Artigo do Ocupante

O chileno que tirou Thiago de Mello da cadeia

Antônio Carlos Gomes Lima

22 de janeiro de 2022

À época ministro das Relações Exteriores do Chile, Gabriel Valdez foi responsável, em janeiro de 1965, pela liberação do poeta Thiago de Mello da cadeia a que estava recolhido no Rio de Janeiro por desacato ao general Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro presidente do regime militar. Durante viagem ao Brasil, para participar de reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), Valdez foi recebido em audiência por Castelo Branco, a quem pediu, em nome do Congresso chileno, que libertasse o poeta, pois no Chile ele seria bem acolhido. Dois dias depois, o poeta estava livre.

        O episódio foi narrado pelo próprio Gabriel Valdez, então senador da República durante o governo Ricardo Lagos, na saudação que fez a Thiago de Mello no dia 24 de maio de 2004, 39 anos depois, como parte da homenagem prestada ao poeta amazonense pelo Centro de Estudos Brasileiros (CEB), à época sob minha direção, na sede embaixada do Brasil em Santiago do Chile.


        A saudação de Gabriel Valdez:

        “Thiago de Mello nunca foi embora do Chile.

Está sempre aqui, porque está em toda parte e o temos no coração, sempre. E em seu sorriso bom o vemos mais de perto.

Vem da floresta amazônica, dos espaços sem limites, que estão e estarão sempre pela eternidade.

Ali está Barreirinha, a pequena cidade onde Thiago nasceu. Thiago sempre esteve e lá estará para sempre, porque ele é como o Amazonas, desde cima recebendo o rio Negro até sua desembocadura. Lentamente o rio avança para o mar, evapora em nuvens carregadas que retrocedem, e suas águas tornam a se confundir com as iandantes tranquilas do espaço amazônico.

Thiago estudou medicina, mas antes de tudo foi um libertário, E, como tal, um poeta. Sua poesia não é só a literatura; é um grande instrumento de luta em defesa da vida e da liberdade. Além de que Thiago é o rei das amizades. Sua obra “De uma vez por todas” é uma homenagem a seus amigos, vivos ou mortos.

Seu compromisso não é com a literatura, é com a vida.

Conheci Thiago quando foi adido cultural do Brasil no Chile. Fomos amigos com Pablo Neruda, em cuja casa, La Chascona, conversávamos e cantávamos sob a batuta de Thiago. Seu prestígio foi nacional.

Em janeiro de 1965, como Ministro das Relações Exteriores, pedi ao Senado permissão para participar de uma assembleia da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Rio de Janeiro. Chegara aqui a notícia de que na abertura desse conclave, Thiago e seus amigos haviam dito algo ofensivo à passagem do  general  Castello Branco (que participara do golpe militar e governava o país),  e que ali fora preso.

A Câmara dos Deputados chilena debateu a autorização para a viagem e a aprovou sob a condição de que eu obtivesse a liberdade de Thiago. Se não tivesse êxito, deveria retornar ao Chile.

Assumi o compromisso. Cheguei ao Rio de Janeiro e pedi audiência ao presidente general Castelo Branco, que imediatamente me recebeu no Palácio Laranjeiras, sede do governo daquele Estado. Além de me pedir para dizer ao presidente Eduardo Frei que ele não era um ditador, ele me disse que Thiago o havia insultado. Expliquei minha situação e apresentei minha demanda. Gentilmente (todos os brasileiros até os ditadores são gentis, e quando falam olham nos olhos), ele me disse: “Diga ao presidente Frei que não sou ditador. Terei uma resposta depois de amanhã, porque você vai amanhã à Bahia”.

Fui à Bahia com os outros ministros. No dia seguinte, tomava café da manhã no Hotel Gloria quando apareceu Thiago em meus aposentos. Foi o maior êxito diplomático de minha vida. Thiago estava sorridente. Como sempre, porque sempre está sorrindo.

Thiago: que bom que tenhas vindo e te vejamos nesta casa que, para mim, é familiar.

Te amamos muito.

Representas com a maior legitimidade o Brasil profundo, misterioso, úmido, alegre, generoso, eterno.

Thiago amigo. Os chilenos estamos contigo”.  

GABRIEL VALDEZ SUBERCASEAUX (1919—2011). (Na foto, à direita, com Thiago de Mello e Antonio Carlos Lima). Foi advogado, diplomata, intelectual e político democrata-cristão, parlamentar e ministro de Relações Exteriores no governo de Eduardo Frei Moltalva. Destacou-se na luta pela redemocratização do país, submetido  a ditatura militar, que se estendeu de 1973 a 1990.