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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Haickel

Cadeira 37


Carta para Theo

31 de dezembro de 2017

Nem imagino quantos anos você terá no momento em que estiver lendo esta carta! Só espero que você já tenha maturidade suficiente para entender a mensagem contida nestas palavras, arrumadas por mim assim, desta maneira.

Em que pese você me chamar tão carinhosa e amorosamente de vovô, não temos nenhum vínculo sanguíneo, mas nossa relação extrapola corpo e sangue, e é exatamente por causa de uma história que envolve corpo e sangue que lhe escrevo esta carta.

No dia do seu batizado, você já tinha um ano e oito meses, eu senti algo muito profundo, uma emoção avassaladora, algo que me secou a garganta, disparou meu coração, encheu meus olhos d´água… Só minha sobrinha Pillar, uma pessoa hipersensível notou o que estava acontecendo comigo.

Padre Cláudio, grande amigo de minha mãe, oficiava a liturgia do batismo e você, como sempre, estava radiante! Eu costumava dizer que sua alegria e sua simpatia foram herdadas de um avô que em nada contribuiu em sua genética!

A cerimônia foi simples, como deveriam ser todas as cerimônias religiosas, de qualquer que fosse a fé. Cláudio, além de padre é psicólogo, e como tal sabe se comunicar e atingir seu objetivo, falando diretamente aos corações e às mentes das pessoas.

Tudo transcorreu na maior das perfeições, até que num dos rituais do batismo católico o sacerdote pede que os pais e os padrinhos respondam pela criança que está sendo batizada, no caso você, as perguntas que ele fará. Para as primeiras perguntas, as respostas devem ser “renuncio”. O padre faz perguntas claras e todas as respostas são plenamente satisfatórias, inclusive eu também respondi a elas, por você e por também mim! “Renuncio!”

Para a segunda bateria de perguntas, a respostas devem ser “creio”. Foi neste momento que a minha emoção que já estava aflorada, explodiu e transbordou.

A cada pergunta que Cláudio fazia para você, prontamente respondidas com “creio” por seus pais e padrinhos, o nó em minha garganta apertava ainda mais. Àquelas perguntas eu não pude responder…

Foram momentos de grande angústia para mim. Fiquei aflito… Mas ao olhar para o mural pintado na parede por detrás daquele altar, vi que havia a figura de Jesus sentado ao centro, ladeado por dois homens que logo identifiquei como sendo Marcus, que dá nome àquela igreja, e Pedro. Marcus, o mais jovem, à direita, trazia na mão um pergaminho e um leão às suas pernas. À esquerda, Pedro, aparecia carregando um cajado.

Repentinamente comecei a ouvir uma voz que pensei ser do próprio Jesus. A princípio imaginei que estava tendo um surto de esquizofrenia, mas esquizofrênicos não acham que o são! A voz era de minha razão! Vinha de minha consciência, me dizendo que o fato de eu não acreditar que Jesus tenha nascido de uma virgem, que depois de morto e sepultado ele ressuscitou e subiu ao céu, que pelo fato de não crer na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na ressurreição da carne ou na vida eterna, que nada disso impede que eu ame meu próximo como a mim mesmo, que eu seja piedoso, generoso, pacífico, que eu respeite as pessoas indistintamente… Que o fato de eu não acreditar nos dogmas dessa religião, me impede de seguir com alegria os ensinamentos de seu profeta!

Meu amado Theo! O fato é que em seu batizado, de certa forma, eu me rebatizei. Se não tive padrinho nem madrinha, não importa. Você foi o veículo para que eu, de uma vez por todas, entendesse e aceitasse a minha condição de seguidor incondicional dos ensinamentos de Jesus, mesmo que não me vincule a nenhuma igreja, de nenhuma denominação.

Ao final da cerimônia de seu batismo, fui até você que já estava dormindo no colo de seu pai, dei um beijo em sua cabecinha e lhe agradeci.

Depois fui até padre Cláudio, o abracei e chorei compulsivamente. Não consegui dizer-lhe uma só palavra, mas ele, sensível, entendeu e me confortou.

Ao sair da igreja de braço dado com minha mãe e mãe Teté, aquela voz voltou e me disse: “Aproveite todos os momentos que você puder do lado das pessoas que você ama, principalmente de suas mães”. Naquele momento eu não chorei, pois sabia que não tinha como lutar contra o tempo.

PS: Não importa que muitas outras pessoas tenham lido esta carta que lhe escrevi, antes de você! O que importa é que hoje você a está lendo, e espero que possa entender que mesmo não sendo seu avô de verdade, te amo como se fosse e que em seu batizado eu pude definitivamente aceitar minha condição de homem de pouca fé nas igrejas, mas com muita vontade de seguir os ensinamentos e os exemplos do homem Jesus.

Joaquim Haickel

Membro das Academias Maranhense e Imperatrizense de Letras e do IHGM