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Academia Maranhense de Letras

Ewerton Neto

Cadeira 11


A SUTIL ARTE DE LIGAR O F**DA-SE

20 de janeiro de 2018

O que acontece quando se juntam  “Sutil arte” com “ligar o F**da-se”? Errou quem disse que nada acontece ou pensou em algo estapafúrdio. Quem se dispôs, como eu, a ver a lista de mais vendidos da Veja e deparou com esse ajuntamento de palavras  chegou à conclusão (com alguma dificuldade) que se trata  do título de um livro. Isso mesmo: o título de um livro.

Já vão longe os tempos em que os títulos dos livros de autoajuda nos assediavam apelando para referências religiosas solidárias do tipo “Jesus, o maior psicólogo que já existiu” ou com conversas para boi dormir do tipo “Você vale o que você pensa”. Parece que a autoafirmação, nesta segunda década de século, dispensa conselhos filosóficos ou religiosos. A coisa vai melhor quando se introduz, forçosamente, uma alusão ao sexo.

Isto  posto, impacto alcançado, só resta ao potencial leitor a tarefa de tentar entender que diabos é isso que estão lhe oferecendo. Intrigado, me dediquei à árdua tarefa. Avante!

O que significaria ligar o F**da-se? Até onde eu sabia esse ato não precisa ser ligado na tomada. Ou precisa? Vá lá, é sabido cientificamente que as vaginas quando excitadas produzem algum grau de eletricidade, mas como se daria o ato de inseri-las, digamos assim, num fluxo elétrico?

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Eipa! Eis que surge outra opção.  Vai ver que o F**da-se não está sugerindo um movimento, mas subtendendo uma imprecação: a de mandar o mundo às favas. Parece que estamos diante de um autor que nos dará apoio nesse propósito (…Mas, cá pra nós, precisa ajuda para isso?)

Huuumm! Como poderia ser também uma proposta de auxílio para quem queira suicidar-se. Se o verbo está no modo reflexivo isso significa que encontramos alguém disposto a ensinar o leitor a se F***, ou seja, a morrer… Heureca!

Metade da questão resolvida,  eis que me deparo com outra parte mais complicada do entendimento. O mais bizarro agora nem é mais o tal  “Ligar o F**”, mas conceber uma explicação para o que vem antes. Pois o autor categoricamente insinua que, por trás disso, há uma arte sutil. Sim, senhores: Nada de Shakespeare, nada dos aforismos de Millor Fernandes ou de Mencken, arte sutil, nos dias de hoje é ligar o F**da-se!

Embaralhado, agora, mais que antes, me deu uma maldita vontade de comprar o livro só para resolver o mistério, o que acabaria fazendo, caso não contemplasse na lista, outra vez, a mesma palavra. Vi que o sexto da lista também vai pela mesma onda sexual e o título  do livro é “Eu sou foda”, de um tal de Caio Carneiro. (Portanto, temos F*** pra dar e vender numa lista de livros mais do que numa edição do BBBrasil)

Enquanto meditava sobre o que levaria alguém a comprar o livro de um sujeito que se julga foda, sem ser o Messi ou o Cristiano Ronaldo, me deparei, afinal, com outro título da lista, este sim, de enorme valia para o momento de ‘dúvida existencial’ que eu passava. É o terceiro mais vendido, com o título Porque fazemos o que fazemos, de certo Sergio Cortella,  certamente um aparentado de Deus para saber tanta coisa a respeito da gente que nem  mesmo a gente sabe.

Talvez ele conseguisse me explicar, afinal, o que leva marmanjos aparentemente normais a escrever livros com título como esses.

José Ewerton Neto é autor de O entrevistador de lendas, sobre lendas maranhenses