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Ocupante

Ana Luiza Almeida Ferro

  • Cadeira

    12

  • Data da Eleição

    15.09.2016

  • Data da Posse

    06.04.2017

  • Recepcionado por

    Ceres Costa Fernandes

ANTECESSOR:

Evandro Sarney

Biografia

Nasceu em São Luís, Maranhão, em 23 de maio de 1966. Promotora de Justiça, jurista, professora universitária, historiadora, conferencista, escritora e poeta, é filha única do também professor universitário Wilson Pires Ferro, já falecido, e da contabilista Eunice Graça Marcilia Almeida Ferro, tendo relações de parentesco com o saudoso historiador Mário Martins Meireles, pela linha do avô paterno João Meireles Ferro. Igualmente teria laços de parentesco com o romancista cearense José de Alencar, pela linha da bisavó materna Luisa Rodrigues de Alencar Almeida, mãe do radialista e locutor Marcos Vinicius Sérgio de Almeida, por duas vezes consecutivas eleito “Rei do Rádio” (1953-1954).

Estudou no Colégio Santa Teresa, em São Luís-MA (1972-1982), e no Colégio Itamarati, Instituto Guanabara, no Rio de Janeiro-RJ (1983). Formada em Letras (Licenciatura), com habilitação em Língua Inglesa (1984-1988), e Direito (1988-1993), pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, é Promotora de Justiça titular da 14ª Promotoria de Justiça Criminal da Comarca da Ilha de São Luís, Estado do Maranhão, Mestra (2002) e Doutora (2006) em Ciências Penais, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Professora de Direito da Universidade Ceuma e professora da Escola Superior do Ministério Público do Maranhão – ESMP, em São Luís. Integra a Comissão Gestora do Programa Memória Institucional do Ministério Público do Estado do Maranhão.

A jurista foi Presidente da Academia Maranhense de Letras Jurídicas – AMLJ no biênio 2011-2013, a primeira mulher a exercer tal posto, ocupando nesse sodalício, desde 2004, como membro efetivo, a Cadeira nº 5, patroneada pelo Ministro Augusto Olympio Viveiros de Castro. É também membro efetivo da Academia Caxiense de Letras – ACL, ocupando a Cadeira nº 9, patroneada pela Professora Filomena Machado Teixeira, desde 2008; sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão – IHGM, ocupando, desde 2011, a Cadeira nº 36, cujo patrono é Astolfo Henrique Serra; um dos 25 fundadores da Academia Ludovicense de Letras – ALL, onde ocupa a Cadeira nº 31, patroneada pelo historiador Mário Martins Meireles; e membro efetivo da Academia Maranhense de Letras – AML, ocupando a Cadeira nº 12, que já pertenceu ao grande poeta Odylo Costa, filho, patroneada pelo jornalista Joaquim Maria Serra Sobrinho, desde abril de 2017. É autora dos projetos do brasão e da bandeira da ALL. Recebeu o título de membro honorário da Academia Paraibana de Letras Jurídicas – APLJ em 2014.

É membro do Conselho Editorial da Revista Juris, do Centro de Estudos Constitucionais e de Gestão Pública – CECGP, desde janeiro de 2015, em São Luís.

No âmbito nacional, é Membro de Honra da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica – SBPJ, membro titular do PEN Clube do Brasil, membro da União Brasileira de Escritores – UBE (São Paulo) e membro correspondente MA da União Brasileira de Escritores RJ (UBE RJ).

No plano internacional, é membro da Accademia Internazionale Il Convivio, da Itália, e do Latin American Quality Institute – LAQI, sediado no Panamá.

Foi aprovada na Seleção de Inglês para professores pró-labore, em setembro de 1988, pelo Departamento de Letras da UFMA, e em Concurso Público para ingresso na carreira do Magistério Superior, na Classe de Professor Auxiliar, na área de Língua Inglesa, Departamento de Letras da UFMA, realizado em 1994, obtendo o segundo lugar, assim como no Processo Seletivo Simplificado para Contratação de Professor Substituto, área de Direito Público, realizado pelo Departamento de Direito, do Centro de Ciências Sociais da UFMA, em 1999, obtendo o primeiro lugar.

Foi bolsista do Programa Interinstitucional de Iniciação Científica CNPq/UFMA, desenvolvendo o Projeto de Pesquisa “Programa Permanente de Análise e Indexação de Jurisprudência: Questão Agrária 1981/1989”, no período de abril a dezembro de 1990, em São Luís.

