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Academia Maranhense de Letras

José Neres

Cadeira 36


A canção inicial de José Sarney

18 de abril de 2020

1948. Enquanto o mundo tentava recuperar-se dos traumas da II Guerra Mundial, o poeta T. S Elliot recebia o Prêmio Nobel de Literatura, nos cinemas estreavam as versões de Macbeth (de Orson Welles) e Hamlet (de Laurence Olivier), o Brasil chorava a morte de Monteiro Lobato e recebia a notícia de que a Câmara dos Deputados iniciava o ano aprovando a cassação dos deputados comunistas, um jovem maranhense de apenas 18 anos, lia, relia e alinhavava os versos de um livro que seria publicado seis anos mais tarde.

O livro foi publicado em 1954, ano de grande efervescência política, marcado principalmente pelo suicídio de Getúlio Vargas. O título escolhido pelo autor: A Canção Inicial, deixava claro que seu autor, que já havia sido eleito para a Academia Maranhense de Letras e que também começava a destacar-se na vida política, não queria apenas aventurar-se nas searas da literatura, mas sim solidificar seu nome entre os autores de língua portuguesa.

A primeira edição do livro, com tiragem de apenas 250 exemplares, em formato de 13,5 X 23,5, tinha 44 páginas, com papa ilustrada por Cádmo Silva. Dividida em três parte: 1) As canções; 2) As baladas; 3) Outros poemas, a obra demonstra que seu autor, embora não inovasse na linguagem, parecia estar atento às mudanças estéticas que vinham ocorrendo nas artes após o advento do Modernismo. Inclusive é possível perceber-se ecos de nomes como Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mário de Andrade nas páginas do livro.

Em uma mescla de sentimentalismo, engajamento social e jogos de linguagem, José Sarney traz em seus poemas uma preocupação com um todo que se forma de inúmeros fragmentos de imagens particulares. Em alguns momentos, o eu lírico prefere navegar na sensualidade de “Um corpo branco de plumagens garças / Onde os montes / são mistérios / ondulando na curva dos seios”. Mas também há espaço para questionar as injustiças sociais, como em Balada do Menino Solto, que retrata a triste vida de garotos pobres e sem perspectiva de um futuro melhor. Tais crianças são sintetizadas na alegórica figura de um “menino que morre / debaixo das rodas / e no dia seguinte não sai no jornal”.

Mesmo apostando na composição de poemas em versos livres e em uma liberdade com relação ao uso das rimas, o jovem Sarney ainda demonstrava estar ligados à tradições clássicas de suas leituras, como pode ser visto, por exemplo, na confecção do soneto Canto de Saudade e no constante uso de assonâncias e aliterações: “O sino bate / bate na torre / na torre velha / da velha Sé. // O vento vem / vindo de longe / o seu gemido” (Balada do Cais).

Em alguns momentos do livro, o suscitar de imagens poética em forma de palavras lembra a herança simbolista mesclada com uma carga de Romantismo contido pelas influências de um olhar voltado para um modernismo que começava a ganhar corpo. Independentemente dessas claudicâncias bastante compreensíveis na obra de estreia de um jovem que tentava se desvencilhar de toda uma tradição ancestral que ainda ressoava nas páginas de muitos poetas daquela geração, não se pode negar a beleza de poemas como Menina Morta, um refinadíssimo texto no qual a tessitura poética das palavras entra em conflito direto com a crueza das imagens que entristecem qualquer leitor mais sensível: “Espantem os carcarás / seus bicos não biquem / os olhos da menina”.

A Canção Inicial, de José Sarney é um livro que merece ser lido com atenção, pois conseguiu manter-se atual diante das mudanças. E hoje, mesmo diante de tantas tecnologias, ainda nos perguntamos: “Mundo, meu mundo / que vários caminhos / em ti vão dar?”