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Academia Maranhense de Letras

Lino Moreira

Cadeira 08


Contra “Fake News”

7 de outubro de 2020

O advento da internet escancarou no Brasil a péssima qualidade da nossa educação. Falo do todo, sem negar a existência de poucas ilhas de excelência no país. Se alguém interessado no assunto analisar postagens de facebook, por exemplo, terá ideia, de imediato, do que estou falando, ao cotejar o grau de instrução do proprietário do perfil na rede com suas postagens. Muita gente escreve numa língua parecida com o português brasileiro (às vezes com o búlgaro antigo) e não há correspondência, mesmo fraca, entre o nível educacional e a má qualidade dos seus escritos. Pessoas que declaram possuir nível superior, mais parecem saídas do 2º grau.

Poucas são as postagens nas quais não se vê uma mistura entre “vê” (terceira pessoa singular do presente do indicativo do verbo ver) com “ver” infinitivo do mesmo verbo; “ri” (verbo “rir” flexionado) com rir (infinitivo). Coisas desse tipo acontecem a toda hora. E a mistura do verbo “há” com a preposição “a”? É uma tragédia nacional. E de “porque” com “porquê”, “por que” e “por quê”? E a falta de concatenação do raciocínio nas escritas mais simples? Não se está pedindo um texto literário, apenas um legível.

Sim, eu sei das dificuldades para vencer os problemas educacionais resultantes, em parte, das desigualdades da renda pessoal dos brasileiros e das condições socioeconômicas precárias da maior parte de nossa população, impedindo avanços substanciais nessa área. Mas vários países venceram esse desafio em poucas gerações. Na minha juventude, a Coreia do Sul era um país pobre comparado com o Brasil e a China, mais pobre ainda. Hoje são potências, graças, entre outros fatores, sem dúvida, aos avanços em seus sistemas educacionais.

Tal quadro de analfabetismo de fato cria ambiente propício às “fake news”, exatamente porque estas, sem educação minimamente funcional de parte dos usuários da internet, acabam sendo bem recebidas por esse público. A deficiência educacional não permite o florescimento de senso crítico sobre as falsas notícias, levando à aceitação delas sem reflexão sobre seu conteúdo.

Dou amostra típica de uma “fake news” disfarçada de texto sofisticado, capaz de enganar até leitores atentos. A enganação começa logo na primeira linha com “Para todos os meus pacientes”. Nas linhas seguintes aparecem coisas como “Pela primeira vez, na história da vacinação, as chamadas vacinas de mRNA de última geração intervêm diretamente no material genético do paciente; após uma vacina de mRNA sem precedentes, vocês não poderão mais tratar os sintomas da vacina, de forma complementar”. Tudo mentira ou verdades pela metade.

Sabe o leitor a quem é atribuída a saudação “para todos os meus pacientes” mencionada acima? Acreditem, a Robert Kennedy Jr. Digo acreditem, porque ele era advogado ambientalista, não médico. Era, sim, contra vacinas de qualquer tipo, por supostamente causarem autismo. Ainda mais, ele não poderia ter escrito essas bobagens sobre vacinas contra o corona vírus, pois faleceu, em 1999, aos 38 anos, há mais de duas décadas, portanto, quando sequer se falava no corona nem se sabia de sua existência. Vejam na internet. Outra hipótese é a de ele ter voltado do além, a fim de ditar a notícia “fake”.

Todo cuidado é pouco, amigos. Procurem a fonte da notícia; vejam se os saites em que foi publicada têm ou não histórico de criar ou repassar “fakes”, como o “Jornal da Cidade on Line” e semelhantes. Desconfie, para não cair em esparrelas.

Lino Raposo Moreira

PhD, economista, membro da Academia Maranhense de Letras