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Academia Maranhense de Letras

Clóvis Sena

Cadeira clovis-sena


Clóvis Sena

23 de fevereiro de 2011

Jornal: O Estado do Maranhão 
23 de fevereiro de 2011 - Quarta - feira
Por: Clóvis Sena



Por um bom período de minha infância e pré-adolescência vivi em Carutapera, cidade pequena, porém decente, e, quanto à localização no espaço físico, a ultima do Maranhão, no sentido de quem, a partir de nosso Estado, demanda o território paraense, incursionando nele por Viseu. Bem sei que os lindes coreográficos estão sujeitos a modificações devidas à ação humana ou da natureza. Mas para efeito do tempo que aqui rememoro, as sumárias delimitações que acima ficaram, são as prevalentes.

Desde bem cedo revelou-se-me empenhada curiosidade por tudo quanto representasse fato importante ou valor efetivo daquela memorável cidade que acolheu generosamente meus pais, e onde, por via de conseqüência, cresci dos 2 aos 14 anos de idade. É que meu saudoso Pai, singularíssimo “hippie” “avant la lettre”, levou-nos, a minha Mãe, a mim e a meus irmãos que foram nascendo, a vagar por ceca e meca e olivais de Santarém deste mundo de meu Deus. E em Carutapera concluiu-se o périplo praiano de minha puerícia: após meu nascimento na praia de Cumã, breves estadas nas praias de Lençóis, Guajerujtiua, Batevento, Caçacueira… (Não vou jurar pela exatidão da seqüência, que isso já seria exigir demasiadamente). Mas posso afirmar que um invisível Jasão terá hipnoticamente soprado aos ouvidos de meu velho Pai, que era mister conquistar o beneplácito dos Argonautas, para, na companhia deles, alcançar Cólquida e, em lá chegando, arrebatar o tosão de ouro da suprema felicidade. Daí o despotismo de suas/nossas andanças.

Mas como os fios da meada existem para que por eles nos reencontremos dos desrumos por que erramos, retomemos o fio da meada, para dizer que bem cedo, em Carutapera, ouvi falar de Clovis Sena, como um dos jovens que haviam deixado os pagos natais para enfrentar a aventura da vida numa cidade grande. A menos procurada era São Luís, a distante capital do Estado, com a qual a cidadezinha mantinha tênues e escassas relações. Não mais que o essencial, o compulsório. Já o grande centro de atração era Belém, que exercia (e creio que ainda exerce) muito maior influência sobre aquele núcleo fisiográfica e culturalmente bem mais amazônico do que meio-nortista.

Clovis Sena, por não figurar na grande maioria de adolescentes que emigravam para Belém, já apresentava uma certa singularidade. Viera para São Luís, onde cedo se destacou no jornalismo, na militância estudantil e nos movimentos culturais da cidade: partícipe de movimentos como SCAM – Sociedade de Cultura Artística do Maranhão, Juventude Musical Brasileira, Grupo da Movelaria Guanabara, Teatrinho dos Novos, presidente do Centro Graça Aranha. Como visto, um dinâmico agente cultural que além disso tinha notória liderança nos meios estudantis de São Luís, graças aos quais se projetou nacionalmente, tanto que residiu no Rio de Janeiro durante o biênio 1955/1956, para exercer as funções de diretor cultural e tesoureiro da UNE – União Nacional dos Estudantes.

Clovis Sena, 10 anos a mais que eu, e com nome feito e prestigioso na capital do Estado, era, para mim, referência longínqua de um quase conterrâneo que eu não conhecia pessoalmente, mas admirava e tinha nele um exemplo a seguir.

Em algum ano da década de 1970, encontramo-nos pela primeira vez, em Brasília, onde ele se radicara pioneiramente e, fiel a seu espírito afirmativo e empreendedor, fundara ou liderara a fundação de entidades de classe e movimentos culturais, sobretudo nas áreas de cinema e música clássica, duas de suas grandes paixões e nas quais acumulara profundos conhecimentos.

No primeiro e nos seguintes encontros brasilienses, conversamos bastante e prazerosamente, sobre muita coisa e variados assuntos em que tinha posição prevalente a nossa Carutapera, que ele deixou aos 9 anos de idade, e eu, aos 14. Apesar disso, Clovis Sena, mais do que eu, guardava muitas lembranças de sua cidade natal. E não poucas vezes, em nossas evocações carutaperenses, levou-me a palma, nominando todos os filhos de Seu Merandolino, por exemplo. E ainda, certa ocasião, conferimos nossas impressões pessoais acerca do saxofonista Maximiliano Teixeira, do notório mitômano Manuel Alfaiate, por fim, acerca do velho Procópio, cujo talento repartia-se entre falar mal da vida alheia e pôr adequados apelidos em todo mundo.Mas eu não deixava por menos, e algumas vezes acrescentei informações que Clovis desconhecia ou não as tinha com detalhes. Caso, entre outros, do negociante Santa Brígida, cujo “affaire” com uma dama da sociedade foi mantido em tal segredo, que somente veio a público por causa do grave mal que lhe sobreveio na exata hora dos provarás.

Resultado de sua sincera desambição por gloríolas e ouropéis, Clovis Sena jamais moveu céus e terra pela consagração da Academia. Após a vaga ali verificada com o falecimento de mestre Ignacio Rangel, um maranhense que após longa ausência voltara simbolicamente à terra natal carregado das glórias conquistadas por seu talento e seu trabalho, surgiu, na Academia, uma como lembrança coletiva, o nome de Clovis Sena, cujo itinerário biográfico ajustava-se perfeitamente à sucessão em curso. Acidentes de percurso, porém, levaram Clovis a, de última hora, desistir de sua candidatura à Cadeira Nº 26. E desde então, deletou de suas cogitações o assunto Academia, ao qual reagia com certo enfado! Conseguimos convencê-lo a candidatar-se novamente, quando do falecimento de Lago Burnett, seu velho amigo, companheiro de geração e com quem deixou São Luís no mesmo dia, indo ambos radicar-se no Rio de Janeiro. Eleito, Clovis revelou-se um acadêmico dos mais dedicados à Casa. Tanto que, a despeito de residir em Brasília, manteve sempre freqüência à Academia superior à de confrades residentes em São Luís. Com sua esposa Gladys esteve presente na Sessão Magna de 15 de agosto de 2008, comemorativa do Centenário da Academia, e também participou da última solenidade de posse, a 9 de outubro de 2009, quando Ney Bello Filho formalizou seu ingresso na Academia, onde é o mais novo acadêmico e o acadêmico mais novo.

Impossível encerrar esta crônica sem deixar consignado que Clovis Sena era um autêntico homem de letras. Poeta, compôs o erudito e nacionalmente premiado poema “A queda de Ovídio”; romancista, escreveu a bela narrativa telúrica “Flauta rústica”, pelo autor classificada como écloga tropical.

Com o passamento de Clovis Sena perdi um mui estimado amigo.

Jomar Moraes