Artigo do Ocupante

Pé-de-moleque e outras memórias juninas

Ceres Costa Fernandes

23 de junho de 2022

(Do meu livro de Memórias a ser editado)

         Pé-de-moleque maranhense. Em uma festa junina, me reencontrei com ele e me dei conta que há muito não via o doce em nenhum arraial, nem na casa de pessoa alguma do meu conhecimento. É um bolinho feito de farinha d’água, frito e passado no açúcar com canela. Parece ter perdido a atualidade, passado de moda, assim como o derresol. A gente sabe que existe, mas não vê mais.

      O gosto do primeiro bocado me levou de volta ao Largo de Santiago, ao início das minhas experiências culinárias infantis, quando aprendi com Santa a fazer pé-de-moleque de farinha d’água. De receita fácil, devem ter saído bons: foram gulosamente aprovados pelos familiares. Logo pensei em estabelecer um negócio lucrativo, fazer os doces para vender. Sem que mamãe soubesse, com a aquiescência de Santa, a cozinheira, comecei a produzir os bolinhos em escala, digamos, comercial, e vendia na vizinhança, bem baratinho. Coisa de centavos. Arranjei boa freguesia, que ia de  Dona Edite Matos a Dona Marina Belfort, à esquerda; e  de dona Concita Corrêa Lima a Dona Magnólia Menezes, à direita.  Antes que enchesse meio cofrinho, entrou em cena meu pai que, além de me obrigar a encerrar a carreira de empresária, ainda me fez devolver todos os centavos do cofrinho. Eis um exemplo de como se desestimula uma filha de dez anos a desenvolver uma promissora carreira.

       Tomo café com minha mãe na mesa de azulejos do terraço da casa do Olho d´ Água e relembro com ela a malograda venda dos pés-de-  moleque para rirmos juntas dessa experiência  infantil. Ela me ouve e sorri, observando com curiosidade um passarinho, que se aproxima da nossa mesa atrás de migalhas e não se intimida com a nossa presença, é de casa. De repente, seu olhar se torna longínquo e ela começa a cantar uma toada boieira baixinho, para si mesma: “Ê passarinho, quantas pena furta cor, com teu biquinho encarnado e teus olhinho matador”.  Essa toada cabocla, escutei-a cantar  muitas vezes, sem nunca saber a sua origem. Que boi é esse, mãe? Não sei, é de São Bento, ele dançava, acho, na casa do juiz, Dr.Itapary... E  ela continua, revivendo o  São João da sua memória, Eu tinha medo de dança de boi, eles soltavam busca-pés. Eu me escondia debaixo da mesa e meu pai dizia: Vem, tem bolo de milho, cocada. Eu não ia. Ah, mãe, digo eu, hoje não soltam mais busca-pés, agora são só fogos coloridos, e os caboclos subnutridos e mirrados foram substituídos por moças torneadas de bundinha de fora e rapazes atléticos e musculosos. Acho até que deve haver concurso de beleza antes de escolher os brincantes. Feio não tem vez, brinco para distraí-la. Embalada por suas recordações, não mostra interesse pelo que digo e repete, Não gosto de busca-pé.

      Das lembranças juninas nada me impressionou tanto quanto um abre alas, que não sei também onde nem quando ouvi. Dizia: “Chegou Brilha nas Ondas, fazendo a terra tremer!” Poderoso refrão! Gostava de repeti-lo vezes sem conta, rolando as palavras na minha boca. Que bonito! Seria o nome de um boi? Mas por que nas ondas? Jovem, eu amava navegar e sonhava ter um catamarã branco; e me prometi: o nome seria Brilha nas Ondas. Meu primogênito quis realizar esse sonho, e com as economias do seu primeiro emprego comprou de alguém desonesto um catamarã que teria o nome mágico dos meus sonhos. Pagou por um barco de madeira podre que nunca navegou. Foi-se o Brilha nas Ondas. Depois o meu outro filho, velejador, comprou barcos com outros nomes. Um se chamou Infinito, gostei do nome, mas não havia mais o desejo do barco branco a brilhar por sobre as ondas. Sumiu em alguma maré vazante da minha vida

        O boi de Rosário me vem em outra memória. Essa eu devo a meu irmão. Era  pequeno e gostava de ver boi dançar. Papai chamava um boi de orquestra, que vinha de Rosário no São João – estranho, morei lá, bem menina, mas só tenho memória do boi de Rosário dançando em São Luís. Era um boi enfeitado de fitas, chapéus de vidrilhos, sem mulheres, a não ser umas duas caboclas de penas, bem magrinhas. A orquestra também constava de poucos instrumentos e o som era um firim-fim-fim  repetido ad infinitum. Os bois de uns anos atrás eram mais modestos, enfeites bem caboclos, não tinham estilistas – o soçaite ainda não havia voltado os olhos para eles.  Os brincantes  dançavam no pátio lá de casa, meu irmão olhando encantado. Levavam uma quantia em dinheiro, bebiam bastante e comiam alguma coisa. Até para o ano! Eles partiam. O firim-fim-fim ficava nos meus ouvidos, colado durante meses.

      E o primeiro São João da minha primeira netinha, Helena,  de tamanquinhos, maria-chiquinha, encantada com a toada da lua cheia na Ponta d’Areia e a do boi com a estrela na testa. Com a mãozinha presa à minha, saíamos para o arraial do bairro. Haveria alguém mais feliz que eu?

       A nostalgia se mistura com a memória, a imaginação trabalha vigorosa, talvez eu acrescente algum detalhe criado pela mente. Saudosismo? Peço ajuda a José Luís Borges: “A imaginação é feita de convenções da memória - se eu não tivesse memória seria incapaz de imaginar”. Que mais posso dizer? O grande bruxo falou por mim.