No magistério, sua experiência se divide, em especial, entre o ensino da língua inglesa e o das Ciências Criminais. Foi Professora de Inglês no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos – ICBEU (1982) e no Yes – Instituto de Idiomas (1989-1990). Já na universidade, foi professora dos cursos de extensão de Língua Inglesa I, II, III e IV, promovidos pelo Núcleo de Cultura Linguística (NCL) do Departamento de Letras da UFMA, nos anos de 1992 e 1993. Foi Professora de Criminologia da Fundação Escola Superior do Ministério Público de Minas Gerais, ministrando em cursos de pós-graduação em Ciências Penais, de 2001 a 2003, em Belo Horizonte. Ministrou a disciplina Criminologia no Curso de Especialização em Ciências Criminais do então Centro Universitário do Maranhão – UNICEUMA, hoje Universidade Ceuma, no ano de 2008. Pela Escola Superior do Ministério Público do Maranhão, ministrou os cursos sobre “Crime organizado” e “Criminologia: o criminoso de colarinho branco sob a perspectiva criminológica”, ambos em 2011, como etapas de vitaliciamento do Curso de Ingresso na Carreira do Ministério Público do Maranhão, além da disciplina Criminologia no VIII Módulo do Curso de Pós-Graduação em Ciências Criminais em 2012. Igualmente ministrou aulas sobre os temas “Tutela repressiva às organizações criminosas” e “Crime organizado e organizações criminosas” nos cursos de Especialização em Ciências Criminais, da Faculdade de Direito de Vitória, no Espírito Santo, nos anos de 2013 e 2014, bem como a disciplina Cultura e Criminologia Comparada no Curso de Especialização Conducente ao Mestrado em Criminologia, oferecido pelo Instituto Universitário Atlântico – IUA, em parceria com a Universidade Fernando Pessoa, de Portugal, na Fundação Sousândrade, na capital maranhense em julho de 2015 e no final de abril e início de maio de 2017.

Compôs várias bancas examinadoras. Desempenhou a função de Membro da Equipe de Correção de Redação na Comissão Permanente de Vestibular – COPEVE, quando da realização do Concurso Vestibular de 1993, da UFMA. Foi orientadora de diversos trabalhos acadêmicos.

Exerceu a função de Coordenadora de Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Direito da Escola Superior do Ministério Público do Maranhão de 2006 a 2009 e o cargo em comissão de Assessor de Procurador-Geral de Justiça nos anos de 2009 e 2010.

Fez o Curso La Enseñanza de la Traducción, promovido pela San Diego State University, da Califórnia, Estados Unidos, realizado no âmbito da UFMA em 1988.

Na condição de bolsista do Rotary, realizou estudos de pré-mestrado, na área de Inglês, com foco em Literatura, sobretudo a inglesa, na University of Oregon, em Eugene, Estado do Oregon, Estados Unidos, no ano de 1991. Na instituição americana, cursou as seguintes disciplinas: English Drama (Jacobean Drama), Edmund Spenser, Advanced Shakespeare, The Renaissance Hero, Seminar: Post-Colonial Strategies in the Novel, Film and Folklore, Modern Drama, Seminar: Feminist Constructions of Voice – A Craft Course, English Drama (Medieval and Tudor Drama), Top: 18th Century Literature (Sex & Gender in the Restoration) e Introduction to Graduate Studies.

Participou do Curso intensivo Lotta al crimine organizzato (Combate ao Crime Organizado), 3ª edição, oferecido pela Università degli Studi di Roma – “Tor Vergata”, no período de 2 a 12 de maio de 2016.

É portadora do First Certificate in English e do Certificate of Proficiency in English, concedidos pela University of Cambridge, Inglaterra, e do Certificat pratique de langue française (1er degré), do Diplôme d’études françaises (2e degré) e do Diplôme supérieur d’études françaises(3e  degré), pela Université de Nancy II, França. Além dos idiomas inglês e francês, cursados, respectivamente, no ICBEU e na Aliança Cultural Franco-Brasileira (Aliança Francesa) em São Luís, estudou o espanhol e o alemão no NCL do Departamento de Letras da UFMA na mesma cidade e o italiano e, novamente, o alemão, na Escola Luziana Lanna Idiomas em Belo Horizonte.

Foi Promotora de Justiça nas Comarcas de Icatu, Olho D’Água das Cunhãs e São Mateus, como substituta; e nas Comarcas de Carutapera, São Mateus, Viana e Caxias, como titular. Foi Promotora Eleitoral de diversas zonas e Diretora das Promotorias de Justiça de Caxias em várias oportunidades.

