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Academia Maranhense de Letras

Ivan Sarney

Cadeira 17


A juventude é o próprio incerto futuro

23 de agosto de 2015

Tenho orgulho de ser o autor do texto, do projeto de lei que proibiu a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos, no Município de São Luís. Tive a coragem de apresentar esse projeto, sem medo de angariar a possível antipatia dos jovens menores de 18 e maiores de 16 anos, que já podem ser eleitores, em nosso país. Ela antecedeu o Estatuto da Criança e do Adolescente que estabeleceu essa proibição, no país inteiro.

Considerei que tinha deveres inarredáveis a cumprir, como parlamentar, que estavam muito além da possível antipatia de um contingente impreciso de jovens, que poderiam entender minha atitude como algo que lhes fosse prejudicial. Aprovada a lei, pude ir constatando em nossas reuniões, que uma grande maioria dos jovens, com quem conversava, estava aplaudindo nossa iniciativa e coragem, nossa postura parlamentar determinada e lúcida.

Fiquei, então, com as forças redobradas e com elas pude cobrar nesta coluna, pude cobrar na tribuna da Câmara, nas entrevistas em rádios, nas matérias de jornais.

Cobrei que as autoridades do Executivo estadual e municipal deflagrassem campanhas educativas sobre os riscos do álcool, sobre o cumprimento dos dispositivos legais, e realizassem ações repressivas àqueles que fossem flagrados, na prática transgressora prevista na lei.

Até hoje, no entanto, nenhuma campanha foi realizada, nenhuma autuação foi feita, que eu sabia, visando coibir esse abuso tão nocivo à juventude, tão destrutivo para o nosso presente, tão ameaçador para o nosso futuro. Mas a lei está em pleno vigor, à disposição das autoridades, com um explícito desejo de proteger a juventude, a família, o cidadão, a sociedade e o futuro.

Não podemos continuar assistindo ao verdadeiro massacre a que nossa juventude está sendo submetida, diariamente, a partir dos meios de comunicação de massa, que tentam nos induzir ao consumo de todos os produtos, inclusive as bebidas alcoólicas.

Não podemos continuar assistindo ao assédio perverso, destrutivo que os fabricantes e comerciantes de bebidas alcoólicas promovem, usando a mídia em todas as suas formas de expressão, para seduzir os consumidores especialmente os jovens, usando imagens de atletas consagrados, para promover o consumo de suas marcas, como se o álcool fosse benéfico à saúde.

Sabemos que o álcool é a mais perversa e perigosa das drogas, por várias razões. A primeira delas é que não é proibida como droga. A segunda é que é muito barato. A terceira é que está em todo lugar, desde o mais exposto ao mais recôndito. Em qualquer quitanda de bairro pobre o álcool ali está, vendido a retalho e a varejo, a gosto do freguês. Infelizmente, esse freguês muito visado é o adolescente, o novo mercado de expansão irresponsável desse consumo.

Até hoje, no entanto, nenhuma campanha foi realizada, nenhuma autuação foi feita, que eu sabia, visando coibir esse abuso tão nocivo à juventude, tão destrutivo para o nosso presente, tão ameaçador para o nosso futuro.

Mas o álcool é a porta de ingresso para todos os vícios, que têm as drogas como suas motivadoras. Através do álcool vêm todas as outras, uma chamando a próxima, a mais grave, a mais desagregadora, a mais letal. Quase todas são potencialmente letais e, de uma forma ou de outra, acabam destruindo vidas, famílias e apodrecendo o próprio tecido social.

Os jovens estão pelas madrugadas, sem serem molestados, apesar de existirem leis que os resguardam de estar expostos, em local e horas indevidas. Nos bares, nas lanchonetes, nos botequins, não raro são encontrados jovens tomando bebidas alcoólicas, muitas vezes, diante dos próprios pais que os estimulam. Um pai pode assumir o risco de seu filho desencaminhar-se na vida, por conta de sua ação ou omissão voluntária, um comportamento não censurado, não reprimido. Poderá também responder por possíveis comportamentos transgressores de seu filho.

O poder público não pode ser tolerante, conivente com esse tipo de comportamento ilegal, porque submete uma ou mais gerações inteiras ao descaminho, com um gesto de omissão. Quantos jovens, nesta época de agora, estão iniciando uma vida de destruição interior, a partir da ingestão de bebidas alcoólicas? Quantos já estão iniciados e se encontram em fase mais avançada de compromisso, de dependência das drogas, tendo o beneplácito da omissão do poder público, no que toca ao uso álcool?

A quem interessa esse estado de coisas? Certamente não interessa aos pais, nem aos jovens, nem ao poder público. Não interessa a ninguém, senão aos traficantes, aos produtores, aos que têm vantagens econômicas com essas atividades nocivas à sociedade e ao futuro. Não interessa, com certeza, a mais ninguém, além dos que se locupletam com a degradação da condição humana.

Para esses, pouco importa saber se jovens meninas, que amanhã serão mães; se jovens rapazes, que amanhã serão os pais; se eles estão comprometendo sua felicidade, a saúde de seus futuros filhos; se eles mesmos estão em condições físicas e psicológicas de enfrentar desafios. Esses, que agem contra a proteção dos jovens, constituem uma ameaça à família brasileira, ao presente e ao futuro que estamos querendo construir, mais luminoso e harmônico.

Os jovens são a riqueza mais delicada e emergente de um país. Não podemos tergiversar com os problemas que envolvem a juventude. Eles precisam de nossa ação urgente, de nossa ajuda.

Apelo ao poder público estadual e municipal para que promovam as campanhas educativas sobre os males do álcool, especialmente para os adolescentes; para que promovam a fiscalização, para evitar a prática que a lei proíbe.

Apelo ao Juizado de Menores para que também se mobilize e use de suas competências, para coibir tais práticas nocivas à juventude.

Vamos de mãos dadas, de sentimentos dados, pela proteção da juventude, pela construção de um amanhã mais esperançoso para nossos descendentes. Amar a cidade é proteger sua juventude que é o seu futuro, sob todos os aspectos. É preciso amar a cidade.