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De bico, Bicão e Bicudo

26 de julho de 2015

Tenho certeza de que o leitor interessado nos assuntos relevantes para o futuro do país não se esqueceu. Crescia a avaliação pela classe política, opinião pública, institutos de pesquisa, a odiada classe média de Marilena Chauí, a chamada classe C, banqueiros, todo mundo, sobre a quase inevitabilidade do impeachment de Lula, aí, se não me trai a memória, no terceiro ano do primeiro mandato dele, que valia politicamente, então, menos de um dólar furado a tiros de escândalos, o principal deles, o Mensalão, iniciado com as denúncias de corrupção feitas pelo, na época, deputado Roberto Jefferson em 2005. Pensava-se no esquema de roubo de recursos públicos, como o maior já visto no Brasil. “Nunca antes na história ‘desse’ país” se vira roubalheira tão grande. O roubo municipal, estadual e federal em terras brasileiras sempre foi tão grande, tão avantajado, tão… roubo! Mesmo assim, se apostava na chegada do Mensalão ao “Livro Guinness de Recordes da Roubalheira”. Chegou, mas está sendo superado com facilidade pelo Petrolão. Em breve, o petróleo nosso, quer dizer, dos burocratas da Petrobrás, servirá de base ao alcance de mais uma façanha nacional, com medalha de ouro a ser chamada Nunca Antes e outorgada anualmente.

Acossado pelas circunstâncias, como no futebol (uso o pitoresco termo acossado porque lembra o futebol com seus locutores esportivos sempre notando que o atacante, acossado pelo zagueiro, perdeu a bola e lembra, também, por associação de ideias, Luís Inácio) Lula mandou emissários a Fernando Henrique Cardoso, sim, senhor, a FHC, pedindo a este que agisse com o fim de “evitar que a oposição descambasse para pedir o impeachment de Lula. Ele atendeu e se posicionou publicamente contra o impeachment”. (Já explico as aspas). Prometeu, até, enviar ao Congresso projeto de reforma política a ser discutido com Fernando Henrique. Claro, depois de se safar do impeachment, ele guardou no arquivo morto, aquele a ser consultado só quando todos nós estivermos mortos, essa e outras reformas. Hoje, segundo suas próprias palavras, ele está no volume morto, situação pior do que estar no arquivo morto, pois, no volume, só se é lembrado em tempos de crises de abastecimento de água, quando se está morto de sede.

Um dos argumentos contra o impeachment foi construído em torno da ideia de se preservar a governabilidade do país, em vez de apostar no quanto pior, melhor. Após o início das conversas com FHC, por intermédio dos emissários Antonio Palocci e Márcio Thomaz Bastos, estouraram os escândalos dos dólares na cueca (o PT sempre inventivo, ou não, como diria Caetano Veloso) e do pagamento no exterior do publicitário Duda Mendonça, procedimento capitulado como crime e confessado pelo ele mesmo. Palocci disse, na ocasião, a Lula ser tudo aquilo “um desastre, um desastre”. Mas, FHC veio em socorro e as coisas se acalmaram. Lula, bem a seu estilo, deu uma banana para ele, depois de passado o perigo, e ainda voltou a falar sobre suposta herança maldita deixada pelos tucanos. Os breves trechos entre aspas, acima, são de artigo de Carlos Marchi, publicados no Estadão, de 31/8/2008.

Mas, eis que, hoje, o Petrolão, semelhante em natureza ao Mensalão, o supera por um fator de 20 vezes, em quantia de dinheiro roubado. E enquanto escrevo, me deparo, na internet, com manchete no portal da Folha de S. Paulo: “Lula busca FHC para discutir crise e conter impeachment”. Pensei ter lido errado. Errado, tinha lido certo. “Amigos em comum” foram autorizados a procurar FHC com a mesma conversa de antes: evitar o impeachment, agora de Dilma. Isso é o mesmo papo furado do passado, com os mesmos personagens. Já chega.

Bico, tucano tem. O PSDB se deixará levar por bico alheio, de alguém que é indiscutível bicão e também bicudo quando contestado? Não é de duvidar. O partido não acaba de dar apoio no Congresso a lei que desfigurou o fator previdenciário, uma de suas bandeiras históricas, e que tem, pelo menos, postergado a falência do sistema previdenciário público? Depois disso, será capaz de qualquer coisa.

Lino Raposo Moreira

PhD, membro da Academia Maranhense de Letras

E-mail: linomoreira@linomoreira.com