Proferiu numerosas palestras e conferências em eventos realizados em diversas cidades brasileiras, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianópolis, Goiânia, Boa Vista, Manaus, Vitória, entre outras, além de São Luís, versando sobre Direito, Criminologia, História ou Literatura, com destaque para o tema do crime organizado, tais como as intituladas “Instrumentos legais de defesa da mulher contra a violência”, no II Encontro da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica, em São Luís, no ano de 1998, e no I Seminário sobre os Direitos da Mulher, na cidade de Caxias-MA, em 1999; “O Ministério Público e os Municípios: a questão da improbidade administrativa”, no Encontro de Prefeitos do Maranhão, na capital maranhense, em 1998; “O Tribunal de Nuremberg”, na Fundação Escola Superior do Ministério Público/MG, em Belo Horizonte, no ano de 2003; “O idoso na sociedade”, no I Fórum Municipal do Idoso, na cidade de Caxias, em 2006; “Para entender o Ministério Público”, no I Seminário para Jornalistas, em São Luís, no ano de 2007; “Crime de colarinho branco: perspectiva criminológica”, em cerimônia da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica, na capital gaúcha, em 2008, e no 1º Seminário de Criminologia e Segurança Pública, no Rio de Janeiro, em 2009; “O Ministério Público no combate às organizações criminosas”, em painel no I Congresso Estadual do Ministério Público do Maranhão, em São Luís, no ano de 2008; “Crime organizado e organizações criminosas”, no 7º Congresso Brasileiro de Direito Internacional, na Universidade de São Paulo – USP, na XVI Jornada Jurídica do Curso de Direito – UNICEUMA, em 2009, no Rotary Club de São Luís, em 2010, na I Jornada de Direito Penal, da Escola de Magistratura Federal da 1ª Região – ESMAF, em Manaus-AM, em 2012, na I Semana Acadêmica do Curso de Direito, na UFMA, em São Luís, no ano de 2013, na I Conferência de Políticas Prisionais do Estado do Maranhão, promovida pela Escola de Gestão Penitenciária do Maranhão, da Secretaria da Justiça e da Administração Penitenciária, em São Luís, em 2014, no Seminário sobre Crime organizado, em Vitória-ES, no ano de 2014, e na IV Jornada de Direito da Universidade Estadual do Maranhão – UEMA, em São Luís, no ano de 2015; “Organizações criminosas”, no Curso de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, na cidade de Florianópolis, em 2010; “Crime organizado e organizações criminosas mundiais: apontamentos”, no I Seminário Nacional de Direito Penal e Processual Penal na Região Serrana, na Universidade Estácio de Sá – Unidade Nova Friburgo, em 2010; “Delinquência organizada e organizações criminosas mundiais”, no seminário O Ministério Público e a repressão ao crime organizado, em Goiânia-GO, em 2011; “Crime organizado e organizações criminosas mundiais”, no Seminário: Combate ao crime organizado, em Boa Vista-RR, em 2011; “A fundação da cidade de São Luís: fatos e mitos”, no Seminário 6: São Luís foi fundada por quem? Conclusões possíveis, do Ciclo de Estudos/Debates A cidade do Maranhão – uma história de 400 anos 2011/2012, promovido pelo IHGM, em São Luís, em 2012; “O crime do colarinho branco sob a ótica criminológica”, na Jornada Jurídica: Hermenêutica constitucional e jurisdição penal, em Imperatriz-MA, no ano de 2012; “A Batalha de Guaxenduba: razões da vitória lusa e comparação com os embates da ocupação holandesa no Maranhão”, no Simpósio 400 anos da Batalha de Guaxenduba: a primeira guerra brasílica (1614-2014), promovido pelo IHGM, em São Luís, em 2014; “Organizações criminosas e crime organizado”, no I Ciclo de Debates Acadêmicos de Segurança Pública, evento integrante do Curso de Especialização em Cidadania, Direitos Humanos e Gestão da Segurança Pública, em São Luís, na UFMA, no ano de 2014, e no II Fórum Acadêmico de Segurança Pública, promovido pela UFMA, em parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Pública – SENASP-MJ, em 2016; “Mário Meireles”, no painel sobre o “Centenário do Nascimento de Mário Martins Meireles”, em evento da Academia Ludovicense de Letras, por ocasião das comemorações do segundo aniversário desta, em São Luís-MA, em 2015, e no “Café Literário” da 9ª FeliS – Feira do Livro de São Luís, em 2015; “Dagmar Destêrro e Dilú Mello”, no painel de apresentação de poesia feminina, no evento Integração Cultural Interestadual, promovido pela União Brasileira de Escritores RJ, na Academia Cearense de Letras – ACL, em Fortaleza-CE, em 2016; “A fundação de São Luís e o mito das origens lusitanas da cidade”, na mesa-redonda “Fundação de São Luís: 404 ou 400 anos?”, promovida pelo IHGM, em São Luís, em 2016; “Crimen organizado internacional: Análisis jurídico-penal”, no Congreso Internacional de Historia de los Derechos Humanos. El Cincuentenario de los Pactos Internacionales de Derechos Humanos de la ONU. Homenaje a la Profesora Mª. Esther Martínez Quinteiro, na Universidad de Salamanca, Espanha, em 2016; “A Batalha de Guaxenduba”, em evento da Casa de Cultura Huguenote Daniel de La Touche – CCHDLT, em São Luís, em 2016, entre outras.

Foi oradora das turmas de licenciandos em Educação Artística, Estudos Sociais, Filosofia, História e Letras em 1988 e da turma de bacharelandos do Curso de Direito em 1993, por ocasião das respectivas colações de grau da UFMA, assim como dos Promotores de Justiça do Maranhão, na cerimônia de entrega das vestes talares, em 1994.

Obteve o primeiro lugar no Concurso Epistolar Internacional para jovens, promovido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, Delegacia Regional do Maranhão, realizado em 1982. Foi premiada no Concurso Jovem Embaixador 1983, promovido por O Globo, pelo Instituto Guanabara e pelo Colégio Princesa Isabel, no Rio de Janeiro-RJ. Também recebeu Prêmio de Publicação no V Concurso Raimundo Correia de Poesia, tendo sido selecionada para participar do livro Poetas brasileiros de hoje 1986. Seus poemas foram igualmente incluídos na obra Poetas brasileiros de hoje 1987, na prestigiada Revista Poesia Sempre: Polônia, da Fundação Biblioteca Nacional (2008), e na revista italiana Il Convivio (2014, 2015 e 2016). Alcançou a primeira colocação com a poesia “Quando” no I Concurso Literário de Contos e Poesias em 2012 e o segundo lugar com a poesia “A dama quatrocentona” no II Concurso Literário nos Gêneros de Poesias e/ou Crônicas “São Luís, minha cidade”, no ano seguinte, ambos promovidos pela Associação dos Amigos da Universidade Federal do Maranhão – AAUFMA.

