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Academia Maranhense de Letras

Sálvio Dino

Cadeira 32


Banco fechado

10 de agosto de 2010

Jornal: O Estado do Maranhão
10 de agosto de 2010
Por: Sálvio Dino

E, lá vem o prof. Raimundo pisando firme e com os olhos piscando, sem acessar, como se estivesse em estado de graça. Foi entrando e como de costume, cumprimentando e apertando a mão de quem via pela sua frente. O homem vinha irradiando aquela sabedoria cabocla tão bem retratada pelo inspirado poeta Patativa do Assará:

“TEM MUNTOS HOME DE BEM/QUE NENHUMA VEZ PEGOU/NUMA CARTA DE ABC/MAS MESMO SEM SABÊ LÊ/VALE MAIS QUE ÔRO EM PÓ/E TEM SUJEITO FORMADO/COM ANÉ DE ADEVOGADO/ QUE NÃO VALE UM CIBAZÓ.

Quando queria me dar uma boa notícia, nem esperava eu levantar da cama. Prevalecendo-se da nossa intima amizade, via de regra, batia na porta do quarto e dizia mui cordial e educadamente: “Temos novidade e das boas…” Foi assim que fez já na mesa do café, com um jornal nas mãos lendo-o ao seu jeito, dando um tom de discurso na voz:

A PREFEITURA INTERDITOU ONTEM UMA AGENCIA DO BANCO DO BRASIL POR DESCUMPRIR, PELA QUINTA VEZ SEGUIDA, A LEI MUNICIPAL QUE LIMITA EM 15 MINUTOS O TEMPO MÁXIMO DE ATENDIMENTO. SE A AGENCIA NÃO SE ADEQUAR À LEGISLAÇÃO EM CINCO DIAS, ELA SERÁ FECHADA. O BANCO DO BRASIL TAMBÉM FOI MULTADO EM R$ 25 MIL. A AGENCIA FICA NUM SHOPPING, JÁ ESTÁ REAVALIANDO SEUS CRITERIOS DE ATENDIMENTO PARA VOLTAR A FUNCIONAR. FOI A PRIMEIRA VEZ QUE A PREFEITURA FECHOU UMA AGENCIA BANCARIA.

O mestre-escola, como sempre gosta de dar uma paradinha, e sorrir pelos cantos da boca, quando a noticia tem sabor de novidade. Ai então ele fica pulando num pé só e foi o que faz, mandando brasa:

– Aleluia, aleluia. Até que enfim, um prefeito teve o tutano de mandar fechar uma insuportável, nojenta mesmo agencia bancaria. Vamos mandar celebrar uma Missa de Ação pela alma desse gestor cabra-macho, sim senhor, abençoado por Deus.

Lá fora, ouvindo o fraseado do prof. Raimundo foi mais quem gritou contente. Uns queriam até tocar foguete… Uma aposentada que queria uma orientação e aguardava sua vez pra falar com o velho advogado, não se conteve e desabafou:

– “Ontem quase morro ao enfrentar uma fila por mais de uma hora receber minha ninharia de aposento. Eu nunca vi fiscalização dum falano Procom. Acho que deveria ter mesmo por respeito pelo direito dos usuários nas agencias”.

“Home me diga donde é esse prefeito. Vou jazinho mandar comprar um crédito pro meu celular, mode ligar, dando um abraço nesse fio de Deus que teve compaixão do seu povo”. Assim dizia pegando no ombro do professor Seu Manoel, lá da Lagoa do Pote, outro sofredor que só sovaco de aleijado nas longas filas do BB, quando ia a cidade, também receber seu salário de aposentado.

E o mestre escola coçou a cabeça. Passou a mão no nariz, já querendo sair, sem poder, agarrado pelo braço, com a mão pesada do “veião” e disse suspirando fundo:

– Vou responder, morrendo de vergonha em dizer a verdade, nua e crua. Bom, é melhor dizer em versos que vou improvisando, pra suavizar a pancada nas costas desses políticos que gostam de prometer como sem falta e faltar como sem dúvida. E soltou, sem gagueijar:

BELA MÃE-NATUREZA/ANIMAIS/MUITO DEU/TERRAS?/AGUAS/BELEZA/DELAS O MUNDO ENCHEU/AO HOMEM, FORÇAS, AÇÃO/MAS NEM TUDO PERFEITO/NELE, SEMPRE UM DEFEITO/
EM ESPECIAL UM PREFEITO. POR ISSO, CABRA-MACHO/PARA FECHAR UM BANCO/ADEUS, FILAS DUM ARRANCO/AQUI, PROCURO E NÃO ACHO.

E, foi saindo, meio zangado, meio chateado. Ao ouvir, lá de dentro, insistente pergunta: “Afinal de contas, donde é mesmo o prefeito corajoso?” Ele, de cabeça baixa, botando chapéu na cabeça respondeu:

– É lá da boa terra, a histórica Bahia.