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Academia Maranhense de Letras

Sebastião Moreira Duarte

Cadeira 01


E viva Buzar

17 de fevereiro de 2018

Escritor celebra 80 anos neste sábado e é exaltado por admiradores e amigos
 

Benedito Buzar celebra 80 anos de vida (Foto: Arquivo)

SÃO LUÍS- Minha chegada a São Luís se deu por aproximações sucessivas, como a do namorado tímido que sabe do elevado valor da amada, mas hesita em chegar perto e se apresentar… o que – bem sabemos – tem lá o seu sabor, até mesmo para a chancela da saudade.

No começo de 1965, vim da Paraíba para Coroatá, onde fiquei por nove meses. (Era a gestação do meu ser maranhense). Em setembro daquele ano, abri, liso, leso e louco, um escritório de representações comerciais em Teresina. De lá, passei a rodar por todo o Piauí e Maranhão. Só em 1968, transferi-me para a Capital dos Timbiras.

Mas, já a partir de 1966, eu vinha a São Luís quase todo mês, e aqui passava, quase sempre, uma semana. (Hospedava-me no prédio vazio que seria ponto comercial de um tio, onde hoje é a loja Marisa, ao fim do primeiro quarteirão da Rua Grande).

Lembro dos jornais da terra, uma vez que nem bem se falava em televisão e eu não tinha tempo para ouvir rádio. Eu comprava o Jornal Pequeno, o Jornal do Dia e O Imparcial, e já digo por quê: no Pequeno, mandava brasa o Othelino Nova Alves, vítima, pouco depois, de um crime dos mais violentos da história maranhense. (Eu nunca tinha visto um texto tão veemente, tão virulento como o do Othelino. “Esse cara é um louco” – eu pensava. E, evidentemente, não sabia quem era ele). O Jornal do Dia eu o comprava por causa do José Chagas, incomparável em seu estilo vivíssimo, surpreendente, forçando cada palavra a dar conta de todos os seus sentidos.

E O Imparcial? No “parcialíssimo O Imparcial”, como eu gostava de repetir só para lembrar o que Manuel Bandeira dizia do homônimo jornal do Rio de Janeiro (o que – nem se pense! – jamais foi o caso do diário maranhense!), pontificava um jornalista de quem eu acho que ainda cheguei a ler alguns escritos que ele assinava com o nome de J. Amparo.

Era o Benedito, o Buzar, que agora nos dá a alegria de celebrar os seus 80 anos e condividir a festa com a multidão de seus amigos. Buzar assinava, no mais antigo jornal do Maranhão, a coluna Roda Viva, importantíssima para quem queria estar por dentro da política maranhense, aquela que se entrelê nas conversas pequenas, se esconde nos bastidores e se gargalha nas anedotas de jantares para poucos. Buzar escancarava as entranhas do quotidiano político de sua terra, sempre com muita verve e interesse, e com esta nota específica, que merece ser exaltada: ele era querido e respeitado por todas as colo-rações partidárias. Por quê? Porque – é fácil notá-lo – Buzar é dessas figuras que atraem as pessoas desde o primeiro momento. Sua simpatia, sua alegria e sua inteligência sempre alerta (mas ele não é escoteiro) são dotes naturais de seu ser. Recordo o que ouvi uma vez de D. João Mota, o arcebispo de São Luís, que ele lia O Imparcial por causa da coluna Roda Viva, assinada pelo aniversariante de hoje.

Faço esse registro, porque não guardo na memória quando me encontrei com o Benedito Buzar pela primeira vez. Eu enfrentava as lides do comércio, e no comércio – dizia-se e assim se pensava, e eu pensava e procedia de acordo – no comércio as coisas do intelecto eram apenas um empecilho, conversa fiada, perda de tempo para quem tem dinheiro a juntar e contas a pagar. Dois pudores, então, me dominavam: um, de dizer a quem era comerciante que eu apreciava os livros e gostava muito de ler; o outro, de dizer aos intelectuais, que eu tirava do comércio o meu ganha-pão. Acho que esse sentimento mudou, de um lado e de outro. Mas o fato é que eu sentia uma vergonha infinita de me apresentar a algum intelectual. E se ele perguntasse em que me ocupava?

Terá sido, talvez, através da Universidade – dos tempos de Ribamar Carvalho, Antenor Bogea, Doroteu Ribeiro, Orlando Leite e tantos mais – que eu vi e ouvi Benedito Buzar, após anos de leitura de seus escritos. Na Universidade, fui colega de Solange, a sua esposa, e talvez isso tenha ajudado no que, para mim, era ainda uma admiração a distância. Timidez? Respeito timoroso, calada admiração pela pessoa que fazia coisas em que eu gostaria de levar a vida.

Depois, Buzar já estando na Academia, eu, ensaiando os primeiros passos no ensino superior, pude vê-lo e ouvi-lo – com a mesma tímida distância – porque, último dos publicanos, não sei como me enchia de coragem, e sentava nos últimos bancos daquele ambiente que, ainda hoje e mais e mais, tenho por sagrado.

São indagações vagas em que procuro a razão inicial de ter-me feito amigo de Benedito Buzar. Mas agora percebo que, assim fazendo, eu estou é desdizendo de suas qualidades, porque é a ele que se deve o mérito de nossa amizade. Buzar é “espontâneo como a intuição e a fé […] e a sua passagem é esperada nas estradas”, para lembrar o poema de Jorge de Lima. Foi a abertura espontânea de sua amizade que me acolheu.

Gosto do Buzar muito, porque ele tem virtudes singelas e difíceis de cultivar, mas que eu aprecio por demais: a simplicidade, a cordialidade, a lealdade e a sinceridade. Poderia contar casos em que testemunhei o meu amigo deixar exemplos claros de tais predicados, difíceis de se encontrar neste mundo de autômatos, anônimos, indiferentes e insinceros.

Cepa rara de personalidade o Benedito Buzar, que Deus nos tem dado e preservado na vigorosa saúde de seus oitenta anos. Com ele reparto o bolo de aniversário e o vinho da mais tinta alegria, desejando-lhe apenas isto: que ela seja o mesmo, continue o mesmo ao longo dos próximos oitenta anos, para o gáudio e o grogue de seus numerosos amigos, entre os quais orgulhosamente me inscrevo.

Saúde, Buza! E viva muuuito!

Escritor, pesquisador e membro da Academia Maranhense de Letras