Logrou o segundo lugar no Prêmio “Poesia, Prosa ed Arti figurative”, Sezione Stranieri, Libro edito in portoghese, promovido pela Accademia Internazionale Il Convivio, da Itália, com a obra Quando: poesias, em 2014. Conquistou a Menção Honrosa no Prêmio Pedro Calmon 2014, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB, e o Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil 2015, categoria Ensaio, pelo livro 1612; o Troféu “Melhor Obra (Poesia)”, no 1º Salão Nacional de Arte e Poesia, concedido pelo Núcleo Rio de Janeiro dos Grupos Artforum Brasil XXI (2015); o Troféu “Imprensa sem Fronteiras”, na categoria Literatura, em virtude de, “por mérito e reconhecimento”, haver promovido “o engrandecimento da Cultura do País”, outorgado pela Rede Mídia de Comunicação Sem Fronteiras, em celebração ao 3º aniversário do Jornal Sem Fronteiras, em Blumenau-SC (2016); o troféu referente ao 2º lugar no Concurso “Coletânea Internacional Bilíngue – Sem Fronteiras pelo Mundo… Volume Verso”, com o poema “O náufrago VIII”, o qual lhe foi conferido pela Editora Rede Sem Fronteiras também em Blumenau-SC (2016); o Prêmio Excelência e Qualidade Brasil 2016 e o título de Comendadora, concedidos pela Braslíder – Associação Brasileira de Liderança, nas categorias “Profissional do Ano/Destaque Nacional” e “Mérito Acadêmico-Cultural”, em evento realizado no Círculo Militar, em São Paulo-SP (2016); a Menção Honrosa, pela participação como escritor, na Exposição Letra & Imagem, promovida pela Cia. Arte Cultura e pela Academia de Letras e Artes Buziana – ALAB, em São Paulo-SP (2016); a distinção “Moção Cultural de Aplausos”, concedida pela Rede Mídia de Comunicação e pela Editora Sem Fronteiras, por ocasião do projeto Letra & Imagem, da Cia. Arte Cultura, em São Paulo-SP (2016); o troféu Latin American Quality Institute 2016, o título de Master in Total Quality Administration e a certificação de Global Quality, por sua atuação como escritora, no México (2016); e o Prêmio Talentos Helvéticos-Brasileiros 2017, na categoria “Melhores livros de poesia”, pela obra O náufrago e a linha do horizonte: poesias, concedido pela Helvetia Edições, como resultado de concurso literário.

Recebeu a Medalha “Sousândrade” do Mérito Universitário, concedida pela Universidade Federal do Maranhão, por haver obtido o maior coeficiente de rendimento escolar da universidade, durante o curso de graduação, até o primeiro semestre letivo de 1987. Foi agraciada com o “Prêmio AMPEM”, em três edições (1997-1999), e, em sequência, com o “Prêmio Márcia Sandes”, em suas edições 2001, 2003, 2004, 2006, 2007 e 2008, concedidos pela AMPEM aos autores dos trabalhos jurídicos mais destacados.

Recebeu, ainda, a Comenda Arcelina Mochel, outorgada pela AMPEM, pela passagem de quinze anos de serviços prestados ao Ministério Público, em 2009; a Comenda Gonçalves Dias, conferida pelo IHGM, pela participação e empenho na materialização do Projeto Gonçalves Dias, em 2013; e a Comenda Comemorativa Leonardo da Vinci, concedida pela Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas, sediada no Estado do Rio de Janeiro, em reconhecimento aos “seus atos meritórios de ideais cívicos, culturais e sociais”, em 2015.

É autora de vários livros, principalmente de Direito Penal, História e poesias, e possui numerosos artigos nas searas jurídica e historiográfica e peças processuais publicadas em livros e revistas especializadas, entre as quais a Revista dos Tribunais, a De Jure – Revista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais, a Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera e a Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (edições impressa e eletrônica), além de artigos e crônicas veiculadas nos jornais O Estado do Maranhão e O Imparcial e poesias, incluídas em publicações variadas.

Sua obra Crime organizado e organizações criminosas mundiais (2009), baseada na tese de Doutorado na UFMG, levou-a a ser entrevistada pelo apresentador Jô Soares em seu Programa do Jô, da Rede Globo, exibido em 26 de março de 2010, e pela revista História em curso (São Paulo, Minuano, v. 2, n. 8, p. 10-17, 2012), entre outras entrevistas concedidas em publicações nacionais desde 2009.

É um dos seis autores que colaboraram na obra França Equinocial: uma história de 400 anos, em textos, imagens, transcrições e comentários, organizada por Antonio Noberto (São Luís, 2012).

É um dos verbetes da Enciclopedia di Grandi Artisti: Portoghese/Italiano (p. 16), publicada, em edição bilíngue de luxo, pela Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas (2015).

No campo jurídico, teve dois artigos – “Reflexões sobre o crime organizado e as organizações criminosas” e “Os modelos estruturais do crime organizado e das organizações criminosas” – incluídos no livro Direito penal empresarial, crime organizado, extradição e terrorismo: volume VI, da Coleção Doutrinas essenciais: Direito penal econômico e da empresa, no ano de 2011, uma republicação, em edição especial, dos melhores artigos doutrinários já publicados pela prestigiada Editora Revista dos Tribunais ao longo de 100 anos.

Participa das atividades promovidas pelo Liceo Poético de Benidorm, da Espanha, em São Luís.

Afora as intensas atividades profissionais, acadêmicas e de pesquisa, Ana Luiza sempre praticou esportes, tomando parte de diversas competições em São Luís. Em 1984, participou da VII Corrida Universitária, organizada pelo Núcleo de Esporte da UFMA. Sagrou-se campeã de tênis de mesa na categoria individual simples feminino nos XI Jogos Universitários Maranhenses – JUM’S, no ano de 1987, representando, como aluna do Curso de Letras da UFMA, o Centro de Estudos Básicos, e nas categorias individual simples feminino e dupla mista nos XII Jogos Universitários Maranhenses, no ano seguinte, representando, como estudante de Direito, o Centro de Ciências Sociais da UFMA, eventos promovidos pela Federação Acadêmica Maranhense de Esportes – FAME. Participou dos XL Jogos Universitários Brasileiros, realizados no período de 26 de julho a 5 de agosto de 1989. No mesmo ano, recebeu a medalha de ouro de tênis de mesa individual feminino na X Jornada Esportiva de Associações Atléticas Banco do Brasil – JESAB, representando a AABB de São Luís. Em 1990, conquistou a Taça Pedro Araújo, na categoria de tênis de mesa feminino, oferecida pela Federação Maranhense de Tênis de Mesa – FMTM. E, com seus companheiros da equipe de tênis de mesa da University of Oregon, de Eugene, no ano de 1991, venceu torneio disputado contra a Portland State University, de Portland, nos Estados Unidos. Por derradeiro, toma parte, a cada ano, desde 2010, das edições da Corrida Mirante AM, em São Luís.

Em seu tempo livre, dedica-se aos filmes, à leitura de livros, à pintura – a exemplo dos quadros “Impressões do Lago Genebra” e “Poder feminino” – e ao exercício físico propiciado pelas caminhadas e corridas.

Já visitou os seguintes países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Bielorrússia, Bósnia e Herzegovina, Canadá, China, Cingapura, Croácia, Dinamarca, Egito, Escócia, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos (onde, inclusive, morou por um ano, quando estudou na University of Oregon), Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Índia, Indonésia, Inglaterra, Irlanda (Eire), Israel (incluindo a Autoridade Palestina), Itália, Japão, Jordânia, Letônia, Liechtenstein, Lituânia, México, Mônaco, Montenegro, Nepal, Noruega, País de Gales, Polônia, Portugal, República Tcheca, Rússia, Suécia, Suíça, Tailândia, Turquia e Vaticano.

 

Bibliografia

A sua bibliografia compreende:

a) livros jurídicos, de História e afins: O Tribunal de Nuremberg: dos precedentes à confirmação de seus princípios (Belo Horizonte: Mandamentos, 2002, baseado na monografia de conclusão do Curso de Direito); Escusas absolutórias no Direito Penal (Belo Horizonte: Del Rey, 2003); Robert Merton e o funcionalismo (Belo Horizonte: Mandamentos, 2004); O crime de falso testemunho ou falsa perícia: atualizado conforme a Lei n. 10.268, de 28 de agosto de 2001 (Belo Horizonte: Del Rey, 2004, baseado na dissertação de Mestrado); Interpretação constitucional: a teoria procedimentalista de John Hart Ely (Belo Horizonte: Decálogo, 2008); Crime organizado e organizações criminosas mundiais (Curitiba: Juruá, 2009, baseado na tese de Doutorado); Criminalidade organizada: comentários à Lei 12.850, de 02 de agosto de 2013 (Curitiba: Juruá, 2014, em coautoria com Flávio Cardoso Pereira e Gustavo dos Reis Gazzola); 1612: os papagaios amarelos na Ilha do Maranhão e a fundação de São Luís (Curitiba: Juruá, 2014); 1612: os franceses na Ilha do Maranhão e a fundação de São Luís (Lisboa: Editorial Juruá, 2014); e Mário Meireles: historiador e poeta. Homenagem ao centenário de nascimento do patrono da Cadeira nº 31 da ALL: com textos inéditos (Curitiba: Juruá, 2015);

b) livros de poesias: Versos e anversos (Belo Horizonte: Mandamentos, 2002, em coautoria com o pai Wilson Pires Ferro e o tio José Ribamar Pires Ferro); Quando: poesias (São Paulo: Scortecci, 2008); A odisséia ministerial timbira: poema (São Luís: AMPEM, 2008); e O náufrago e a linha do horizonte: poesias (São Paulo: Scortecci, 2012);

