Blog

Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


CRÔNICA, À MODA FABULAR, PARA MARIA ISABEL

6 de julho de 2019

Maria Isabel nasceu como uma daquelas princesas das histórias de Era uma vez… Com uma estrela na testa. Todos ao seu redor percebiam isso. Fato mais notado por ser pequena a sua cidade berço: São Bento dos Peris. Menor ainda naqueles tempos, embora contasse com uma seleta sociedade. Cidade em que muitos ilustres maranhenses nasceram e de lá se projetaram para o resto do Brasil.
Maria Isabel também estava fadada a não permanecer muito tempo na sua cidade natal. Certo dia, lá aportou um jovem e galante advogado, cheio de sonhos, pronto para defender uma polêmica e alentada questão, portando uma volumosa valise, cheia de documentos. Por este derradeiro detalhe, foi identificado como um caixeiro viajante sedutor, e logo rejeitado por meu avô, feroz guardião de sua princesa com uma estrela na testa. 
Mas o amor do jovem advogado apaixonado, logo ao primeiro olhar, pela bela princesa que contava apenas dezesseis anos, foi decisivo. Enfrentou com denodo o feroz dragão, digo meu avô, e de imediato pediu a mão de Maria Isabel. E eles se casaram e tiveram dois filhos. Uma menina desajeitada e um principezinho louro.
Ela, a princesa com uma estrela na testa, desde cedo, assumiu o acolhimento das duas famílias. A casa deles e dos dois filhos, por vezes, abrigava, entre familiares que vinham estudar e os que roubavam moças, e mais colaboradores, 17 ou mais moradores. Confesso que era uma casa muito animada.
Ele, o herói, morreu muito cedo, vitimado por uma doença cruel, mas ainda teve tempo de conhecer o neto mais velho, porque a primogênita, seguindo o conselho da mãe, que lhe rogou que não se casasse aos 16 anos, casou aos 15. O advogado, jovem e brilhante teve o seu brilho apagado aos 46 anos. Ainda assim, deixou, para sempre, fortes exemplos e influência marcante em toda a família. E ela seguiu sendo a matriarca, até ver todos os membros da grande família encaminhados.
Maria Isabel era uma princesa alegre e descomplicada, nunca deixava que algo a afligisse por muito tempo, sua filosofia de vida poderia resumir-se na simples frase, muitas vezes repetida: “no fim dá certo”, quando queria ousar. Ou, seguindo o dito de sua sábia avó, Rita de Cássia, inspiradora de sua devoção à santa do mesmo nome: “o que não tem jeito, remediado está”, quando o caso exigia absoluta conformação. Com essas duas máximas, ia levando a vida.
Eu sempre desconfiei que o verso de Gilberto Gil, “gente é para brilhar” certamente se referia a ela. Maria Isabel gostava de festas, crianças, reuniões com amigos e de viagens, correndo mundo, com a estrela na testa, a reluzir. 
Imaginava que a morte, quando a encontrasse, lhe prepararia algo de diferente, a combinar com a sua vida. Mas, não. Deus tinha outros desígnios para ela. Sofreu demais com aquela longa enfermidade que os muito velhos têm, e, após muito lutar, depôs as armas e foi morrendo devagarinho, apagando–se bruxuleante como uma vela que o vento suave sopra.
Após a morte, o velho corpo combalido pareceu recuperar-se, e acendeu-se novamente na sua testa a luz da estrela. Partiu para mais uma viagem, e certamente, transformou-se toda ela em um astro e está do outro lado da vida a brilhar, desta vez para sempre. Até mais, Mãe.