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Academia Maranhense de Letras

Elsior Coutinho

Cadeira elsior-coutinho


Batalha campal

10 de outubro de 2020

Não é de hoje que os nossos narradores e comentaristas de futebol dão a uma partida da modalidade a feição de uma guerra, e isto eu vim observar mais atentamente já num destes dias pandêmicos, quando via na TV um clássico do nosso chamado “esporte bretão”. Acho que um sujeito vindo de outro planeta e que não tivesse informações razoáveis sobre esse esporte mas que entendesse a linguagem dos profissionais midiáticos do setor, diria que ali se travava uma verdadeira guerra, melhor dizendo, uma batalha campal – visto realizar-se em campo aberto.

E quando digo que não é de hoje que no Brasil se dá ao futebol o tom e o som de guerra, estou recordando que já em tempos bem mais para trás, o ponta-esquerda do Botafogo, Quarentinha, o maior artilheiro do time até hoje, tinha no pé esquerdo, segundo os cronistas esportivos, não só o poder de um chute violento, mas um morteiro. O Pepe, do Santos do tempo de Pelé, era o “canhão da Vila”. Cá mais perto, como se o futebol também se adequasse ao modelo nuclear, o Roberto Rivelino ficou conhecido como a “patada atômica”. O Roberto Dinamite, cujo apelido já lhe conferia enorme poder destrutivo de defesas, aterrorizava os goleiros com o seu mortal canhão, seu implacável foguete, seu petardo demolidor.

Os narradores, depois de encher a boca, rasgar a goela, estourar a escala decibélica e perder o fôlego, afirmam que o chute bem-sucedido do goleador tal foi uma verdadeira bomba, um canhonaço absolutamente indefensável. E quando um atacante (vejam bem, um atacante), em incontrolável explosão, dribla dois, três, entra feito bala na área e não tem jeito: fuzila o arqueiro.

E como é que se chama a reposição da bola em jogo, com o pé, pelo goleiro? Tiro de meta. E um escanteio? Tiro de canto. E a função do centro-avante? Comandante de ataque. E o jogador que marca mais gols? Artilheiro. E agora me digam se é ou não guerra uma luta que exige de seus atletas preparo físico de gladiadores, tática e estratégia de ataque e de defesa, exaustivo treinamento técnico da esquadra, com disciplina de caserna altamente rigorosa para que o bravo entre no teatro de operações determinado a obter a vitória a qualquer custo, rompendo e rendendo trincheira, muralha, cidadela, avançando pelos flancos, guarnecendo e apoiando os alas, infiltrando pelo meio, toda a atenção no jogo aéreo do adversário, imaginando e executando escaramuças de todo tipo e feitio? E ainda há a disputa renhida pela artilharia.

Nosso Walbert Ramos Martins, o grande Canarinho, vibrante narrador da Rádio Timbira em seus áureos tempos, faltava explodir a jugular ao borrifar o microfone da PRJ-9 com o grito prolongado de gol, para em seguida o comentarista afirmar que não havia goleiro capaz de pegar um tirambaço daqueles, desferido de canhota pelo ponteiro maqueano Dario, quando não pelo ponteiro direito sampaíno Jaudemir.

Para dar a última pincelada no quadro bélico que aqui se tenta pintar, ainda há outras guerras, as de bastidores, entre as torcidas, antes e depois do jogo, além das brigas ferozes de espectadores nas arquibancadas, das quais, lastimavelmente, já resultaram muitas mortes. E como se sabe que “na guerra vale tudo”, nem o mediador da contenda escapa ao ataque verbal das torcidas. A mãe dele, coitada…

Não terá sido por outra razão que o comediante Ronald Golias, num dos programas de humor em que figurava, não lembro qual, num crepúsculo de domingo entrou aflito na sala anunciando que estava havendo uma “guerra de pistolas” entre o São Paulo e o Corinthians, no Morumbi. Como quisessem desmenti-lo, ele se defendeu dizendo que ouvira aquilo do próprio padre, ao passar na frente na Sé. “E o padre ia mentir, ia?” – desafiou ele. Felizmente, mais tarde o assunto se esclareceu: o pregador, em sua homilia, falara da “Epístola de São Paulo aos coríntios”. E o humorista não tinha culpa se a Missa coincidia, em horário, com o clássico paulistano.

Elsior Coutinho

Membro da Academia Maranhense de Letras

E-mail: coutinhoelsior@gmail.com