c) artigos (em livros e revistas especializadas): “A mão da sociedade”, na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (1998); “Algumas considerações sobre o testemunho infantil”, na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (2000) e na APMP Revista (2001); “Quem deu a ti, Carrasco, esse poder sobre mim?”, na Revista AMPEM (2001) e em O Sino do Samuel, Jornal da Faculdade de Direito da UFMG (2002); “O problema da Justiça em Kelsen”, no livro Prêmio Márcia Sandes 2001 e na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (2002); “O sujeito ativo do crime de falso testemunho: a questão do não-compromissado e do não-advertido”, na Revista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (2002); “O contador como sujeito ativo do crime de falsa perícia”, no livro Prêmio Márcia Sandes 2002/2003; “Algumas considerações sobre o imputado, o réu e a autodefesa no Direito penal brasileiro e comparado”, em Justiça e Direito – Revista da Pós-Graduação em Ciências Jurídicas do UNICEUMA (2004); “Os novos conquistadores: as organizações criminosas”, no livro Prêmio Márcia Sandes 2006 e em De JureRevista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (2007); “O crime organizado e as organizações criminosas: uma proposta legislativa”, na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (2006), no site Direito Penal Virtual (2006) e na Revista Âmbito Jurídico, Revista Jurídica Eletrônica (2007); “Reflexões sobre o crime organizado e as organizações criminosas”, na Revista dos Tribunais (2007) e no livro Direito penal empresarial, crime organizado, extradição e terrorismo: volume VI, da Coleção Doutrinas essenciais: Direito penal econômico e da empresa (2011); “Algumas considerações sobre os fenômenos do terrorismo e do crime organizado”, no livro Prêmio Márcia Sandes 2007, em formato CD-ROM, na Seção “Doutrina”, como parte integrante da Revista Juris Plenum (2008), e na Revista do Ministério Público de Alagoas (2007); “O crime organizado e o crime de colarinho branco”, na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (2007) e em formato CD-ROM, na Seção “Doutrina”, como parte integrante da Revista Juris Plenum (2008); “O crime à luz da teoria da anomia”, no livro Prêmio Márcia Sandes 2008; “Os modelos estruturais do crime organizado e das organizações criminosas”, na Revista dos Tribunais (2008) e no livro Direito penal empresarial, crime organizado, extradição e terrorismo: volume VI, da Coleção Doutrinas essenciais: Direito penal econômico e da empresa (2011); “Sutherland, a teoria da associação diferencial e o crime de colarinho branco”, na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (2008); “Sutherland – a teoria da associação diferencial e o crime de colarinho branco”, em De JureRevista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (2008); “Da (in)constitucionalidade do art. 23, §§ 2º e 3º, da Lei Complementar nº 013/1991 e da Resolução nº 02/2009-CPMP-MA”, no CD Prêmio Márcia Sandes 2010; “A teoria procedimentalista de interpretação constitucional de J. H. Ely”, em De JureRevista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (2010) e na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (2010); “John Hart Ely e sua teoria procedimentalista de interpretação constitucional”, no livro Direitos fundamentais, democracia e cidadania: estudos em homenagem a Elimar Figueiredo de Almeida Silva (2010); “Uma proposta legislativa no campo da criminalidade organizada”, no CD Prêmio Márcia Sandes 2011; “Uma proposta legislativa para o enfrentamento da criminalidade organizada”, em De JureRevista Jurídica do Ministério Público do Estado de Minas Gerais (2012); “A fundação da cidade de São Luís: fatos e mitos”, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, edição eletrônica (2012); “A Era dos Descobrimentos e a partição do Mar-Oceano”, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, edição eletrônica (2012); “Crime organizado: caracterização, exemplos de organizações criminosas e proposta de tipificação legal”, na Revista do Ministério Público do Estado do Maranhão – Juris Itinera (2012); “As primeiras tentativas portuguesas de povoamento e colonização do Brasil e do Maranhão e a origem do nome ‘Maranhão’”, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, edição eletrônica (2012); “A presença dos franceses no Novo Mundo, no Brasil e no Maranhão do século XVI ao início do século XVIII”, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, edição eletrônica (2012); “O caso O. J. Simpson na concepção de John Hart Ely”, na Revista da Academia Maranhense de Letras Jurídicas (2013); “A situação político-religiosa e a política exterior da França no fim do século XVI e começo do século XVII”, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, edição eletrônica (2013); “Crime organizado e organizações criminosas: caracterização e proposta de tipificação legal”, na obra I Jornada de Direito Penal, da ESMAF (2013); “Edwin Sutherland: o crime de colarinho branco e o crime organizado”, na Revista Juris (2014); “Ao Pensador, com carinho”, na Revista Juris (2014); “A preparação da expedição da França Equinocial”, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (2014); “A França Antártica, Villegagnon e a fundação da Cidade do Rio de Janeiro”, na Antologia Histórica Comemorativa do Primeiro Centenário do Forte de Copacabana (2015); e “A questão da redução da maioridade penal”, na Revista Juris (2015);

d) artigos e crônicas (em jornais): “Mário Meireles, o eterno”, no jornal O Estado do Maranhão, 22 jun. 2003; “Errar é humano, punir também”, no jornal O Estado do Maranhão, 22 fev. 2006; “Um certo Josué”, em homenagem ao escritor Josué Montello, no jornal O Estado do Maranhão, 15 abr. 2006; “Saint Louis”, no jornal O Estado do Maranhão, 7 set. 2008; “Sede bem-vindos!”, no jornal O Estado do Maranhão, 13 jun. 2010, Alternativo; “O Rei do Rádio”, em homenagem ao radialista Marcos Vinicius Sérgio de Almeida, no jornal O Estado do Maranhão, 9 set. 2010; “Réquiem para a Biblioteca Pública”, no jornal O Estado do Maranhão, 12 set. 2010; “Essas mulheres extraordinárias…”, no jornal O Estado do Maranhão, 19 mar. 2011; “Convite ao passado de São Luís”, no jornal O Estado do Maranhão, 18 ago. 2012; “São Luís, herdeira da França Equinocial”, no jornal O Imparcial, 8 set. 2012 (em parceria com Wilson Pires Ferro); “O fundador esquecido”, no jornal O Estado do Maranhão, 9 set. 2012; “O fundador esquecido II”, no jornal O Estado do Maranhão, 8 set. 2013; “Ao meu herói, com amor”, no jornal O Estado do Maranhão, 27 jul. 2014; “Ao meu herói, com amor II”, no jornal O Estado do Maranhão, 3 ago. 2014; “Meninos, eu vi!”, no jornal O Estado do Maranhão, 10 ago. 2014; “O fundador esquecido III”, no jornal O Estado do Maranhão, 7 set. 2014; “Centenário Mário Meireles”, no jornal O Estado do Maranhão, 8 mar. 2015; “A questão da redução da maioridade penal”, no jornal O Estado do Maranhão, 26 abr. 2015; “O fundador esquecido IV”, no jornal O Estado do Maranhão, 13 set. 2015; “Entre a batina, a toga e as musas”, no jornal O Estado do Maranhão, 14 fev. 2016; e “Um padre que fez história”, no jornal O Imparcial, 14 mar. 2016;

