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Academia Maranhense de Letras

Laura Amélia Damous

Cadeira 06


Arabescos da poeta Laura Amélia Damous

24 de março de 2011

Jornal: O Estado do Maranhão
24 de março de 2011 - Quinta - feira
Por: Laura Amélia Damous



Lenita Estrela de Sá

Especial para o Alternativo

*Lenita Estrela de Sá é escritora e professora de língua portuguesa.

Muitos são os sentidos de arabesco: escrita, ornamento árabe, improvisações melódicas; na poesia de Laura, entrecruzamento de emoções e simbologias, indagações e reminiscências, arrepios e perplexidades, aliada ao domínio de uma linguagem poética concisa porque suficiente, encontrando com facilidade a palavra que garimpa, não se permitindo diluir-se em rodeios, acercando-se logo do objeto/motivo.

É provável que, nessa característica, esteja a razão de o poeta Paulo Melo Sousa, no prefácio à obra, haver sublinhado uma tendência minimalista, em parte inspirada na tradição dos haicais japoneses. O haicai clássico japonês refere-se à captação do momento presente, registra um instante da vida em sua transitoriedade e deve ter como centro um termo relativo a uma estação do ano, além de ser escrito numa linguagem leve e necessária, sem derramamentos que camuflem a expressão do que o poeta pretende.

Veja-se, a lembrar a estrutura de um haicai, o poema “A outra Estação”, estação da maturidade existencial e poética que leva o eu-lírico à decifração do enigma da vida e ao reencontro com o sonho, imprescindível ao caminhar daquele que tem por destino ser “irmão das coisas fugidias”: “da primavera retorna morna lembrança / muda boca / segredo que eu sonhei ouvir”. Retomando o motivo das estações, vê-se em “Verão”, que Laura Amélia Damous faz da poesia uma dimensão privilegiada na qual ameniza a dor de haver nascido com uma sensibilidade apurada: “arquejante enxame / florescente abelha / colméia/ de esquecimento e dor”. Essa singularidade de ser poeta num mundo dominado não só pela racionalidade, porém, muitas vezes, pela indiferença e pela frieza, é recolocada em “Armarinho”, de forma breve, mas precisa: “esgarça / a pele da alma do poeta esgarça / e é de graça”.

Concisão – Assim, Laura Amélia evolui pelas páginas de “Arabesco” com a concisão estilística que lhe é peculiar e que apenas os grandes poetas logram alcançar (lembremo-nos apenas de Manuel Bandeira, Adélia Prado, Manoel de Barros), pois, como ensina Ezra Pound, a poesia é a mais condensada forma de expressão verbal,quando, muitas vezes, uma palavra é usada para lançar uma imagem visual na imaginação do leitor. Certamente por isso, José Louzeiro apontou nos versos da poeta um matiz concretista, evocado sobretudo no poema “Andaime”, a poesia roçando a substância que busca compreender/apreender, como se fosse um poema-objeto, coisa essencial que a poeta faz materializar-se no vigor de sua linguagem, nesse ponto, quase visual, parecendo valer-se também da disposição dos versos na página em branco.

Aludindo ao poema “Destino”, de Cecília Meireles, Laura Amélia se autodenomina “pastora de nuvens” no poema “Infiel”. Mais que uma alusão, a referência intertextual é uma filiação, pois é só uma a substância que anima e deprime, subtrai e concede, ensombra e ilumina a alma dos poetas: “pastora de nuvens / fui posta a serviço / com os olhos vazados / pastora de nuvens / fui posta a serviço / com os pés decepados / pastora de nuvens”.

Sensibilidade – Destino de não apenas sofrer com a sensibilidade que qualquer sentimento pode esgarçar, mas, principalmente, o de transcender, muitas vezes, a dor da compreensão profunda das emoções incandescentes que inspiram o eu-lírico. Desde o desassossego do ultra-romantismo, o poeta sofre porque, mais que todos, pratica o conhecimento de que “somos feitos / para não sermos perfeitos” (“No ouvido de Darwin”). Destino que não se tece de tristeza apenas, porém igualmente de instantes sublimes nos quais a inspiração visita o poeta para lhe ofertar a possibilidade da reinvenção da vida: “artéria aberta / desatada / sangra / até que o caminho / ilumine / o estreito vão do possível” (“Inspiração”).

Assim, consciente dessa herança delicada, Laura segue conduzindo um rebanho de sentimentos e percepções, desassossegos e reminiscências. Em “A pedra branca do banco da calçada da rua de tia “Olga”, lembranças da infância – mosaico familiar que plasma a mundividência do eu-lírico e se erige na memória como um templo de ternuras: “todas / todas as vezes / que penso nela / eu entro no Taj Mahal”.

Na esteira do que afirma Baudelaire numa das epígrafes de “Arabesco”, a palavra dor encontra-se presente em vários poemas, todavia não parece ser a exaltação da dor uma obsessão da poeta. Ao contrário, Laura serve-se da poesia para filtrar a dor, desfazendo-se dela, como se vê em “Olfato” – pele gustativa que tudo sente e tudo guarda como lava incandescente que, num instante, brota das profundezas, evocada em odores que, de repente, retornam: “transeunte anônimo / ressequido hóspede / de adormecida memória / o tempo devolveu / a dor / e o odor / não o rosto”.

A publicação de “Arabesco”, de Laura Amélia Damous, só enriquece a literatura maranhense, porque, como no poema homônimo, é” ouro / diamante / adornando o véu azulbrilhanteescuro”.