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Academia Maranhense de Letras

Ivan Sarney

Cadeira 17


Com cheiro de tanja nas mãos

16 de agosto de 2015

Para mim, o mês de julho tem dois sinais muito nítidos, que anunciam o término das chuvas. O primeiro deles é o vento, o vento fresco e farto, que anda a soprar pela cidade inteira, trazendo o cheiro da maresia, misturando-se com a luminosidade do sol. Um sol claro, límpido, ardente, que doura a beleza da pele, que enche de biquínis as praias, enfeitando-as com corpos seminus; que nos faz mais propensos ao amor, ao delírio e ao prazer.

O segundo deles está associado às férias escolares, em São José de Ribamar, e ao fraterno e inesquecível convívio que ali construímos, em nossas relações pessoais, familiares e sociais; coisas que o tempo preservou em nossas lembranças, poupando-as do esquecimento. Que sinal é esse? Uma fruta, verde, ácida como todo cítrico, mas com um cheiro, com um sabor especialmente seu e único: a nossa tanja. É ela sim, que vinha de Anajatuba, de Primeira Cruz, trazida de barcos e de lanchas, desembarcando na Praia do Vieira, naquela cidade presépio, que era e ainda hoje é a nossa São José de Ribamar.

Muitas vezes, quando íamos comprá-las, sempre num côfo ou num saco, com um cento contado, elas ainda estavam chegando. Desembarcando em canoas, dos grandes barcos ou das lanchas, que venciam aquela longa travessia. Vinham descendo nas costas dos carregadores, com os pés metidos na água rasa, na lama que, sob ela, afundava-lhes os pés, sob o peso da carga que traziam. Mas eles iam e vinham, naquele trabalho incessante, e com isso alimentavam e faziam resplender nosso desejo.

O bom da tanja era comer com as mãos; descascando-a com os dedos, sentindo o sumo, que se desprendia da casca, nos subir pelas faces, nos tocar as narinas, nos entrar ardentes pelos olhos; se impregnar em nossa roupa e nos deixar depois, por um bom tempo, impregnado de seu odor, cheirando a sumo de tanja.

Mas isso era apenas o começo. Depois, era ir tirando os gomos, uma a um, dois a dois, e ir pondo na boca, mastigando devagar, bebendo seu líquido, tirando os caroços da boca, muitas vezes, brincando de “golo-golo”, que era uma forma lúdica de adivinhar quantos caroços estavam em nossa boca.

O bom da tanja era comer com as mãos; descascando-a com os dedos, sentindo o sumo, que se desprendia da casca, nos subir pelas faces, nos tocar as narinas, nos entrar ardentes pelos olhos; se impregnar em nossa roupa e nos deixar depois, por um bom tempo, impregnado de seu odor, cheirando a sumo de tanja.

Muitas vezes, quando já era noite e a lua branca e cúmplice, espalhava pela areia fria sua colcha de linho, ficávamos a ouvir música, a cantar, a namorar bem junto das ondas quebradas, bem perto das espumas do mar. Ali estavam as meninas, ali estávamos nós, ali estava Deus, com a natureza inteira, a nos falar da vida, do amor, do tempo fugidio e da eternidade.

Estávamos ali, ante a natureza dos coqueiros agitados, ante o fogo ardente de nossos desejos e a doce ternura de nossas amigas, namoradas; belos, queimados de sol, inebriados de prazer.

Ainda ali, naqueles instantes, havia o odor da tanja, impregnado em nós. Porque ali, ela também estava sendo descascada, comida, dividida entre os amigos mais próximos; com o cheiro de seu sumo, levado pelo vento.

Até os corpos de algumas meninas, tocados por nossas mãos de ânsia e desejo, recendiam a cheiro de tanja. Tudo recendia a cheiro de tanja, indubitavelmente tudo o que podíamos tocar e tocávamos, recendia a tanja, como nossos corpos recendiam a prazer e desejo.

Esse cheiro e esse sabor nunca deixaram de nos acompanhar, tenho certeza disso. Eles fazem parte de nossa história de vida, de nossos referenciais de pessoas; eles fazem parte de nossa cidade, porque são unicamente nosso.

Faço essas reflexões agora que é mês de julho e a lembrança das férias de São José de Ribamar assume o fulgor de sua permanência, e canta dentro de mim suas vitórias de eternidade. Posso olhar, no rol de minhas recordações, e ver os meus amigos daquele tempo, nos espaços da cidade. Eram tantos nomes, tantas faces, tantas alegrias e encantos, que se torna impossível resumir agora.

Sempre que cito nomes, sou traído pela memória e cometo omissões. É natural que o faça, pois vai longe o tempo e muitos nomes não vêm à lembrança, na hora de escrever. Mas eles estão guardados na memória e no sentimento.

Ver essas pessoas aqui evocadas é encontrar o tempo presente, de uma forma quase transcendente. Elas são protagonistas de nossa história pessoal, são agentes de alegrias, de lembranças e felicidades que o tempo não vai apagar.

São amigos que posso abraçar, independente de nossos caminhos de agora; de nossas alegrias e dores presentes. Eles são a própria imagem de nosso amadurecimento, de nossas conquistas, daquilo que nossa geração foi capaz de fazer.

Imagem do que vivemos, do que trouxemos para o nosso presente, do que poderemos deixar para os que vierem depois de nós. Que venham as tanjas agora, porque já é mês julho, com todas as suas seduções e lembranças, que não terminam nem se pagam nos cenários da memória. Amar a cidade é preservar sua memória e identidade. É preciso amar a cidade.