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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


DESEJOS

26 de janeiro de 2020

Há os sonhos/desejos por etapa de vida. Os não materializados escondem-se em nossa mente; por vezes sonhamos com eles inda frescos como se, novamente, os desejássemos.
Na mais tenra infância, juntamente com o desejo de ser atriz, prontamente frustrado pela mãe no dizer que as atrizes passavam ferro quente no rosto para tirar rugas e depois prendiam a pele sobrante com alfinetes, havia o sonho de casar com o príncipe da Noruega, provocado pelo pai, Aonde essa menina vai parar crescendo assim, só casando-a com um norueguês. E, para ele, apenas um príncipe mereceria a sua filha, logo, o marido seria o príncipe da Noruega. Desencanto, não veio nenhum pedido da Casa Real Norueguesa. Já mais idosa, aos sete anos, sobreveio a paixão por uma pulseira de ouro com pedras coloridas, entrevista na vitrine de uma joalheria. Foi-lhe oferecida, mais tarde, como moeda de troca. Perdeu o timing, e foi-se o desejo.
Desejos vão e vêm, o ano nascente pede reformular desejos, recuperar sonhos, promessas de novas ações. Entretanto, desejos escapam-nos e os perdemos; o que importa hoje não é o que importava ontem; coisas imprescindíveis? Rimos delas. Se amores, dizemos depois da paixão, como pude …? Amores diluem-se no tempo, sonhos de ter e ser transmudam-se, perdem o valor qual papel-moeda amarelecido entre colchões.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já dizia Camões. E ela desejou príncipes mais próximos, a Noruega é muito fria, desdenha a raposa, vale contar que encontrou uns príncipes, que se foram, coaxando, até descobrir que a palavra certa era companheiro e não principe; desejou fortemente um automóvel azul-bebê, cor que, graças aos céus, saiu de moda quando pôde comprar um; desejou um catamarã, que se chamaria Brilha-nas-Ondas, qual o bumba-boi de São Bento lembrado pela mãe, “Chegou Brilha-nas-Onda fazendo a terra tremer”, e a mãe cantava, “Ê passarinho, quantas pena furta-cor, com teu biquinho encarnado e teus olhinho matadô.” Realizou o desejo através dos filhos e, hoje, teme por eles no mar.
Presa na torre de Rapunzel, tranças cortadas, sonhou voltar a estudar mais que tudo, pesadelos e pesadelos de estar na rua de uniforme e descalça; na sala de aula, sem livros e cadernos; expulsa por estar grávida; punida por freiras implacáveis; caindo em abismos. Esse desejo não se perdeu, foi perseguido, sem tréguas. Libertas Quae Sera Tamem.
Dos três desejos exigidos ao ser humano pensante, alcançou todos, plantou livros e bordou jornais, colheu filhos e netos à mancheia, escreveu as árvores que encontrou e persegue flores. Os demais deixam de merecer registro, vieram e foram sem deixar marcas. Às vezes, a cafona pulseirinha flutua em algum sonho, deve ser símbolo de algo que lhe escapa.
Em 2020, quais sonhos, desejos, resoluções retomaremos? Quanto a mim, além da Paz Universal, equilibrada na ponta das espadas de mandatários aloprados, ansiada por todos, serei modesta, contentar-me-ei com a volta de um tanto de saúde que vem nos escapando, a mim e ao meu companheiro, desde o ano velho e, se a tanto me permitirem o engenho e a arte, apreciarei o desencantar dos meus livros já escritos e não publicados, antes que saiam de uso e apreço os livros de papel