Blog

Academia Maranhense de Letras

Ewerton Neto

Cadeira 11


AGRURAS DE UM MORTO-VIVO

29 de janeiro de 2021

Viver foi sempre uma aventura complicada, imprevisível, com muitos momentos prazerosos, mas que, infelizmente, um dia acaba mal . E que se torna mais complicada, quando o obrigam a provar justamente que você existe. Como se as autoridades deste país quisessem sugerir que, para eles , sua vida é questionável. Enfim, eles não estão convencidos de que você pertença ao mundo deles, dos vivos. Tanto assim é que, entra ano sai ano, você é chamado a se dirigir a um banco para provar que está vivo. Nada os induz do contrário: nem sua carteira de identidade, seu CPF, sua ficha no Serasa… Muito menos as fotografias que você posta nas redes sociais, o Bolsonaro e o Gilmar Mendes que você xinga, as boazudas pelas quais você baba no zap, nada disso lhes comprova que você esteja vivo. É quando, sem poder evitar, você passa a duvidar também: será que estou vivo?Com um começo de depressão, ao receber a intimação para comparecer ao banco sob pena de perder o dinheiro da aposentadoria você joga todas as suas fichas nessa tal PROVA DE VIDA. Bote ansiedade nisso! Para o Banco você se dirige então, ansioso mas esperançoso, a fim de comprovar que está realmente vivo. A sensação de que você pode ser um morto-vivo não sai de sua cabeça. Se essa for a sua primeira vez você se indaga: “Que deverei fazer para passar no teste? Dar um grito? Espirrar? Peidar? E se mesmo assim, o avaliador não ficar satisfeito? Deverei bater nele? E se ele reagir?”O mais desolador nessa história é que, após ter sido aprovado num teste tão fundamental, você não recebe um baita documento, ou cartão, como imaginava. Pelo contrário, apenas lhe dão um papelzinho de máquina registradora, igual fatura de supermercado. Ora, claro que você gostaria de receber algo tão opulento quanto um diploma, minimamente visível, para colocar no pára-brisa do seu carro ou na sala de seu escritório. Algo que pudesse apresentar para os amigos com as palavras EU ESTOU VIVO escrito com letras garrafais. Mas, qual, só lhe entregam um papelzinho tão descartável quanto, para eles, a sua vida. O que fez reluzir a ideia concebida por um amigo, ele também vítima das agruras de aposentado. Ele propôs: “Que tal se esse atestado de Vida, passasse a substituir todos os outros: CPF, identidade, título de eleitor, cartão de idoso e tudo o mais?” Claro que seria uma boa, respondi. Só assim todos teriam a sensação de que suas Provas de Vida estariam servindo para alguma coisa.