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Academia Maranhense de Letras

Ceres Costa Fernandes

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A ÚLTIMA LUA CHEIA DA DÉCADA

20 de dezembro de 2019

Aconteceu, no dia 12 de dezembro, a última lua cheia da década, a que vai de 2010 a 2019. Deslembrada que sou, fui avisada da ocorrência por uma querida amiga. Qual o significado deste fenômeno celeste? Causará alguma perturbação ecológica, enchentes, incêndios, terremotos? Sinto decepcioná-los, nada além de que só teremos outra lua cheia em 29 dias, e esta será em outra década.
Sem saber bem a razão, a notícia me deu uma leve tristeza, um não sei quê de coisa que se esvai, escorre entre os dedos, não capturada. No entanto, essa lua, a vi nascente em casa de Maria Teresa, entre abraços de amizade e depois, soberba, na varanda da minha casa. Poderia ter ido à beira do mar, pisar na água, de leve, no rosto redondo e brilhante em meio às espumas, ou (quem sabe?), estar em roda de luarada com violão. Não o fiz, mas tive a consciência plena do momento.
Humberto de Campos conta, em suas Memórias Inacabadas, sua obra maior, que ainda quase menino, em São Luís, viveu a passagem do Século XIX para o XX – e como foi grandiosa a chegada de 1900, festas, bailes, fogos! – dentro do depósito de um armazém de secos e molhados, na Rua da Paz, lavando garrafas de vinho, para serem reutilizadas. Aparentemente indiferente aos festejos, não se apercebeu da grandeza do momento.
Na passagem do século XX para o XXI, a virada do segundo milênio, de 1999 para o ano 2000, era grande a expectativa dos místicos e o temor de parte da humanidade que fossem realizadas as profecias do Apocalipse, de Nostradamus, e de outros, menos votados, mas igualmente acreditados, cartomantes, pajés, videntes, jogadores de búzios e feiticeiros…
Alguns fanáticos do final dos tempos, influenciados por seitas religiosas radicais e que se dizem detentoras da chave dos desígnios divinos, preparam-se para subir aos céus de pacote. É fato amplamente divulgado pela mídia, que, algumas dessas seitas, tomadas de furor apocalíptico, interpretando a seu modo as profecias da Bíblia e de outros mais, induziram seus seguidores à pratica do suicídio em massa. O curioso é que os haveres dos bem-aventurados, em vez de serem distribuídos aos pobres, foram doados às respectivas igrejas.
E o mundo não acabou. Estou vendo ele pela janela. E continua lindo, apesar dos seus míseros inquilinos.
Eu, como Humberto de Campos, não me dei conta da grandiosidade da passagem do século e do milênio, passei a data em casa, como gosto, festejando com filhos, netos e alguns bem poucos amigos, igual aos outros anos.
De repente, uma lua cheia desimportante me vem ao bestunto e mostra-me que vivi momentos grandiosos e marcantes da humanidade, que sou testemunha ocular da História. Os milhões nascidos nas duas décadas deste século não verão jamais a virada de um milênio. E a passagem de dois mil e noventa e nove para dois mil e cem ficará para poucos centenários, nascidos nos primeiros anos de 2000, que alcançarem a graça de estarem vivos à data.
Meu Deus, sou do milênio passado, quase igual ao Raul Seixas que é de dez mil anos atrás. Por quase mil anos, não haverá ninguém na Terra que se gabe de repetir o meu feito e de outros que atravessaram comigo essa dupla efeméride.
Este milênio e este século também me escorrem entre os dedos, não posso retê-los, assim como a vida, outrora abundante, que ignorei em muitos momentos, agora me apercebo. Mas que é bonita como a última lua da década