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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


De árvores e tradições

2 de novembro de 2019

Árvore é como um arquétipo. Uma ideia que simboliza vida, projeção de nosso mundo interno. Não sem razão, muitas religiões usaram árvores como mensageiras, lugar sagrado, conexão com o mundo espiritual. Reza a lenda que Buda recebeu iluminação sob uma árvore, uma figueira ou árvore Bodhi.

Na história de Jesus, uma figueira foi amaldiçoada porque apresentou-se como se tivesse frutos, mas estava apenas com folhas. A história mais longínqua do mundo judaico cristão começa com uma árvore, denominada como do conhecimento do bem e do mal. No final de tudo, o Apocalipse destaca que na nova Jerusalém há uma praça em que, no centro, existe uma árvore, cujas folhas servem para curar as nações.

Estes exemplos apenas tocam superficialmente na fascinante simbologia da árvore nas culturas humanas ao longo dos milênios. Nós ainda temos árvores nos centros de nossos interesses, afinal quem possui a maior floresta tropical do mundo, tem que zelar e cuidar deste patrimônio incalculável sob qualquer valor que se possa aquilatar. Para os curiosos por um número, fala-se que a Floresta Amazônica valeria – tendo em vista seu potencial de gerar riquezas – na casa dos trilhões de dólares.

Quero me referir, entretanto, a uma árvore específica: ao Platano orientalis, conhecida como Plátano, uma das muitas espécies desta belíssima planta. Ela é originária da Europa e, no outono as folhas ganham um belíssimo tom avermelhado, antes de recolher-se somente em galhos no inverno.

Conta-se que Hipócrates, o pai da medicina, lecionava debaixo de um Plátano, na ilha de Cós, na Grécia, ali pelo V século antes de Cristo. Nessa mesma ilha, pode-se visitar a árvore de Hipócrates, mesmo que, provavelmente não seja a mesma árvore, mas a riqueza da simbologia permanece. Hipócrates foi o primeiro a ver o homem e seus males despido das explicações místicas, inclusive foi pioneiro nas tentativas de cura.

A árvore de Hipócrates, uma vez plantada nas mentes, ramificou-se através dos séculos numa abordagem naturalista das doenças. Sem dúvida que a história da medicina, começada debaixo de uma árvore, percorreu um longuíssimo caminho de equívocos e descobertas fascinantes que frutificaram até nossos dias. O que ficou da árvore originária? A curiosidade que levou ao conhecimento. O fascínio pela beleza da ciência. O respeito ao ser humano. A vocação pelo alívio da dor em cada um que precisa.

Narro essas afirmações a propósito da notícia que no último dia 25 de outubro, uma muda de Plátano foi plantada na Academia Paulista de Medicina pelos acadêmicos José Luís Gomes do Amaral e José Carlos do Valle, na presença de vários confrades e convidados ilustres.

No ano passado, por ocasião da realização do segundo congresso internacional de turismo médico, integrantes da Academia Paulista de Medicina tiveram a alegria de reproduzir o juramento hipocrático aos pés de um plátano, recordando os rituais antigos que datam aproximadamente 2.500 anos. A emoção tomou conta de todos aqueles que participaram da cerimônia, ao recordar como os antigos médicos também viveram esse momento ímpar.

Tem-se a informação de que uma muda do Plátano resiste bravamente no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Oxalá as faculdades de Medicina adotassem esse ritual simbólico de convidar as novas gerações a fazer o plantio e com ele, evocar a história que acompanha a planta, sua importância e os valores que são apontados com esse pequeno gesto. Seria um excelente lembrete do porquê e para quê homens e mulheres abraçam a senda asclepiana.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA