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Academia Maranhense de Letras

Carlos de Lima

Cadeira carlosdelima


Anjo e demônio da Praia Grande

21 de setembro de 2019

O reencontro com o artista plástico e dançarino Mondego, que ficou dez anos sem falar e agora diz que é anjo, mas também demônio

Mondego e sua arte intrigante, inspirada nos próprios conflitos

A última vez em que nos encontramos, quase uma década atrás, no Centro Histórico de São Luís, ele estava cumprindo o voto de silêncio que se impusera desde o começo do milênio.

Num dia qualquer do final do ano 2000, decidiu que não pronunciaria mais nenhuma palavra, nem mesmo sozinho. Ninguém mais ouviria sua voz. E, então, mergulhou num silêncio impenetrável que durou mais de dez anos.

Comunicava-se com gestos econômicos, para tratar apenas do essencial com as pessoas próximas. Dependendo do interlocutor, preferia escrever o que pensava ou desejava. Na ocasião, achei-o envelhecido para os seus 50 anos. Magro, comprido, como sempre, com uma barba rala, embranquecida, o rosto seco e encovado de dom Quixote. Entendemo-nos por gestos e sinais, ele muito afetuoso, mas com olhar distante. Lembro que fiquei triste quando, ao se despedir, ele inclinou o corpo para a frente com as mãos sobre o peito, reverente, e depois desceu, silencioso, a Rua da Estrela, esgueirando-se pelas paredes como um sonâmbulo. Agora, passados dez anos, sabia que ele, aos 60, voltara a falar, e queria revê-lo.

Para minha alegria, o encontro aconteceu sábado passado, depois que liguei para o amigo Lauro Martins, empresário e colecionador de arte maranhense, manifestando essa intenção. Uma hora depois, quando chegamos à Praia Grande, acompanhados também do publicitário Carlos Mallmann, ele, Mondego, já nos esperava no estacionamento.

“Que alegria encontrar vocês”, foi logo dizendo, batendo palmas. Sim, ele voltara a falar! Mas observei, incomodado, que, se mostrava a voz, ele escondia o rosto.

Usava um lenço vermelho como máscara, deixando à mostra apenas uns olhos inquietos, pois trazia enfiado na cabeça um chapéu preto com uma fita vermelha enlaçando a copa. Calça jeans surrada e camiseta, a longa cabeleira feito trança, presa pelo cordão de uma pequena cruz de madeira atirada para a frente, sobre o ombro esquerdo Uma figura! Lauro brincou: “Ele agora é o Zorro”. Eu disse: “Durango Kid”. Ele riu, e respondeu: “Tanto posso ser o Durango Kid, como posso ser o Zorro ou o Michael Jackson”. E avisou, rindo: “Não peçam, que não vou tirar a minha máscara”.

Arte de Mondego

O humor dele estava tinindo como o sol sem filtro daquela tarde são-luisense. Seguimos, os quatro, pela Rua do Trapiche, ele à frente, com sua máscara vermelha, falante e solícito para as fotos, e tomamos a Rua Portugal. Chegamos à Morada das Artes, antigo galpão transformado pelo governo estadual em abrigo, estação de trabalho e exposição para uma dezena de artistas. Mondego é um deles.

No hall, fica a exposição, aberta ao público. Ele nos mostra, satisfeito, o seu estúdio e, dentro, uma enorme tela a óleo ainda incompleta, parte da coleção “Anjos e demônios”, na qual diz estar empenhado.

Os apartamentos ficam no segundo andar do prédio. O de Mondego é um pequeno cômodo com um amontoado de objetos, roupas, cavaletes, quadros apenas iniciados, paleta de mil cores, recortes de jornais colados nas paredes, livros e revistas espalhados pelo chão. Ele nos explica o seu trabalho atual:

– Estou fazendo essa coleção aí. Os anjos e os demônios têm a ver com a nossa escuridão. Todos nós temos demônios. Já pintei vários deles. São seres da escuridão.

Todos nós temos tipo um buraco negro onde guardamos ele ali, porque se ele se solta pode fazer muitas danações. A gente tem que equilibrar e harmonizar essas coisas.

Ele lembra que seu nome completo é Edson de Jesus Montego e menciona suas passagens por clínicas de psiquiatria.

– Eu sou do demônio, mas também sou de Jesus, como está no meu próprio nome. Para encontrar esse equilíbrio foi que passei pelas mãos de psiquiatras.

Pergunto se a sua indumentária – a máscara, o chapéu, a cruz no cabelo – tem relação com os seus delirios atuais.
– Nada. Aí está a simbologia da minha própria personalidade. O gosto pelas cores, pela extravagância. Exu não tem uma face característica.