e) poesias avulsas: “O Porteiro”, no livro Poetas brasileiros de hoje 1986 (Rio de Janeiro: Shogun Arte, 1986), no Informativo AAUFMA (1997), no Informativo, da Procuradoria Geral de Justiça do Estado do Maranhão (1997), na APMP Revista (1997), na revista italiana Il Convivio (2014) e na RenovArte VII – Revista da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ, 2016); “O Rei-Menino”, no livro Poetas brasileiros de hoje 1987 (Rio de Janeiro: Shogun Arte, 1987); “A Odisséia Ministerial Timbira”, na APMP Revista (1997); “O Tiro”, na Revista da AMPEM (2005); “Quando”, na Revista da AMPEM (2006); “Em ti, São Luís”, no jornal O Estado do Maranhão, 8 set. 2007, Caderno Especial São Luís 395 anos: 10 anos de Patrimônio Cultural da Humanidade; “Quero”, na Revista da AMPEM (2007); “O náufrago”, “O náufrago II” e “O náufrago III”, na Revista Poesia Sempre: Polônia, Fundação Biblioteca Nacional, ano 15, n. 30, 2008, e na Revista Convivência, do PEN Clube do Brasil, Rio de Janeiro, ano 5, n. 5, 2015; “Maria, que era Firmina”, na Antologia Cento e noventa poemas para Maria Firmina (São Luís: ALL, 2015); “Marexistência”, na revista italiana Il Convivio (2015); “O náufrago VIII”, no livro Sem fronteiras pelo mundo… Without Borders Around the World…: coletânea literária internacional bilíngue, bilingual international literary anthology: verso, poetry, e na revista italiana Il Convivio (2016); e “Medo”, na revista Varal do Brasil (Genebra, jun. 2016, ano 7, edição nº 41B);

f) prefácios: do livro Direito penal e processual penal garantista: das ideias à concretização, de autoria de Justino da Silva Guimarães, São Luís: AMPEM, 2009; do livro No reinado das nuvens, de autoria de Paulo Oliveira, São Luís: AMPEM, 2009; do livro Pedras em Izkor, de autoria de Maruschka de Mello e Silva, São Paulo: Scortecci, 2010; do livro Direito criminal contemporâneo, organizado por André Gonzalez Cruz, Brasília: Kiron, 2012; do livro França Equinocial: uma história de 400 anos, em textos, imagens, transcrições e comentários, organizado por Antonio Noberto, São Luís, 2012 (em coautoria com Wilson Pires Ferro); e do livro Doses homeopáticas de poesia: lua e poesia num ato de amor libidinosamente sensual!!, de autoria de Dilercy Adler, São Luís: ALL, 2015;

g) apresentação: do livro Sombras da noite: contos para a juventude, de autoria de Wilson Pires Ferro, São Luís: Lithograf, 2010; e da Revista da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, na qualidade de sua Presidente, São Luís: Edições AMLJ, 2013.

 

Discursos de Posse

DISCURSO DE POSSE

 

Exmo. Sr. Presidente Benedito Bogéa Buzar, da Academia Maranhense de Letras, na pessoa de quem saúdo os membros desta Casa de Antônio Lobo,

Caros Colegas Procuradores e Promotores de Justiça do parquet timbira, membros da Magistratura, das esferas estadual e federal, e do Ministério Público Federal, advogados e outros representantes dos diversos segmentos jurídicos,

Caros Confrades do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Ludovicense de Letras e da Academia Caxiense de Letras,

Estimada Professora Ceres Costa Fernandes, na pessoa de quem cumprimento, em especial, todas as mulheres aqui presentes,

Digníssimas autoridades civis e militares,

Caríssimos Professores,

Caros parentes dos escritores Joaquim Serra, Clodomir Cardoso, Odylo Costa, filho e Evandro Sarney,

Minha querida Mãe, que hoje aniversaria,

Estimados familiares e amigos,

Senhoras e senhores,

 

 

O pai nunca acha feio o que os filhos escrevem. […] Papai era o meu “fan” número um. Apreciava como ninguem os meus versos, os meus artigos, a minha oratória. Guardava tudo o que eu escrevia. Aplaudia os meus discursos sem se preocupar que o achassem porventura desmedido. Perdoai-lhe ainda essa manifestação de amizade por mim. […] Quando anunciavam uma conferência ou um discurso meu, não perdia. Já fatigado de sofrimento e alcançado de anos, sempre compareceu a toda solenidade em que eu tivesse de atuar como orador.

