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Academia Maranhense de Letras

Sebastião Moreira Duarte

Cadeira 01


Aquele que não devia morrer

8 de junho de 2019

Escrevo estas linhas à beira-mágoa, como diria o poeta. Recusei-me, de início, a escrevê-las, sem saber se o que me afligia mais era a mágoa em si, ou a sua causa inesperada e inexorável.

Encontrei-me ausente de São Luís, por alguns dias. De volta, retomando uma pauta de trabalhos adiados e inadiáveis, amanheço batendo as aldrabas da porta grossa do Mavam, o Museu da Memória Audivisual do Maranhão, aos pés da igreja do Desterro. Preciso de imagens para ilustrar algumas publicações próximas da Academia Maranhense de Letras.

Bato, e ninguém me ouve. Bato e insisto. Abre-me a porta, relutante, alguém que estava ali só para deixar a notícia: o Mavam bateu portas. Encerrou as suas atividades.

Desabo em desalento. (Nos tempos do velho Machado, eu diria: “enfiei!” – para dizer: “estremeci, fiquei pasmo!”)

E eu bem que podia evitar o longo percurso – quase 20 km! – até as portas fechadas do Mavam. Bastaria ter tido tempo para ler, nos jornais que se acumularam à minha espera, a nota pesarosa dada à imprensa pela pesarosa, mas ingênita elegância de Joaquim Haickel.

Desde a sua ideia inicial, o Mavam é grande e generoso como Joaquim Haickel, o seu criador, amparado, desde o prédio que o abrigava, até às instalações e equipamentos que o faziam funcionar, pela fundação que leva o nome de seu pai, o imenso Nagib. Como Joaquim Haickel, o Mavam era feito de teimosia. Seguia adiante movido por teimosia, a acendrada convicção que parecia ecoar, às margens do Bacanga, a expressão famosa que um dia Alfieri pronunciou ao pé dos Alpes, explicando-se a si próprio: “Eu quis. Eu quis sempre. Eu quis fortissimamente.” Desde menino, Joaquim Haickel queria o Mavam, desde estudante, desde os tempos dos filmes em super-8, desde o primeiro até o último Festival Guarnicê, Joaquim Haickel queria o Mavam. Joaquim queria fortissimamente o Mavam.

Muita gente pensava – e continuará pensado – que o Mavam era um órgão público. E não está/estava sem razão: trata-se de uma das mais públicas de nossas instituições privadas. (Em comparação, só a própria Academia, já pra mais de centenária, e que não tem outra razão de ser senão oferecer-se sempre, de portas abertas, ao público).

Não sei quantas vezes eu vi Joaquim Haickel se movimentando de um lado para outro – é quase impossível encontrá-lo parado! – atrás de velhos acervos familiares e profissionais, à cata de material para guardar e preservar no Museu de tantos usuários. Eu mesmo, já nem sabia mais que tinha tido sido comerciante em São Luís, quando um dia me vejo, em pulsante renovação de vida, junto com meu pai e meu irmão, cortando a fita inaugural de uma loja de eletrodomésticos que ia de uma rua a outra, no centro de São Luís. Que emoção, rever-me, ainda em sonhos de mocidade, resolvendo fazer-me rico em meio aos meus familiares! Quantas outras pessoas terão tido, poderiam ter, emoções iguais!

Foi por causa do Mavam que os maranhenses de ontem e de agora puderam ver as imagens da velha capital maranhense explodindo de dentro de seu centro histórico congestionado, abrindo-se pela ponte e pela barragem, por bairros e avenidas cuidadosamente calculados (e por imprevistos desvios da ideia original), segundo planos de um engenheiro teimoso chamado Haroldo Tavares. Tudo ficaria esquecido, irremediavelmente perdido, não fosse o cuidado de pesquisar, encontrar, adquirir e manter disponíveis documentos que tão facilmente se perdem e perecem.

Escolas de nossa rede pública e privada, instituições públicas e particulares podem dispor, ainda agora, de material insubstituível para aprender a História de sua terra, graças ao trabalho realizado pelo Mavam.

Mas o Mavam era, muito, Joaquim Haickel. Não vem ao caso indagar aqui por que dar-lhe fim, por lenta asfixia e final estrangulamento. Basta saber que a entidade era o indivíduo, a criatura era o criador. Este seria abatido, abatendo-se a sua criação.

Aprendi, desde os bancos escolares, que Y-Juca Pirama significa “aquele que deve morrer”. Queria saber como se diz, em língua de índio, “aquele que NÃO deve morrer”, para, assim, proclamar por sobre todos os telhados da Taba dos Timbiras: O Mavam NÃO deve morrer! O Mavam NÃO pode morrer!

E se, em definitivo, não for possível reabrir mais as portas do nosso Museu da Imagem maranhense, que se grave em seu epitáfio o que um amigo incomparável – e incomparável amigo do Maranhão, e seu historiador – mandou escrever sobre o seu túmulo: “Aqui dorme Carlos de Lima. Sob protestos”.

Sebastião Moreira Duarte