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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Itapary

Cadeira 04


Em nome de um deus qualquer

27 de agosto de 2015

Faz cinco anos que, entre pasmo e emocionado, aos meus olhos surgiram, por entre as nuvens de areia do deserto sírio, uma das mais portentosas expressões materiais da civilização. Sob um céu desanuviado e profundo, à proporção em que o carro deslizava sobre a fita negra tatuada na alva pele do silêncio, o que antes me parecia miragem desnudava-se da bruma que a envolvia e exibia-se qual bela e inusitada realidade em forma de altaneiras colunas de mármores multicoloridos. Por dois dias e noites, percorri e registrei em imagens, hoje revistas com um misto de encantamento e tristeza, a portentosa e incrível obra de conquista e alargamento do histórico Império Romano do Oriente: Palmyra, cidade-templo projetada, erigida, esculpida, aformoseada e habitada no Século I (d.C.), com seus monumentais ambientes sagrados ao culto dos deuses do politeísmo, alevantada entre Damasco e Bagdá, não muito distante de fresco e acolhedor oásis de tamareiras.

Em sítio ao lado, sepulcros coletivos, com cinco ou seis pavimentos de câmaras mortuárias. Majestosa e ainda incólume fortaleza de pedras sobre a única elevação, à cuja sombra ruminam cáfilas de dromedários, quebra a monotonia da ininterrupta planura com invisíveis horizontes, respeitável sentinela e guardiã da memória dos que nos legaram todo aquele inestimável tesouro de arte e engenho humanos.

Em sítio ao lado, sepulcros coletivos, com cinco ou seis pavimentos de câmaras mortuárias. Majestosa e ainda incólume fortaleza de pedras sobre a única elevação, à cuja sombra ruminam cáfilas de dromedários, quebra a monotonia da ininterrupta planura com invisíveis horizontes, respeitável sentinela e guardiã da memória dos que nos legaram todo aquele inestimável tesouro de arte e engenho humanos.

Ao cair da noite, contempladas da tenda onde se serviam as refeições, as silhuetas das portentosas relíquias de Palmyra, expressões da capacidade humana para domar e assenhorear a terra, adquiriam incomum dramaticidade ao banho de luz de um sol avermelhado, intenso e cálido, que se demorava suspenso no puro azul até às primeiras lufadas dos frios ares desérticos, para nova noite de dois milênios de paz e silêncio.

Tal como as conservadíssimas ruinas de Baalbek, de Petra e Sídon, magistrais testemunhos de antigas civilizações do Oriente Médio, aquele rico legado histórico foi elevado à condição de Patrimônio Cultural da Humanidade, sendo objeto de pesquisas e estudos científicos conduzidos pelas mais louvadas expressões do conhecimento arqueológico. Nada disso, porém, impediu que brigadas de guerrilheiros jihadistas do E.I, imbecilizados por doutrinas religiosas radicais, possessos por um absurdo sentimento de ódio a tudo quanto signifique liberdade de culto, cegados pelo fanatismo dogmático que os converte em cruéis e impiedosos assassinos, com o emprego de poderosos explosivos, agravassem o arruinamento de tanta beleza, que até o tempo se recusara a fazer desaparecer.

Enfim, mais um crime contra a humanidade perpetrado em nome de um deus qualquer.

jitapary@uol.com.br