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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


De urnas, bebês e juízes

29 de setembro de 2018

Costumava-se dizer que de urna barriga de mulher e cabeça de juiz ninguém saberia afirmar o que, de repente, poderia vir à luz. Sabedoria popular. Da barriga da mulher, desvendada pela tecnologia científica e avanços da genética, sabe-se, além do sexo da criança, se o feto tem má formação e será portador de alguma deficiência física ou mental. Com a ajuda do DNA, preveem detectar a predisposição genética para desenvolver determinadas doenças ou até a tendência ao alcoolismo ou à dependência de drogas. Excelência científica que poderá levar a práticas nazistas de eliminação de um ser defeituoso ou de um futuro pinguço, ainda no embrião. Versão antecipada da Rocha Tarpeia.

O lado ameno da questão: em breve, os pais poderão não só saber, mas escolher o sexo do pimpolho, assim como a cor de seus olhos. Nada mais previsível e comezinho do que um ventre grávido de mulher.

Adeus aos enxovais mistos, disfarçando na ambiguidade do amarelo terno e do verde-água, a dúvida e o desejo do azul e do rosa; decretamos o fim das alegres torcidas familiares por menino ou menina e a emoção da descoberta do sexo do recém-nascido. “É um machinho, eu não disse?” ou “Eu sabia que era mulher!”

O outro ventre, o das urnas, esse mesmo é que não guarda mais nenhum mistério. Os candidatos são eleitos ou derrotados já na campanha, antes da eleição. 80% ou mais da emoção (preciso fazer uma pesquisa a respeito) se esvaem com o resultado das intenções sendo divulgados maciçamente, incutidos de hora em hora na cabeça do eleitor. Vai daí que a apuração não traz surpresas. Nada mais tedioso do que aqueles números aparecendo na telinha e confirmando os percentuais das pesquisas prévias.

Alguns desses candidatos, os derrotados nas urnas, antes mesmo de passar por elas, são “fabricados” por um processo curioso, que pode começar com um boato, ou com algo que o desacredite, e passar por um efeito cascata. Às vezes, é alguma gracinha infeliz dita na telinha ou nas redes sociais, que a turma de maria-vai-com-as-outras de pronto acolheu. E lá se vai o imprudente ladeira a baixo nas pesquisas. Como ninguém gosta de apostar em perdedor, o cujo passa de favorito a azarão em tempo recorde.

Mesmo ocorrendo o perigo de indução – dos males o menor -, não vejo porque não trocarmos as eleições pela simples pesquisa de intenções, solução porreta para economizar tempo e dinheiro. Rápida, limpa e mais barata. Rápida, porque saberíamos o resultado antes de realizar-se a eleição; limpa, porque muitas toneladas de lixo eleitoral seriam diminuídas; mais barata, porque o dinheiro gasto seria apenas o da propaganda e o dos marqueteiros. Economizaríamos um montão com as despesas “sujas” de bocas-de-urna, transporte ilegal de eleitores, compras de votos, subornos, e também com as legais, dispensando mesários, fiscais e advogados e, principalmente, suprimindo o pessoal e a parafernália eletrônica exigidos para a votação, a contagem e registro dos votos. Aí está a minha sugestão para a insossa eleição que se aproxima.

Ao contrário, o que sai da cabeça de juiz continua inesperado. Quem duvidar disso veja as surpresas que nos proporcionam as sentenças de Gilmar Mendes, Lewandowski e outros que tais.

Ceres Costa Fernandes

Mestra em Literatura e membro da Academia Maranhense de Letras

E-mail: ceresfernandes@superig.com.br