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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


ATÉ QUE O CELULAR OS REÚNA

31 de maio de 2019

Um trem partindo da estação, o comboio coleando e emitindo um nostálgico apito, alguém que chega atrasado para um encontro ou mesmo uma viagem a dois, cena icônica presente nos filmes ou nos romances de amor, marca das coisas perdidas ou inalcançáveis.
Aí, dava-se o desencontro, o desenlace, a separação. Às vezes, anos mais tarde, o reencontro, já com as vidas refeitas, outros companheiros, filhos e compromissos a impedirem, novamente, a concretização da grande paixão. A partir desses desencontros, construíram-se grandes filmes, tocantes poemas e famosos romances de amor.
No filme “Tarde Demais para Esquecer”, estrelado por Deborah Kerr e Gary Grant, os protagonistas, ambos comprometidos, vivem um cálido affair em um cruzeiro marítimo e combinam encontrar-se, dentro de seis meses, após resolverem seus impedimentos, no topo do Empire State.
O encontro não se realiza, a mocinha sofre um acidente. Gary a espera no terraço do edifício até anoitecer e se convence de que ela não o ama mais. Ela fica paraplégica e não quer a sua piedade. Delicioso dramalhão. Leva vários anos até o final feliz. Um celular daria conta disso e economizaria lágrimas e desencontros. Tudo muito prático e rápido. E adeus um filme, um conto, um romance.
Falar dos mistérios do amor é algo passadista. As relações começam no que antes seria o final feliz. No primeiro encontro, os casais já “ficam”, vão pra cama e começa a morrer o desejo. O desejo prolongado que mantinha as paixões acesas das relações que começavam com uma prolongada troca de olhares, depois um toque tímido de mãos e muito depois um beijo, uma carícia mais ousada. A paixão durava e durava.
O amor platônico de Dante e Petrarca por damas impossíveis, que nunca chegaram sequer a tocar, gerou alguns dos mais belos textos da literatura universal. Beatriz brilha no Paraíso da Divina Comédia e Madona Laura, apenas contemplada, é musa de belos e perfeitos sonetos renascentistas, inspiradores de gerações. Existiriam essas obras-primas com as quais tem se gasto rios de tinta e toneladas de papel só ao estudá-las? Um toque de celular para Beatriz ou Laura, marcando encontro em horas mortas em alguma igreja sombria, aonde elas iriam acompanhadas de uma aia ou parenta cúmplice, dando inicio a um namoro vulgar que logo secaria as fontes cristalinas da paixão, colocaria aí um ponto final? Vai que Beatriz, tão lindo rosto, tivesse uma voz irritante ou Madona Laura fosse de insuportável beatice….
Uma mensagem do celular de Frei Lourenço, avisando Romeu que a morte de Julieta era fake, em vez da carta que se perdeu, evitaria o suicídio verdadeiro de Romeu e, em seguida, o de Julieta, que se matou, desta vez de verdade, ao deparar com Romeu morto aos seus pés. E seriam felizes para sempre. A peça de Shakespeare seria mais um drama romântico, sem a força trágica que a caracterizou.
Está difícil para o escritor contemporâneo criar tramas e desencontros amorosos verossímeis. Os celulares rastreadores desmascaram adultérios, os chips guardam declarações inapagáveis, somos fotografados em lugares onde cremos estar incógnitos, dentro de elevadores, não podemos tirar ouro do nariz nem cometer crimes. Talvez a volta do realismo fantástico ou apelar para o sobrenatural, vampiros, zumbis, extraterrestres seja a solução.
Eu, de minha parte, continuo apostando no nonsense.
ceresfernandes@superig.com.br.