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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


CRÔNICA ESCATOLÓGICA

26 de outubro de 2019

Às pessoas de fino trato e estômago delicado aconselho pular esta crônica. Já repararam que, de uns tempos para cá, raro é o dia em que não deparamos com a palavra coliforme fecal na nossa mídia? De reles bactéria habitante dos intestinos parece que ela se transformou em componente básico de toda a matéria existente debaixo dos céus. Pesquisadores e xeretas diariamente anunciam a presença de coliformes fecais na água do mar, água de torneira, nos picolés, no leite pasteurizado, até no outrora confiável pão nosso, cada dia mais adulterado.
Que o mar estava cheio deles, faz um bom tempo que se sabia disso. Cresci ouvindo dizer que o antigo esgoto de São Luís convergia todo (era uma rede pequena) para uma graciosa casinha azul e branca à Rua Montanha Russa, apelidada de casinha da bosta. Lá os dejetos humanos eram bombeados e liquidificados – ou lá o que seja-, e despejados in natura nas águas do Rio Anil, defronte à Av. Beira-Mar. Quando fui morar naquela pitoresca ladeira, a casinha estava desativada.
Embora não sendo mais o local de despejo geral dos dejetos da cidade não houve como tirar daquele trecho da Beira-Mar a má fama. Acho que essa má fama não lhe é de todo indevida, se atentarmos para a vocação escatológica daquele braço de rio desde os tempos coloniais, quando os escravos, denominados tigres, porque rajados pelos excrementos que vazavam dos jarrões, descendo pelo Beco da Bosta, vinham despejar nas suas águas os excrementos dos senhores. Não comíamos os peixes pescados ali, principalmente o comuníssimo papista, acusado de coprofagia.
À época em que passei a residir ali, até pelo número menor de habitantes da nossa cidade, a merda era pouca. Assim o acreditávamos. Na nossa leiga compreensão, os dejetos, que eram despejados logo em frente, as correntes marinhas levavam para a outra margem do rio, onde é hoje a Av. Ferreira Gullar, dali para a Ponte d’Areia, em frente ao Iate, e, depois, a afastavam para o largo, rumo ao mar aberto. A chamada Costa, depois da virada do Forte Santo Antônio, era considerada limpa, pois. E talvez fosse.
Autorizados por esse juízo, usufruíamos das delícias praianas sem culpa, liberados pela ignorância, mal comparada com a de Adão e Eva antes de terem insônia, gastrite e enxaqueca provocadas pela fruta da ciência do bem e do mal. Saber é o preço da perda dos prazeres de caminharmos descalços nas brancas areias e mergulharmos nas águas mornas de nossas praias.
Depois da expulsão do Paraíso, acordamos. Arcamos hoje com o ônus da não-prevenção do tratamento de esgotos e da ocupação indiscriminada dos espaços. A ingênua ideia de que resolveremos a poluição da nossa orla litorânea apenas com a coleta dos esgotos da Ilha não é verdadeira. A coisa é mais complexa. Além da contaminação do lençol freático com os despejos de bares e residências da orla, ela envolve o tratamento dos despejos dos superpoluídos rios Calhau, Pimenta, Jaguarema e quejandos, potentes contribuintes de coliformes fecais.
Voltemos à questão da prevenção. Não é mais fácil ensinar a não poluir que reprimir depois? Essa é a diferença entre um país civilizado e outro não: educação.
Enquanto não nos educamos, vamos deglutindo diariamente alguns milhares de coliformes fecais, além de mergulharmos prazerosamente neles. Se servir de consolo para alguém, digo que, ao menos assim, podemos justificar o clamor popular de que estamos, literalmente, na merda.
ceresfernandes@superig.com.br