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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


A curiosidade humana

25 de janeiro de 2020

Uma das leituras que tive mais instigantes que empreendi nestes últimos dias é de autoria de Daniel Kehlmann, intitulada A medida do mundo. O autor é um dos mais festejados escritores alemães, justamente por sua capacidade de transpor, numa linguagem acessível e interessante, temas que a princípio não despertariam a atenção de leigos em determinada área.

Na obra mencionada, um bem humorado e rico diálogo entre dois grandes curiosos-descobridores muito opostos em seus métodos e natureza sobre o que queriam explorar: um, recluso; outro, aventureiro. O romance fala dos alemães Alexander von Humboldt (1769 – 1859) e Johann Carl Friedrich Gauss (1777 – 1855).

O fio condutor dessa narrativa é a curiosidade humana, que nasce da necessidade, da vontade, da busca deliberada pelo conhecimento. E um de seus maiores impulsos é a sede por descoberta. Contemporâneos e oriundos de classes sociais muito diferentes – Gauss, filho de jardineiro e Humboldt, nascido na nobreza alemã – os cientistas foram luminares para a ciência em suas áreas de conhecimento: Gauss na matemática, fundamentalmente e Humboldt um (re)descobridor das Américas quase virgens.

Durante seis anos, Humboldt empreendeu uma viagem pela América Latina, feito tão incrível quanto a circum-navegação realizada por Fernão de Magalhães quase duzentos anos antes. Magalhães não terminou a viagem, mas sim, Juan Sebastián Elcano que assumiu o comando, após sua morte.

O espírito de Humboldt e sua sede por saber – a frase completa é “o ser humano tem sede de saber” – cria uma situação inusitada entre ele e seu fiel companheiro de viagem, Aimé Bonpland. Ao viajar para Madrid – para pedir autorização à coroa espanhola para a viagem exploratória -, desde a França, Humboldt media cada colina, subiu cada montanha do percurso. Aquilo causou estranheza a Bonpland, a ponto de explodir: “nós apenas queremos ir a Madrid. Com todos os demônios, chegaremos muito antes, se simplesmente nos dedicarmos a cavalgar.” A resposta de Humboldt: “uma colina cuja altura não se conhecia era uma ofensa à razão e o que me perturba.” Eis o homem!

Parece que Bonpland pegou o espírito. Na Venezuela, foi a vez de Humboldt admirar-se. Bonpland gastava horas examinando, com a ajuda de uma lupa, as tranças na cabeça dos índios. Estes riam e cochichavam com a esquisitice. Para que serviria essa pesquisa? Explicação: o homem tem sede de saber.

Depois da primeira etapa de sua viagem, iniciada em 1799, pela Venezuela, Humboldt tentou entrar no Brasil, mas foi impedido por receio da coroa portuguesa de que fosse um espião. Assim, nos quatro livros escritos e primorosamente ilustrados com animais e plantas da América, há completo silêncio sobre o Brasil.

Ao longo das páginas do livro, Gauss e Humboldt vivem aventuras e o autor aproveita para nos compartilhar os ideais que moviam esses dois gênios. Assuntos como divisão da circunferência, mapas estelares para as viagens feitas no mar e a geometria numa visão bem particular do matemático nos ajudam a perceber a evolução da astronomia e da física.

O livro tem seu mérito por ratificar que a curiosidade humana foi a grande responsável por nos conduzir a caminhos nunca imaginados ou sequer sonhados – fora alguns poucos visionários – por nossos antepassados. Para que aqueles que, como eu, abraçaram a senda hipocrática, escolho como exemplo o quadro A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, pintado por Rembrandt – uma encomenda da Associação de Cirurgiões de Amsterdã – que até hoje desperta fascínio por revelar as remotas lições de anatomia até a forma com que são ministradas hoje.

Em todas as eras, os curiosos, persistentes e determinados foram os luminares de um mundo melhor, mais avançado e promissor. Que este seja o nosso ímpeto para melhores e maiores conquistas.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA