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Academia Maranhense de Letras

Lino Moreira

Cadeira 08


Caldo derramado

2 de fevereiro de 2019

Dois desastres em apenas três anos. O rompimento de duas barragens de rejeitos da produção de minério de ferro de minas localizadas nos municípios de Mariana, o primeiro, e no de Brumadinho, o segundo, ambos em Minas Gerais, Estado que deriva seu nome exatamente da característica de ter em seu território atividades de mineração de ouro, de ferro e diversos outros metais desde o século XVIII.

Um observador apressado poderá colocar talvez a culpa da catástrofe só na “sede de lucro” de parte da Vale, proprietária da mina e da barragem, ao adotar esse velho chavão. No entanto, o rompimento tem causas bem mais complexas e não tem em sua origem apenas um fator, mas vários, como técnicos acreditados da área de mineração vêm afirmando repetidamente em entrevistas à imprensa nacional, da mesma forma, asseguram, como ocorre em acidentes aéreos. Ressalvado isso – a origem multifatorial dos desastres -, quero me concentrar no aspecto econômico dominante deles.

Numa economia de mercado, uma empresa existe com o fim de gerar lucros. A não ser dessa forma, não faz sentido a continuidade das operações. Essa afirmação, lançada assim, sem nenhuma qualificação, poderá induzir a leitor a classificar quem a faz como insensível defensor do lucro sem consideração de mais nada. Mas não é assim. O empresário com tal visão de lucro está destinado ao fracasso e a ser expulso do mercado. A continuidade do empreendimento depende, em grande parte, exatamente da capacidade do empreendedor de avaliar a importância, em determinado momento, de fatores não financeiros bem como da avaliação da trajetória futura de outras variáveis.

Aqui no Maranhão, a própria Vale e a Alumar têm mantido programas de relacionamento com a comunidade onde atuam, por entenderem que tais ações são positivas para elas, embora nem sempre os resultados financeiros de assim atuar possam ser medidos com exatidão. Também o empreendimento tem de antecipar as mudanças da tecnologia de seu negócio, de tal modo a poder decidir sobre o momento apropriado de adotar a de melhor rendimento econômico a longo prazo.

Neste último ponto, parece-me, ter a Vale fracassado cruelmente. Fico com a impressão de que péssimas avaliações acerca do momento certo de abandonar as barragens do tipo a montante, obsoletas tecnologicamente, foram feitas. Houve, quase com certeza, dúvidas entre seus dirigentes sobre se valia a pena, ou não, abandoná-las logo. Em caso positivo, recolheria um lucro líquido sobre investimento já amortizado ou, ao contrário, se adotasse a mais moderna, teria de amortizar ao longo do tempo o novo capital. Qual a melhor decisão? Empreender é em boa medida achar a resposta certa em momentos como esse e a empresa errou feio, ao não se livrar da tecnologia superada, com perdas de vidas humanas, que não têm preço, e imensos prejuízos para si e a imagem externa do Brasil. A imprensa nacional, todavia, me surpreende ao abrandar as críticas à Vale e exagerar as lançadas ao setor público.

Agora a empresa terá custos extraordinariamente maiores comparados àqueles que teria,se tivesse mudado logo, por causa das multas previstas em lei, dos recursos a serem mobilizados para vários tipos de indenizações e de muitos outros desembolsos.

O caldo derramou, não há como retorná-lo à panela onde estava.

Lino Raposo Moreira

PhD, economista, membro da Academia Maranhense de Letras