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Academia Maranhense de Letras

Joaquim Itapary

Cadeira 04


Até o guaraná acabou?

18 de junho de 2015

Assunto há muito. Na área da política, então, a cidade está cheia de notícias e comentários. Os temas versam desde processos judiciais contra autoridades até o caos na segurança pública. Sem falar na continuada violência contra prefeitos, diariamente vivemos tensos climas de ousados assaltos a bancos, a igrejas e a restaurantes, revoltas em presídios, arrastões em zonas comerciais, sequestro de menores, o diabo-à-quatro.

Propositadamente, paro aqui os comentários sobre esse caldo de misérias que a trágica realidade nos serve a todo instante. Fico perguntando a mim mesmo o que falta perdermos no Maranhão. Os da minha e de outras gerações mais próximas quando se encontram não se despedem sem lamentar a queda vertiginosa do nível de qualidade de vida em São Luís.

Além de valores do espírito, este termo comportaria expressões de natureza material, especialmente aquelas próprias do fazer maranhense. É o caso, por exemplo, de valores relativos à cultura popular, inclusive à culinária, aos modos nossos muito especiais de preparar e servir os alimentos colhidos da exuberante e dadivosa natureza regional.

Tanto que já é raro encontrar quem saiba fazer um Cuxá, autêntico. O que vendem por aí nos restaurantes é uma grosseira embromação. Quase sempre, um arroz mal temperado cozido com folhas de vinagreira picadas; coisa para turista desinformado.

Para completar, sem entrar em longa citação do que vamos perdendo no avanço da modernidade predadora, vejamos o que acontece com a Cola-Guaraná Jesus: até quando a sua produção esteve em mãos diligentes do empresário Eduardo Lago, membro de tradicional família local, a velha fórmula desse refrigerante, por ele adquirida dos herdeiros de seu criador, o farmacêutico Jesus Norberto Gomes, foi fielmente utilizada, sem qualquer alteração de componentes. Eduardo, com essa atitude clarividente, durante muitos anos prestou à sociedade maranhense serviço inegavelmente exemplar. Graças a ele pudemos ainda por longo tempo apreciar o inconfundível sabor desse refrigerante que por muito mais de meio século distinguiu a nossa mesa, constituindo mesmo uma espécie de símbolo material de nossa personalidade coletiva.

Há conquistas da modernidade? Certamente. Todavia, estas estão sendo desfrutadas penosamente, à custa da perda definitiva de valores culturais, éticos e cívicos que caracterizaram, até recentemente, todo um modo de vida essencialmente maranhense, hoje sociologicamente reduzido, em termos conceituais, ao neologismo maranhensidade.

Na sua composição entravam exclusivamente produtos naturais, dentre os quais algumas das chamadas especiarias: noz moscada, guaraná, cola, canela, cravo-da-índia, coentro, e outras cujo nome agora não me ocorre. Ao todo, seriam onze substâncias.

O criterioso emprego de elementos da nossa natureza permitia até que médicos indicassem seu uso para a eliminação de cólicas comuns aos recém-nascidos, desde que retirado o gás carbônico mediante a adição de uma pitada de açúcar.

Pois bem, hoje a fórmula do Jesus pertence a outras pessoas, que provavelmente não são maranhenses. E o que nos vendem com esse prestigioso nome, além de água gaseificada e açúcar? Está nas latas: Extrato de guaraná; aroma sintético; acidulantes INS330 e 334; conservador INS 211; sequestrante INS 355; corantes artificiais INS 123 e 110.

Comparem-se as fórmulas. Por acaso isso ainda é a mesma bebida criada por Jesus Norberto Gomes? Ou é apenas mais uma dessas famosas “tubaínas” tão combatidas pelos produtores de refrigerantes tradicionais?

Pelo amor de Deus, como se não bastasse o fim do verdadeiro Boi de São João, até o Guaraná Jesus se acabou?

Obs: Crônica publicada em junho de 2008

Hoje republicada, a pedidos.