Blog

Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


DAS COISAS ESSENCIAIS

16 de novembro de 2019

A maioria das gentes tem a sua fórmula mágica e essencial para a resolução de algum problema mais ou menos aflitivo. No que diz respeito ao concorrido item a carne é fraca, posso mencionar desde a comadre Mariquinhas, que ensinava colocar três pedrinhas de sal debaixo da língua, dizer Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria e beber três goles d’água, como receita anticoncepcional infalível, a um amigo que defende, para o mesmo objetivo, o uso sem igual das Pílulas Contra.
E se uma pílula puxa outra, é de justiça lembrar a Paulo Famoso que, com suas congêneres, a milagrosa Água Maravilha e a Aguardente Alemã, se constituem uma farmácia inteira, básica e especializada. Esses medicamentos curam desde estupor, vermes, carne aberta, arca caída, dor de madre, unha encravada, erisipela e caganeira. Sem falar em calo olho-de-peixe, dor-da-boca-do-estomago-que-responde-na-cacunda, impotência e, é claro, gravidez indevida. Às vezes, penso que o governo poderia baixar uma medida provisória acabando com a comercialização dos outros remédios a não ser os ditos mencionados. Dou de bandeja o nome do projeto: Remédio Essencial. Está lançada a grande ideia.
Outra essencialidade, importante nestes tempos violentos, é aprender o tal grito imobilizador de determinadas artes marciais, judô, caratê, taekwondo e quejandos. Dizem os entendidos que esse grito tem o poder de paralisar totalmente o adversário. Ora, então, tudo o mais é secundário, não essencial. Nonsense gastar tempo e suor aprendendo mil golpes para imobilizar o inimigo, se a emissão de um simples grito resolve a situação. Então é treinar o grito. Esforços seriam despendidos apenas no aperfeiçoamento de sua intensidade e duração para garantir a imobilidade do bruto o tempo suficiente pra propiciar a fuga do emissor até uma distância segura.
Mas o que há de melhor mesmo nessa área de busca das coisas essenciais, foi a minha descoberta da panturrilha. Não me entendam mal, não descobri a panturrilha, ela própria, mas o seu uso vital, algo – pelo menos para mim – sensacional e revolucionário. Qualquer coisa semelhante à descoberta de Monsieur Jourdan, da peça O Burguês Fidalgo, de Molière, que ficou pasmo quando percebeu que passara a vida toda falando em prosa sem o saber.
Deu-se-me a revelação por ocasião da divulgação de mortes em viagens aéreas internacionais: passageiros sofreram acidentes vasculares e morreram em consequência disso em pleno voo. Especialistas pontificaram que a dificuldade de circulação do sangue em pessoas sentadas por muitas horas pode levar a esse desenlace. E mais, essas pessoas poderiam salvar-se, se, a intervalos regulares, movimentassem o pé, para cima e para baixo, acionando a musculatura da panturrilha, a bombear o sangue para a parte superior do corpo, evitando os efeitos da gravidade e prevenindo acidentes.
Fiat lux! Refratária convicta a academias e a exercícios, senti-me prontamente absolvida da mais feia culpa moderna, o sedentarismo. Graças à panturrilha resolverei as horas das esteiras elétricas, dos exercícios aeróbicos, da musculação ou da obrigação de caminhadas cotidianas.
Sim senhor, anos e anos de conduta delituosa e culpa, para somente agora saber que o que importa é contrair e distender a barriga da perna, a panturrilha. Informo que já iniciei essa prática, hoje mesmo pela manhã, na cama. E é como digo: são as tais pequenas coisa essenciais que regalam a vida. Deus é pai.