÕES não é mais belo que o encontro dos nossos rios, porque ele não é o encontro que acontece no território maranhense. E, onde ocorre ou corre esse majestoso abraço fluvial?

São tantos! Alguns na memória: O Itapecuru com a Alpercata; o Mearim com o Corda, o Araguaia com o Tocantins. Êta! Beleza de abraço d’aguas doces como mel, de natureza eminentemente telúrica! Senti bem de perto todo o encanto, toda a magia, toda a força telúrica desses encontros… Ainda parafraseando o outro inspirado poeta, o cearense – Quintinho Cunha – se esses rios fossemos, todas as vezes que apaixonados namorados se encontrassem que estrondo não sairia, do corpo a corpo, deles que se amam com toda a força que um investe contra o outro, como a vontade com o desejo!…

Em toda essa história de águas poéticas, de um toque de amor na nossa geografia e no nosso coração, há, sim, um, porém. É que lá, nas terras verdes d’Amazônia – existem eficientes políticas públicas, voltadas para o turismo… Quem sabe, se tal aqui, no “sulmaranhense” existissem, não teríamos um ENCONTRO DAS ÁGUAS tão festejado, tão badalado, tão lucrativo com vistas o turismo da modernidade? Não é isso mesmo, meu caro Iedo Lobão, melhor porta-voz e defensor do nosso mundo ecológico?