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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


A atualidade de Francisco

10 de outubro de 2020

Cristãos católicos comemoraram, no último domingo, o dia de São Francisco de Assis, um dos santos mais populares da igreja católica, cujo exemplo de amor e dedicação aos pobres, aos animais, à natureza e, sobretudo, de devoção a Deus ecoou séculos adiante e muito ainda nos ensina a nós, passageiros de um tempo pandêmico.

O papa aproveitou a ocasião da proximidade do aniversário do santo para rezar uma missa na cidade de Assis, numa pequena cripta da basílica onde está o túmulo de Francisco, morto em 1226. O Santo Padre aproveitou para lançar sua terceira encíclica, cujo título é “Fratelli tutti” (Todos Irmãos). O documento é fruto das reflexões que o papa trouxe a lume sobre a importância da fraternidade num mundo assolado pela Covid-19.

Francisco, o santo, entendeu o propósito maior da vida e da sobrevivência da humanidade: o respeito e proteção aos demais seres que habitam este planeta, que são os animais e as plantas. Outros de seus legados: a evangelização direta, simples, em meio ao povo; o cuidado com os necessitados, os excluídos, a harmonia entre a vida moderna e o zelo com a natureza.

Não foi por acaso que o famoso escritor Dante Alighieri tenha feito referência ao nascimento de São Francisco de Assis, em sua conhecida Divina Comédia (Paraíso, Canto XI), com esta expressão: “Nasceu no mundo um sol”. Dante o considerava um verdadeiro herói da fé. Não por acaso, o diretor de cinema Franco Zefirelli, em 1972, escolheu o título ‘Irmão sol, irmã lua” para seu filme que conta a trajetória de São Francisco e Santa Clara, esta fundadora da Ordem das Clarissas, tida como uma das primeiras discípulas do santo.

A dedicação aos pobres, seguida de uma vida de oração e de boas ações por si só, já seriam suficientes para torná-lo referencial, mas a atualidade de Francisco de Assis reside no fato de que a fraternidade é a ferramenta que pode preservar a existência de todos.

Conta-se uma antiga história sobre São Francisco de Assis e um lobo que aterrorizava um vilarejo. Os moradores do local foram pedir ajuda ao santo, informando-lhe das inúmeras maldades praticadas pelo animal. Depois de ouvi-los atentamente, toma uma decisão: ir atrás do lobo, conversar com ele. Ao encontrá-lo, em vez de impropérios e ameaças, um diálogo pacífico. – Irmão lobo, disse o santo, ordeno-te, da parte de Cristo, que não faças mal a ninguém. – Mais diálogo, amor aos mais necessitados e cuidado com o próximo, mesmo quando as ações deste não despertem simpatia, a exemplo do lobo da história, é a lição do santo: irmanar-se ao próximo.

Porque “A vida é arte do encontro/ Embora haja tanto desencontro pela vida…”: eis um trecho da letra da música Samba da bênção, de Vinícius de Morais, na direção do sentido da encíclica papal recém-lançada, quando Francisco fala que “ainda é possível optar pelo cultivo da amabilidade; há pessoas que o conseguem, tornando-se estrelas no meio da escuridão”.

Trata-se de um documento em que fica evidente a necessidade de arrefecer guerras fratricidas, fortalecer identidades e, ao mesmo tempo, eliminar preconceitos, que só alimentam discursos de ódio e de violência. Um documento que condena o consumismo desenfreado, justamente por alijar os jovens desempregados, os idosos sem renda e excluir os pobres de uma vida digna e justa.

Há milhares de anos, Francisco de Assis descobriu ser a convivência pacífica e harmoniosa um antídoto para diversos males.

Finalizo esta crônica com a oração ecumênica do papa em sua encíclica que é um mantra a ser seguido: Concedei-nos, a nós cristãos, que vivamos o Evangelho/ e reconheçamos Cristo em cada ser humano,/ para O vermos crucificado nas angústias dos abandonados/ e dos esquecidos deste mundo/ e ressuscitado em cada irmão que se levanta. Vinde, Espírito Santo! Mostrai-nos a vossa beleza/ refletida em todos os povos da terra,/ para descobrirmos que todos são importantes,/ que todos são necessários, que são rostos diferentes/ da mesma humanidade amada por Deus. Amém.


Natalino Salgado Filho

Reitor da UFMA, titular da Academia Nacional de Medicina, Academia de Letras do MA e da Academia Maranhense de Medicina