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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Itapary

Cadeira 04


De arco-íris e capacetes

28 de maio de 2015

No exato instante desta tarde em que me sento para escrever, um arco-íris abre a sua paleta de cores no céu. Paro. Não posso e não devo perder esse espetáculo. Até os belos fenômenos da atmosfera tornam-se mais raros e fugazes nestes nossos dias de desencantos. De repente o mundo parece ser um nada e desse nada apenas o nada pode resultar. Mas, quem sabe se Íris não estaria a trazer-nos boas mensagens dos Deuses, em seu arco multicor? Por mais pessimistas que a realidade nos constranja a ser, sempre devemos reservar um cantinho do coração para uma pitada de otimismo. O mais pequenino lugar vale. Diziam os gregos que Íris seria uma Deusa cuja missão consistiria em trazer dos Céus as respostas aos oráculos postos pelos homens. No cumprimento dessa missão, toda fagueira e elegante, ela transitaria no firmamento e deixaria atrás de si um brilhante e colorido rastro luminoso. Então, acreditemos nisso. Porque em mensagens de homens do nosso tempo, mormente daqueles que detêm mandato popular, já não temos mínimas razões para concessão de crédito algum.

Porque em mensagens de homens do nosso tempo, mormente daqueles que detêm mandato popular, já não temos mínimas razões para concessão de crédito algum

A violência em São Luís – não me reporto às demais cidades, porque devo comentar o que sinto, e vejo, e experimento – atingiu níveis assustadores. E o governo que tanto nos prometeu em termos de segurança pública, e saúde e educação, quase seis meses enquistado no ventre dos Leões, é o nada que resulta do nada. Sair às ruas é uma temeridade, um ato de insensatez. Quem não morre no trânsito, quem não sofre o calor da bala do assaltante nos shoppings, nos bancos, nas ruas, está fadado a cair em crateras onde era asfalto, ou a morrer nas filas dos hospitais com serviços desassistidos de servidores, ou acabar morrendo infartado de indignação. Até é o caso de recordar e observar uma fala da tragédia Rei Lear, na qual Shakespeare adverte o Rei: – Quem tem uma casa onde meter a cabeça, dispõe de um bom capacete. Assim, eu, por precaução, permaneço em casa, a ler e a contemplar arco-íris, antes que este se dissipe e não reste mais nada como sinal de esperanças de boa novas no Maranhão. Mas, não nos esqueçamos de que nessa mesma peça do gênio britânico está dito que “De nada, nada virá”, para que o senso da realidade não nos abandone.

jitapary@uol.com.br