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Academia Maranhense de Letras

Ubiratan Teixeira

Cadeira ubiratan-teixeira


Arca de Noé Da Crônica

11 de abril de 2014

Se Arlete Machado escrevesse em outro idioma e publicasse suas obras num país de cultura mais requintada, sua literatura não ficaria apenas circulando nesse restrito espaço provinciano de leitores sensíveis e intelectualmente privilegiados; mas ganharia o planeta como tantos outros que circulam por aí.

Passando a vista pelas prateleiras das poucas casas de livros que nos restam, tropeçamos em tristes best-sellers e razoáveis autores mal traduzidos que estão abastecendo os poucos leitores que ainda existem com produtos de bijuteria.

“O Quintal”, lançado na última terça-feira, é mais uma primorosa peça de requintada ourivesaria desta escritora laureada por excelentes obras, que chegou para enriquecer nossa bem dotada história literária.

Como a cabeça do cronista não esteja tão lúcida e seu raciocínio tão ágil, peço vênia ao leitor por não me aprofundar agora na leitura do poema justificando segundo meu ponto de vista por que deva se ler imediatamente esta obra. Também o tempo que me resta para colocar o ponto final na crônica, considerando que uma análise dessa natureza requer um razoável espaço de tempo, que está restrito, o que vai daqui para frente é produto produzido com antecipação.

Mas prometo retornar a “O Quintal”.

Não sei se acontece com os demais cronistas que praticam este gênero de jornalismo pelo planeta, incluindo de forma muito especial os companheiros de redação: comigo acontece com frequência.

É o tradicional “A Pedido”.

Sabem o que é, pois não? “- Moço! Escreva sobre este assunto para mim!” E mandam o teor do requerimento; dos mais singelos aos mais absurdos. E não importa o local ou a circunstância em que o cronista esteja que o pedido acontece: velório, casamento, fila de banco, sala de espera em Delegacia de Polícia. E os requerentes vão do leitor do dia-a-dia ao conhecido eventual, passando pelo cabo eleitoral, o cervejeiro da outra mesa, o anunciante do jornal que de repente consideram o cronista como um objeto de utilidade pública e mandam ver.

E a prática acontece pelo telefone, nos coletivos quando não aos berros nos guichês de banco, nas feiras livres e supermercados, até mesmo nos confessionários – aconteceu comigo vindo do meu confessor, quando deu por encerrado seu ofício de minha purificação espiritual.

“- Achei o senhor muito complacente quando tratou do caso daquele vereador, comenta um, acrescentando o outro:” “- Ih! Tu não estavas muito claro naquela tua crônica de ontem… Mesmo assim, gostei!”

– Mandei a crônica do senhor sobre os pés de alface para doutor fulano.

Não sei quem é o doutor fulano;passado o efeito, nunca sabemos o que foi que falamos sobre as alfaces e fica complicado saber onde fomos complacentes, confusos ou cordiais.

E saibam que o assunto da crônica nem sempre depende de nossa vontade (pelo menos comigo é assim).Vivemos permanentemente cercados de temas, problemas alheios, fantasias, nomes, calendários, eventos: pinçar desse universo o que é bom para o momento é que é crítico. Por isso, somos os marginais das redações, os sem porto e sem definição conhecida – o lírico perambulador de ideias. O editor de polícia tem sua agenda de crimes juridicamente catalogada; o de esportes suas tabelas de jogos e eventos pré-estabelecidas; o repórter da cidade uma rica pauta de eventos e o de política nem se fala, assim como o editor de sociedade, o refinado cronista social que nunca tem por onde se queixar considerando-se que em sua área de atuação tem sempre um refinado personagem filando a boia de outro quando não é uma donzela brasonada disposta a se render aos apelas do himeneu – nem que seja pra no dia seguinte rasgar o véu e pisotear a grinalda.

Nós não. No que tem de excesso, tem de engarrafamento. E corremos outro belo risco nesse lero louco do sem fronteiras: a banalização do espaço considerando que somos mortais. Acontece muito comigo: já fiz opções injustificáveis entre uma sacanagem da administração pública, um conflito armado entre potências estrangeiras e um acidente de repercussão global pelo comentário de uma diarreia que me acometeu no meio da rua, deixando os fundilhos de minhas calças insociáveis.

Dias destes esperava que uma rajada de vento diminuísse de violência na cabeceira da ponte beira-mar/São Francisco, quando o transeunte parou para comentar: “Aí, poeta! Se inspirando!…”

– Errou; esperando a ventania passar para poder espirrar.

– Porque se estivesse sem assunto para a próxima crônica ia pedir que escrevesse sobre um capeta que está atazanando com meu sossego.

– Demônio é até assunto que me interessa!

– Esse meu é um capetinha tinhoso que quer perder minha alma e violentar a inocência de uma sobrinha.

E contou sua história inteirinha abancar-nos que fomos num bar instalado do outro lado da avenida em frente à cabeceira da ponte.

– Quando minha irmã morreu, que Deus a tenha, falou a criatura, deixou o bebê comigo pedindo que criasse a coisinha como se fosse minha filha: criei-a. Hoje a criatura tá mais viçosa que um pé de couve no ponto da colheita. E espie só, jornalista, que a bichinha quando veio para meus braços era mais fenecida que bezerro com tosse braba e diarreia; pelimolinha que dava dó. Começamos então a nos entender de corpo e alma, nada de segredos ou subterfúgios um com o outro, maldades e maledicências nem pensar: tudo nas claras. Tomávamos banho juntos, trocávamos de roupa um na presença do outro e até dormir a gente dormia juntinho, um enroladinho no outro sem nenhuma maldade ou pensamento libidinoso. Agora, depois que esse capetinha tinhoso se colocou no meio da gente tô vendo só a hora e o instante que a vista vai escurecer e os sininhos do apocalipse vão tilintar na cabeça da gente… Escreva meu jornalista; escreva sobre a situação que pode ser que só assim a tentação seja esconjurada.

Sentiu o drama caro leitor sem mácula? Escrever sobre um capeta sodomita. E como essa, outras sugestões semelhantes pousam no computador do cronista, ou chegam por telefone, bilhetes, recados vindos por terceiros e até telegrama – crises existenciais, amores frustrados, cachorros desaparecidos, diárias de motéis, livros a serem publicados, músicas compostas, himens extraviados e até vergonhas perdidas: “Estou um caco, meu cronista, perdi a vergonha, lamentou-se certa feita uma assistente social.”

Um dia não vou escrever sobre cada um dos pedidos feitos ao longo de um período; mas sobre todos ao mesmo tempo. Uma espécie de Arca de Noé dos temas; inclusive sobre a coruja.

Que coruja? Ora, ora; a coruja!

Coluna publicada corretamente hoje