Blog

Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

Cadeira cerescostafernandes


ARRASEMOS O BEI DE TÚNIS

28 de junho de 2019

Abstraindo-se a questão valor literário, confesso que me acho em situação análoga a do grande articulista e escritor católico, Rubem Alves (morreu em 2014). Rubem Alves, na Folha de São Paulo, na sua crônica “Despedida”, diz: “Sinto – pode ser que não seja assim, mas é assim que me sinto – que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever”. É isso. É essa sensação de finitude e inutilidade que me assola quando sou limitada à notícia, que muda de personagens e lugares, mas, no fundo, é sempre a mesma. Todo articulista, aquele que escreve para jornal, sofre, por vezes, da mesma angústia: a escolha do assunto para preencher a página em branco, a difícil escolha para dizer algo novo extraído das mil informações que voejam sobre nossa cabeça.
Violência no tráfego, violência no lar, violência na escola, descaso com o trânsito, desamor com nosso patrimônio histórico, corrupção em todas as suas formas, ativa e passiva, de grandes e pequenos, impunidade, descaso com a cultura e com a educação, a má qualidade dos serviços públicos, o desrespeito ao cidadão e muitos outros assuntos batidos e rebatidos por todos e por esta escrevinhadora que vos fala, anos a fio.
O que desanima é que essas palavras, de tão repetidas, não encontram ressonância, vão e retornam aos articulistas emissores, feito as pombas do poeta Raimundo Correia. Não que queira investir-me de autoridade semelhante à daquele jornal da cidade Pinheiro que, no auge da Segunda Guerra, advertia Hitler, mandando-lhe recados ameaçadores. Leitores estão à vontade para me contestarem, pessoalmente ou nas redes sociais. Mas, essas palavras, somadas às muitas outras de outros articulistas que malham no mesmo ferro, chegarão aos ouvidos de quem de direito? E se chegarem, terão alguma ressonância, serão percebidas com interesse ou recebidas com ouvidos de mercador?
Casarões que desabam? Ruas esburacadas, inundadas de esgotos, cheias de lixo e mato crescido? Praias poluídas? Calçadas quebradas ou cheias de veículos estacionados, barracas de vendas e exposições de lojas? Mulheres agredidas, crianças estupradas, pessoas aprisionadas dentro dos seus lares? Trânsito enlouquecido, famílias atropeladas nas calçadas, engarrafamentos fenomenais? Já estamos anestesiados em relação a essas calamidades, como se coisas corriqueiras fossem.
Falar de política? A imbecilização do país na disputa enlouquecida entre partidários de Lula e Bolsonaro afasta e rejeita qualquer raciocínio imparcial. O maniqueísmo raso que toma conta de mentes aparentemente evoluídas, em que ninguém respeita a opinião alheia, beira o fanatismo religioso. Golfadas de fel e ódio são lançadas entre parentes e amigos de longa data. Juras de desamor eterno, amizades rompidas, desavenças rancorosas nas famílias. Os partidos políticos parecem saídos da obra 1984, de George Orwell, ora odeiam determinadas facções, ora se unem a elas, o amigo de hoje é o inimigo de amanhã e vice-versa. Não me apetece falar disso.
O que sobra? Heitor Cony, em tempos de censura, sempre voltava ao desaparecimento dos ossos de Dana de Teffé, dama da alta sociedade assassinada; Eça de Queirós, quando estava sem assunto para os artigos da Gazeta de Notícias, ou queria criticar alguma figura da provinciana sociedade lisboeta, danava-se a desancar o Bei de Túnis, governante otomano do século XVI.
Por tudo o que foi dito, nas minhas crônicas, privilegio a memória, a ficção ou as histórias da politicamente incorreta Dodô.