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Academia Maranhense de Letras

Natalino Salgado

Cadeira 16


2018, um ano tóxico?

29 de dezembro de 2018

“O instante é em si mesmo iminente. Ao mesmo tempo que eu o vivo, lanço-me na sua passagem para outro instante” (Clarice Lispector)

Tornou-se uma tradição. O dicionário Oxford escolhe a cada ano uma palavra que simbolize e reflita nossa conturbada rede de relações e que constrói nossa história. Em 2016, ano da eleição do presidente americano, a expressão pouco comum, mas que representou bem os novos ventos que se impunham no cenário político mundial, foi “pós-verdade”. Em 2017, a palavra escolhida foi “youthquake” em tradução livre significa terremoto jovem, pois homenageava a força da geração milenial.

Este ano, que ainda respira seus últimos dias, a palavra escolhida foi “tóxico”. Segundo o dicionário, a escolha deveu-se por ser uma “expressão que é julgada como um reflexo do ethos, do humor ou das preocupações do ano que está chegando ao fim. Ela tem um potencial duradouro como termo de significado cultural”.

Aqueles que contribuíram para a escolha da palavra, para qualificar o ano que ora se encerra, explicaram que o verbete faz referência também aos diversos casos de assédio sexual que vieram à tona, abalando figuras internacionalmente conhecidas do mundo cinematográfico e, para espanto daqueles que admiravam o trabalho do famoso médium brasileiro, tais acusações eclodiram, inclusive, aqui. A expressão também quer chamar a atenção para uma crescente invasão – às vezes estereotipada, sem prévia análise cuidadosa – de ataques que as pessoas desferem às outras nas redes sociais e que redundam em uma série de prejuízos deletérios, de consequências muitas vezes incalculáveis.

O ano de 2018 se despede, mas deixa marcos que representam grandes mudanças no eixo de rotação das relações comerciais e políticas no planeta. Cambaleamos entre opiniões díspares sobre o aquecimento global. O Brasil foi tremendamente impactado com a eleição presidencial, uma das disputas mais tensas já presenciadas. Nunca se falou tanto em fake news. Acirramento de opiniões, divergência de ideias e um desgaste profundo nas relações entre amigos e entre familiares.

No cenário internacional, as forças tectônicas, que movem os países mais poderosos do mundo, mostram desgaste e uma mudança muito mais clara da unipolaridade, liderada pelos americanos, para a multipolaridade, seja pela força econômica ou pela militar. A China nos surpreende a cada ano e assistimos, ainda estarrecidos, os dramas migratórios dos povos africanos, venezuelanos e sírios.

Como será que poderemos erradicar esse epíteto que classificou 2018? Se pensarmos que o ano que se inicia é uma nova chance para ser (e fazer) algo diferente e nos comprometermos com a mudança que queremos (ou podemos), há uma esperança de que 2019 receba qualificação melhor. Em seu belíssimo poema, Passagem do Ano, Drummond de Andrade vaticina: “(…) Surge a manhã de um novo ano. As coisas estão limpas, ordenadas. O corpo gasto renova-se em espuma. Todos os sentidos alerta funcionam. A boca está comendo vida. A boca está entupida de vida. A vida escorre da boca, Lambuza as mãos, a calçada. A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.”

Drummond celebra a “nova vida” prometida por um ano que se inicia. Os poetas são os profetas das verdades profundas, não vistas ou desconhecidas pelos demais. Se pudermos oferecer em nossas vidas mais espaço à arte, beleza, reflexão, música e aproximação, todos nós, uns dos outros, certamente estaremos afastando a toxidade das relações cheias de palavras duras, desrespeitosas, desvalorizadoras, erradicando o tóxico que envenena o ar, rios, florestas e mares; acabando com a toxidez de ações violentas, assassinas e que degradam o homem, imagem e semelhança de Deus.

Lembro a belíssima oração de Moisés no Salmo 90, quando este roga a Deus: Ensina-nos a contar os nossos dias, para que o nosso coração alcance sabedoria.

Que haja em nós essa disposição para (re)aprendermos a cada dia do ano novo que se avizinha. Um ano menos tóxico a todos e a todas!

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA