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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


CUXI, A PORQUINHA, E A CEIA DE NATAL

16 de novembro de 2020

Naquele tempo, meu irmão Lucas andava pelos seus cinco anos, e sua melhor amiga era uma porquinha meiga e gordinha que habitava nosso pequeno quintal citadino. Veio morar conosco quando ainda era uma bacorinha. Gulosa, vivia entrando pela casa adentro à procura de comida Não sei a que linhagem ela pertencia, mas seu Djalma carvoeiro – existia, sim, essa profissão -, dizia que ela era da raça caruncho. A sua carinha amarrotada feito a de um buldogue denunciava isso. Ora, caruncho! Como? Eu me revoltava, pois, Cuxi, esse era o nome da porquinha, tinha o pêlo negro e luzidio e não me parecia nem um pouco carunchada.. Era os quindins da garotada. Usava até laço de fita no pescoço. Atendia pelo nome e seguia Lucas, aonde ele fosse. E a coisa que Cuxi mais gostava era uma boa cócega na barriga: fechava os olhos e ronronava. Porca ronrona? Essa ronronava.
Mas, os adultos, que têm olhos diferentes das crianças, perceberam que Cuxi se tornara grande demais para bichinho de estimação. O quintal era pequeno, e ela tinha livre ingresso na cozinha, onde fuçava tudo fazendo um grande estrago nos mantimentos. Era o terror da cozinheira que vivia de vassoura em punho, a expulsá-la. Que fazer com Cuxi?. Ora, aproximava-se o Natal, Cuxi estava roliça, e um porquinho assado, dourado, caramelizado, crocante, perfumado com cravos-da-índia, rodeado de farofa – quem sabe uma maçã na boca -.faria o maior sucesso na mesa da ceia. Decidiram, pois, em segredo, que Cuxi seria a grande estrela da mesa natalina. E as crianças? Ah, essas, um pouquinho de choro, e logo esquecem. Na antevéspera do grande dia deram um jeito de afastar a mim e a Lucas: Dona Edite, nossa vizinha, faria seu famoso doce de goiaba branca e aos meninos presentes seria dado o privilégio de comer as raspas da panela…Lucas voou para lá, e eu também. Ia perder essa?
Enquanto isso, no quintal lá de casa, promovia-se uma verdadeira perseguição a Cuxi. Ela corria de um lado para outro, sem se deixar agarrar. Óinc! Óinc! Todos já suados e começando a cansar, quando lembraram do carinho preferido da porquinha, já agora leitoa. Era preciso coçar a sua barriga. Seu Djalma se agacha e acena para Cuxi com os gestos que prenunciavam seu prazer. Lá vem ela confiante. Deita-se e começa a ronronar. Enquanto o carvoeiro, dublê de açougueiro, coça a sua barriga, a cozinheira aplica-lhe uma segura paulada na cabeça. O que vem a seguir não preciso e nem devo contar.
Mais tarde, chegamos, eu e Lucas, barriguinhas satisfeitas, e ainda pegamos a arrumação final da carnificina. Não adiantaram as explicações: porca muito grande, o quintal não comportava mais, etc, etc. O que dói mais é a traição à nossa amiga e o uso do nosso afago no ato cruel. Revoltada, grito, estrebucho, conforme meu temperamento agressivo.
Lucas, mais tímido e fechado, simplesmente some. Daqui a um pouco, todos o procuram, sem achá-lo. De posse de nossos segredos, saio sem dizer nada e vou até um terreno abandonado, atrás de uma velha fábrica, perto de casa, onde era costume brincar, que crianças desses tempos não viviam engaioladas. Lá encontro meu irmão. Roupinha de casa, sentado numa pedra com uma garrafa d´água e uma lata de manteiga ao lado. Tento consolá-lo. É inútil. Diz que fugiu de casa e não voltará mais. Pergunto-lhe então o que fazia ali, com aquela garrafa e a lata de manteiga. A garrafa d´água até dava para entender, podia ter sede, mas a manteiga?…É pra passar no pão que vão me dar. Minha irmã, explica, você nunca viu que mendigos pedem pão, a gente dá, e ninguém passa manteiga neles?
Aquele dia foi um dia rico de experiências. Lucas teve o seu primeiro contato com a dor de uma perda e a insensibilidade do mundo adulto. E me abriu os olhos para a importância do carinho – no caso a manteiga -, adicionado a qualquer coisa que ofereçamos a alguém por caridade, para suavizar a humilhação daquele que é obrigado a pedir. Quanto a Cuxi, foi a grande estrela da ceia natalina, muito apreciada pelo seu sabor e maciez, louvados por todos os adultos