E o que é a arte para Mondego?
– A arte é a minha vida, minha forma de expressão, minha existência. Esse é o meu modo de falar com a multidão, com o planeta. Meu corpo também fala por mim.

Celebração pelo encontro
São quase cinco da tarde quando deixamos o apartamento e a Morada das Artes. O sol, já quase posto, projeta uma luz amarelada sobre as fachadas de azulejos da Praia Grande.

No primeiro bar, bebemos longas canecas de cerveja artesanal, escura e saborosa, e, para completar, uma dose de tiquira cada um. Demoramo-nos algum tempo no Flor de Laranjeira, bar e restaurante que exibe floreiras artificiais na calçada. Mais cervejas e novas doses de tiquira.

O encontro é uma celebração. Mondego, sempre falante, mostra que está feliz e nos contagia com sua felicidade. Por um descuido, retira a máscara, e eu não perco a chance de fotografá-lo com a mesma barbicha e o rosto esquálido de Dom Quixote, mas aparentemente bem mais saudável do que quando o vira dez anos antes.

Já é noite quando revolvemos seguir para a Rua do Giz, onde, no alto de um sobrado, dança um grupo de tambor de crioula. Subimos, e imediatamente Mondego entra na roda, dançando magistralmente, quase deslizando entre as dançarinas e coreiras. Nunca o vira dançar. Rumamos em seguida para a morada do professor Inaldo Mondego, um lindo sobrado com balcões internos de madeira que descortinam os telhados dos velhos casarões do centro histórico enegrecidos pelo tempo.

A arte é a minha vida, minha forma de expressão, minha existência. Esse é o meu modo de falar com a multidão, com o planeta”Mondego, artista plástico

Novas libações.
Quando descemos, uma lua imensa desponta no alto, como se surgida repentinamente do Beco da Pacotilha, iluminando o bairro inteiro. Mondego repetiu: “Sou o demônio. Anjo e demônio”.

Resolvemos encerrar o passeio, mas, ao chegarmos novamente à Rua Portugal, deparamos com o Buriteco, um barzinho & café simpático e quase vazio. Dentro, uma banda de garotos de Caxias, a Casino Quebec, tocava Beatles, e mudamos os planos. Entre novas canecas de cerveja e doses de tiquira e uma música maravilhosa executadas apenas para nós, vivemos quase uma epifania.

Ao nos despedirmos no meio da rua, eufóricos e felizes com aquele encontro, nos abraçamos, formando um círculo, como na tela famosa de Matisse.

Era uma da manhã. A lua lá no alto nos fitava. Sirenes de barcos soavam no porto em frente, anunciando a chegada de pescados da Baixada. E ficamos ali abraçados, Lauro, Mallmann, eu e Mondego com sua máscara vermelha na cara. Acho que estávamos chorando.

Ainda Mondego
Aviso aos distraídos: Edson de Jesus Mondego é um dos mais importantes artistas plásticos do Maranhão e um dos maiores do Brasil, embora pouca gente o conheça para além do Estreito dos Mosquitos.

Pertence à geração de Cosme Martins, Fernando Mendonça, Zé Roberto Lameiras e Geraldo Reis. Descobriu a pintura com o amigo de infância Rubens Amaral, e mais tarde, estudou com Rubens Gershman, entre outros grandes nomes. Integrou o ateliê de Luigi Eboli Tavolozza, em Nápoles e desenvolveu um modo original de pintar, fusão de vários estilos, com predominância do impressionismo.

Foi bailarino com Reinaldo Faray, estudou com o Balé Bolshoi e com o Ballet do Século XX, de Laura Proença, no Rio e São Paulo, mas a pintura foi sempre a sua forma de expressão mais natural. E São Luís, a sua cidade do coração. Foi casado durante 25 anos com a artista plástica Wanise. Tem cinco filhos.

Mais do que bailarino e pintor, Mondego é um personagem singular da paisagem humana e cultural de São Luís do Maranhão.

Conheço-o e sou seu amigo e admirador há trinta anos, e dele guardo, como um tesouro, uma pequena tela a óleo, uma mulher nua, em amarelo e azul vangoghiuano.

Mas nunca tinha tido um encontro tão marcante com ele, o anjo, que também é o demônio da Praia Grande, quanto o daquele sábado de sol e lua magníficos!

Antonio Carlos Lima
Jornalista, membro da Academia Maranhense de Letras
E-mail: antonioacglima@gmail.com