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Angústia larvada no verbo

10 de novembro de 2018

Eduardo Fernandes homenageia o poeta Nauro Machado pela passagem dos 60 anos da edição do primeiro livro do poeta, “Campo sem base”, lançado em 1958. Há três anos, Nauro nos deixou, mas seu legado poético persiste vivo entre nós, como conclui o artigo.

O poeta Nauro Machado (Divulgação)

Delinear a obra de um poeta não é uma tarefa simples, sobretudo se esse poeta possuir vastíssima obra e ver a necessidade de escrita “como uma questão de vida e morte.” De qualquer modo, tentaremos incursionar, ainda que parcamente, pelo estro (ou seria sestro?) poético de Nauro Machado.

A homérica obra nauriana transita por meandros sintáticos e linguísticos que (de um modo genial e demiurgo) nunca se repetem, e que são uma espécie de força motriz a jorrar sempre da mesma fonte – em alguns momentos – respeitando a forma; em outros, desconstruindo-a, mas sempre com o mesmo objetivo poético de uma quase tentativa de se auto-explicar: “É difícil o contato /entre mim e o meu ser…”

As imagens de um mundo em exercício de caos

Desde seu primeiro livro, Campo sem Base (1958), Nauro vem nos mostrando essa agônica empresa do desmembramento de si e isso está explícito nos títulos de suas obras que (em sua grande maioria) mostram que a alma é zoológica, necessita do divino, está presa na vigésima jaula, por estar no opus da agonia, mas que poderá encontrar a lamparina da aurora…

Contudo, essa aurora esperada pelo eu lírico choca-se com o peso de uma linguagem vingativa, que jorra sempre, carregada de pesos semânticos e sonoros; desta forma, essa rutilância é negada – na própria linguagem – pelo peso do eu lírico carregando a si mesmo, e que, multiplicado em si mesmo, precisa conviver e expressar a própria agonia que insiste em se manifestar pela força lírica (e porque não doentia) do poema, objetivando sempre um mesmo destino que é sempre “cavar o infinito” (com muito mais (des)motivos poéticos que o Dante Negro) que existe no poema-poeta (mais este que aquele?) dividindo as possibilidades mediúnicas e imagéticas do verbo: “Acuso o contemplar-te, sol de escombros, / porosa planta insana que se esbanja / no mundo. Na exigência da atenção, / feroz assalto de luzes subjugo, / na terra que assisto e reverbero. / […] / Fornalha do meu dia panteteio / meu lúcido desânimo, manhã, / viscoso líquido desse humor. / Tempo, cúmplice visão te constrói: / contemplar-me é forçoso nas nascentes / do tempo, minhas manhãs, meu nojo…”2

São Luís: Apicerum da clausura

Outro reflexo da linha única, apesar de visceral, do percurso interseccionista do sujeito, são as imprecações destinadas à São Luís, metaforizada na Tróia, portentosa, de um lado, como constante fonte de inspiração para o estro-sestro do eu lírico, mesmo que algumas vezes, inspiração “dionisíaca” que, de forma brilhante, disciplinada e original, acaba sempre sendo dominada pelo apolíneo linguístico, (mostrado em imagens surrealistas e em aliterações), mas que, de outro lado, é vista como uma terra destruída, esmagada e insuladora do próprio eu, como é mostrado nestes versos com aspectos simbolistas: […] Ó São Luís padrasto, cão, matilha / mostrando o ventre em monstruosa ilha! / Ó tu, defunta lepra renascida / para ser, toda em mim, a minha vida! / São Luís, porto-pó, pó já não póstumo, / por estar vivo em crucificada hóstia! / Ó pranto eterno, eterno canto, amém / do verbo efêmero e a ser meu também.

Dor: Testamento provincial

Fernando Pessoa afirmou que “o poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.” A dor na poética nauriana, muitas vezes, é uma dor sinestesicamente vivida e literariamente verossímil, pois o não reconhecimento do poeta por parte da Tróia-Ilha é amargo, perceptível e profético. Nauro se multiplica poeticamente por São Luís, seus becos, casarões, barzinhos, sua história e a maioria de seus poemas são gerados ali, no meio do povo, comungando com a dor do povo; e a sua obra, mesmo com uma gênese marginal e simples, consegue ser fina e lapidada em imagens surrealistas e oximoros que poetizam essa dor do existir-pertencendo e do pertencendo – sem existência concreta definida, mas atemporal, que lembram mesmo Fernando Pessoa. Pessoa, multiplica-se pelos seus heterônimos, Nauro Machado se multiplica pela sua obra e linguagem: “O nada é ser memória de ninguém, / treva qualquer, qualquer tábua nenhuma / madeira morta para um morto também / serei memória pois de coisa alguma”.

Nos Parreirais de Deus

Nauro é o flâneur do século XXI, que espreita e esquadrinha o próprio funil do ser, mas que é achado pela solidão temática, muitas vezes, dividida poeticamente com o próprio Deus. Não o Deus barroco que punia pecados, Deus em Nauro é divinamente “limitado” porque limitadamente divino, uma hora reduzido a um recurso formal poético, outra como comungador das intempéries do eu lírico. Desta forma, o “Corpus Christi” é estendido ao Sol dos escombros da alma da obra, aparecendo como pisado, desnudo e solitário, em uma escatologia invertida semelhante àquela proposta por Augusto dos Anjos. Contudo, Nauro consegue ser mais percuciente e agônico na tessitura da página contínua (onde Deus é citado subrepticiamente) dividindo-se em sonetos, quartetos, dísticos, poemetos etc. De acordo com a teologia, Deus é uma trindade se manifestando em um só. Em O Baldio som de Deus (2015) a mesma Trindade agoniza, e o Criador parece provar da mesma angústia da criatura reduzida a pó. Teria Nauro, em seus momentos de jorro psicológico-poético, reduzido a Trindade também ao pó? “Esta é uma terra de sina aziaga, / da mãe madrasta a me trazer a praga / de uma Trindade morta em todos três, / ó São Luís, profunda e eterna mágoa / de quem recebe apenas, como fogo e água, / a maldição do Deus que em dor a fez.”

O reinício sempre ambíguo: o verbo que nunca morre(rá)

“O homem é um ser que se criou a si próprio ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si próprio.” De acordo com Octávio Paz, a metáfora só encontra uma ressonância e um porque, quando entra em simbiose com o poeta refletindo-o, mascarando-o ou até mesmo anulando-o. Essa linguagem-metáfora em Nauro, já estava viva antes de encontrá-lo e permanece viva mesmo depois da morte do poeta – com sua grande quantidade de livros publicados em vida e com quatro livros a serem publicados postumamente. A palavra se fez guarida no universo nauriano, ressurgindo quando e onde queria. Dessa forma, o poeta constantemente era visto pela Tróia mexendo os lábios, e que, ao contrário do que pensava o senso comum e leigo, não se tratava de efeitos etílicos, mas da voz poética saindo-lhe das entranhas com ritmo estético completamente demarcado. Mesmo “matando” o ser e consumindo-o para que ressurgisse de forma multifacetada, a palavra sempre foi a norma que a alma deste poeta maranhense desejou obedecer. Por ela viveu, amou, sentiu nojo, experimentou, recriou-se, anulou-se e escreveu: “morre um pouco de mim no meu início ambíguo, a mente circunscreve o mundo à minha forma”…6

Infelizmente, Nauro nos deixou, mas seu legado poético jamais acabará e sua voz poética ainda persiste, sendo ouvida pela quantidade-qualidade de sua obra e pelos becos poéticos da Tróia-São Luís.