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Academia Maranhense de Letras

Sebastião Moreira Duarte

Cadeira 01


Dom Bosco

14 de agosto de 2015

Se na semana passada, o nosso querido Jomar Moraes desculpou-se por escrever sobre o próprio pai, argumentando que não havia muito de extraordinário nisso, porque, afinal, todo mundo tem pai e mãe, que desculpas inventarei por hoje falar de mim?

Explico-me: falo de mim, porque devo os alicerces de minha formação a um dos homens mais extraordinários que nos deu o século XIX. Fui beneficiado pela irradiação de seu trabalho quando já fazia 21 anos que ele havia sido declarado santo. Mas não é bom começar por essa constatação: haverá quem deduza daí que eu também sou santo. Além disso, para muita gente (mal-ensinada, é claro) isso poderia invalidar grande parte do esforço humano e dos méritos pessoais daquele homem que, antes, muito teve que domar a própria natureza.

Falo de Dom Bosco, de quem, depois de amanhã, após três anos preparatórios, os cinco continentes celebrarão o bicentenário de nascimento. Não lhes posso dizer de minha emoção e da festa feita em meu coração.

Dom Bosco foi um menino pobre, filho de trabalhador de roça, como também eu fui. A mais do que eu, não teve a ventura de conhecer o próprio pai, de quem ficou órfão com menos de dois anos de idade. Eu o encontrei, através de seus filhos espirituais, seus bravos seguidores, quando fazia 15 anos que a sua obra deitara raízes no solo seco do sertão. Na pequenina escola do meu bairro, eu vinha sendo destratado por uma professora que optara pela preferência narcicista de um aluno, seu irmão, e, com grave acento depreciativo, me chamava de filho de lavrador, o que eu nem sabia o que era e, por isso, me chateava muito mais. Um colega de quem só recordo a extrema magreza e o apelido, Tideca, me perguntou se eu não queria largar aquela escola e passar para outra, no extremo oposto da cidade, onde havia um padre que era uma pessoa muito alegre e um santo. Eu, que tinha a maior curiosidade de ver o que era um santo, figura de quem tanto se falava naqueles místicos cafundós, não hesitei na resposta. E foi assim que passei a frequentar o Oratório Festivo de Dom Bosco, na pequena cidade de Cajazeiras, na Paraíba.

Daí por diante, tudo correu mais rápido que uma fita de cinema. Com pouco tempo, o padre Manuel Alves dos Santos – “meu padim”, como lhe chamavam e como decerto teriam chamado também a Dom Bosco – me presenteou com um álbum quadrinizado, que era a biografia do santo e foi uma das cartilhas mais favoráveis para eu me desasnar na decifração das letras.

No Oratório Festivo de Dom Bosco, eu soube, pela primeira vez, o que era merenda escolar, e joguei futebol com uma bola que não era de meia. Aprendi, ainda menino, o que era declamar poesia e fazer teatro.

… um letreiro se abria em cores intensas, pintado entre raios de sol: “Dom Bosco é um canto infinito

Do Oratório, Dom Bosco me arrebatou com 11 anos de idade, para entregar-me ao ambiente familiar quando eu já completara 20 anos. Um Bildung e tanto, comentou comigo um colega alemão, muito depois. Estudei com os filhos de Dom Bosco, os padres salesianos, entre Pernambuco e São Paulo. Dizendo tudo em poucas palavras, eles me ensinaram valores que levarei para a eternidade, com um orgulho que não se diz em palavras.

Na segunda escola salesiana, em Jaboatão dos Guararapes, do alto de uma pedra imensa onde fincaram uma bela basílica (consagrada pelo arcebispo Dom Luís de Brito, maranhense de São Bento), a gente olhava para o galpão onde estava o dormitório dos internos. No oitão daquele prédio, um letreiro se abria em cores intensas, pintado entre raios de sol: “Dom Bosco é um canto infinito.” Era o estribilho de um dos hinos mais bonitos que já cantei.

Dom Bosco foi um dos maiores empreendedores de seu tempo. Proponente de uma pedagogia inovadora e sempre atual, é o único santo a quem a Igreja reconhece com o título explícito de educador (“pai e mestre da juventude”). Pioneiro da educação profissional, trabalhou na recuperação de meninos de rua, vivendo no meio deles, criando ambiente tão familiar que trouxe a própria mãe, para juntos darem a vida por aqueles a quem a sociedade havia abandonado. Seu objetivo: “Formar bons cristãos e honestos cidadãos.” Trabalhador incansável, foi ainda um homem de imprensa, como poucos o foram. Sobretudo, convocando aqueles mesmos rapazes a quem dera meios para viverem com dignidade, fundou aquela que é hoje a terceira congregação religiosa do mundo católico.

Como veem, além de Jomar, eu também tenho orgulho em revelar ao mundo o nome de meu pai espiritual e me rejubilar com o mundo pelos duzentos anos de quem realizou aqui na terra o único ideal que vale a pena: o da santidade.

smduarte@elo.com.br