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Academia Maranhense de Letras

Elsior Coutinho

Cadeira elsior-coutinho


Cerco ao viúvo

12 de setembro de 2020

A historinha a seguir, aqui recontada com discretíssimos adornos, é verdadeira e me foi contada mais de duas vezes, e sempre a meu pedido, por minha Madrinha Nair, lá no meu velho e bom Monte Alegre, povoado coelhonetense de grande parte da minha doce infância, e onde, sempre que possível, vou passar os Dias Grandes da Semana Santa.

As irmãs Sabina e Juliana, negras vistosas, carnudas, pele lisa e brilhosa, eram rezadeiras de prestígio (não se confundindo com curandeiras) e muito requisitadas para orar e cantar em novenas, Santos Reis, Natal, visitas de 7º dia a sepulturas e, principalmente, velórios – lá chamados também “sentinelas”.

Juliana andava pelos 50 anos, pouco mais ou menos, quando morreu sua amiga Nâni. Foram as duas irmãs para a sentinela e logo assumiram o comando dos cantos de benditos e incelências que por toda a noite, com breves intervalos, encheriam a casa em que a defunta jazia em tosco caixão, amortalhada de branco.

Juliana, sem descuidar do funéreo cântico, dividia o olhar piedoso entre a amiga morta e o viúvo, mas aos poucos essa divisão foi-se desigualando e ela se fixando mais no segundo que na primeira. E aí veio o estalo: estaria ali a oportunidade, futura que fosse, do seu desencalhe? Ora, a idade não lhe tinha de todo arrefecido certos impulsos. Vez ou outra, e por nada, o corpo sacudia numa estremeção que requentava um desejo adormecido, mas não extinto – não cabendo aqui especular se Juliana guardava ou não a castidade, que isso não é da minha conta, nem de ninguém.

O viúvo, embora não demonstrasse grande pesar, tinha a consideração de passar a maior parte do tempo sentado num tamborete ao lado da cabeceira do caixão, de onde, a consideráveis espaços, saía para espichar as pernas pelo terreiro, trocar duas palavras com parentes e conhecidos e filar de algum deles três tragadas de fumaça dum bom pau-ronca. E foi num desses breves movimentos que a Juliana dele se aproximou, puxou-o à parte e, falando baixo, entredentes, disse: “A Nâni se foi, mas tu não; ela não volta mais, mas tu tá aqui e não pode ficar sozinho”. Deixou ali a isca e voltou à reza.

Outra saída dele e ela tornou a segui-lo para relançar o anzol: “Trata de arranjar logo uma companheira, coisa triste é um homem sem mulher”. Daí a pouco Juliana foi ao bule de café colocado numa mesinha, no “sereno”, tomou uma xicrinha, e como em seguida chegou o viúvo com igual propósito, ela reatacou: “Ela pode ser feia ou bonita, alta ou baixa, viúva ou solteira…” e voltou para ajudar noutro bendito que a irmã principiara a puxar. Na próxima saída dele, desta vez para tomar um gole da cachaça que dividia a mesa com o café, justo quando os galos do povoado e redondezas enchiam a madrugada aziaga com o amiudar dos cantos, ela voltou a cochichar-lhe: “Pode ser velha ou nova, pobre ou remediada, gorda ou magra, branca ou preta…” (na última palavra ela carregou no tom e completou: “entendeu?”).

Se ele entendeu, disso não deu mostra e voltou à cabeceira da finada. E quando o dia estava prestes a amanhecer e ele se aproximou das rezadeiras para fingir, com sonolentos e mudos boquejos, que cantava a “Maria valei-me”, a mais penosa das incelências fúnebres, a Juliana aproximou bem a boca do seu ouvido e, deslizando discreta e repetidamente uma das mãos sobre a calha do opulento par de seios, como a chamar a atenção dele para uma oferta irrecusável, jogou o bote definitivo: “Tu tem que procurar uma, e ela tá por aqui mesmo, ela tá aqui, com toda certeza!”

Finda a história, devo confessar que nunca tive coragem de perguntar à Madrinha se o viúvo, passado o período de luto fechado, ou antes disso, se rendeu ao denodado e legítimo assédio da Juliana, ou seja, se com ela se casou ou ao menos se amancebou. E nunca perguntei para não correr o risco de ouvir uma resposta negativa (“Que nada!”), o que me obrigaria a amaldiçoar a insensibilidade e a burrice desse viúvo, ainda que já o tenha por morto, tal é o tempo transcorrido (no mínimo 60 anos!) desde aquele velório. E digo mais: se esse camarada incorreu na absurda malvadez de deixar a Juliana no caritó, de minha parte, sinceramente, a alma dele não merece um pingo de consideração!