[…]

Hoje, já não o tenho vivo para me estimular na luta; desapareceu nele o meu melhor amigo e ouvinte. Que pena não poder ele continuar a me escutar nos meus versos, nas minhas locubrações, nos meus discursos!

Esta narrativa o reviverá, e de tal maneira, o creio, que me fortaleço em escrevê-la, certo de que morto meu pai ainda me ouvirá.

(Astolfo Serra, A vida simples de um professor de aldeia, 1944)[1]

 

Este discurso é dedicado à memória do Professor Wilson Pires Ferro, meu pai, que tinha um sonho.

Também sonhei. Os sonhos são de muitas espécies. Os do tipo Martin Luther King Jr. costumam conquistar o mundo. São da mesma categoria os do tipo Orígenes Lessa, que se contrapõem à mera luta pelo feijão nosso de cada dia, e os do tipo José Chagas, que caminham devagar, não têm chegada ou partida, mas nos dão a nossa medida e ainda viram poesia.[2] Há os sonhos do tipo Jorge Luis Borges, que viram livro, os do tipo Edgar Allan Poe, que viram pesadelo, e os do tipo Freud, sonhos de divã, que podem virar matéria de estudo. E há os do tipo tradicional, cabeça no travesseiro à noite, do tipo Lygia Fagundes Telles em uma de suas “miniaturas”: aparentemente não têm lógica, mas, admiravelmente, fazem todo o sentido do mundo.[3]

Tive sono, então sonhei. Não foi o sonho de uma noite de verão. No meu sonho, longo sonho, havia um trem, várias pequenas estações, outro trem, quatro grandes estações, um rio, outros rios, uma faca, um mar abraçando uma ilha e uma ilha “cercada de verdes campos,/por todos os lados”, no dizer de seu filho Evandro Sarney, que nela nasceu.[4]

Eu estava em um trem, mas ainda não nascera. E soube disso porque não chorei. Nem quando vi João Meireles Ferro e sua “Bela”, Izabel Pires Chaves Ferro, deixando a Princesa do Sertão, onde nasceram, rumo a outras paragens. E as estações se sucederam: Codó, Coroatá, Rosário… Só o rio, o Itapecuru, não ficou para trás. Os filhos igualmente brotaram do caminho de ferro, quatro morreram, seis vingaram.[5] Mas ele sonhava com o trem (era ferroviário), enquanto ela sonhava com a Ilha, para os filhos poderem virar doutor (era mãe, afinal). “João, precisamos ir para São Luís, os meninos precisam se formar!”, escutei-a argumentar. Homem que é homem apaixonado não aguenta muito tempo pedido persistente de mulher, ainda mais sábia. Ou se rende ou não sei o que faça. Ele se rendeu. Mas por partes, como cabia a um homem. Primeiro partiu o rapazote Wilson para a Capital, onde foi recebido pelo parente respeitado, certo professor de História de nome Mário Meireles, em cuja homenagem o ferroviário João batizara um filho menor, Mário Pires Ferro. E Wilson conviveu com as primas Ana e Mimi, estudou na antiga Escola Técnica e também virou professor de História, seguindo os trilhos do segundo pai, grande historiador destas plagas e ex-presidente desta Casa.

Desembarquei para o mundo na mesma estação de São Luís. Era maio. Em outubro nasceria a Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Temos praticamente a mesma idade. Embora estando numa ilha, as primeiras ondas que peguei não foram as do mar, mas as do rádio. Ouvi uma voz familiar: era o paraense Marcos Vinicius Sérgio de Almeida, eleito, por duas vezes consecutivas, “Rei do Rádio” (1953-1954). O célebre radialista e locutor fazia sucesso entre as mulheres, tanto pela estampa quanto pela voz. Infelizmente para as fãs, era casado com uma baixinha de olhos azuis fulgurantes, D. Ducilia Ferreira de Almeida ou “Lulu”, que enfrentara até mesmo a oposição da futura sogra, a cearense Luisa Rodrigues de Alencar Almeida, para se casar com o mancebo. Jorge Nascimento confidenciou-me que a sogra, supostamente da mesma árvore genealógica que já dera ao Brasil o escritor José de Alencar, era “professora normalista e jornalista”, colaborara em A Tribuna, de Nascimento Moraes, e era “exímia pianista e violonista, cultivando também a poesia”, além de declamadora “festejada”.[6] Uma mulher pioneira, sem dúvida. Porém, a paz só foi selada com o nascimento da primogênita do casal: Eunice.[7]

Meu sonho deu um pulo, sem intervalos comerciais. Wilson e Eunice se encontraram na Casa Bancária Francisco Aguiar ou na pista de dança do Casino Maranhense ou do Lítero, foram flechados pelo Cupido, ao som de um bolero ou de Elvis, e se casaram, e eu nasci ilhoa, como antes já o imortal Odylo Costa, filho, fora ilhéu:

 

Nasci numa ilha.

Era meu destino.

Numa ilha vivo

desde pequenino,

a estender os braços

pelo mundo todo

em busca de traços

que à terra me liguem.

Quero o continente!

Não me deixem só,

não me quero ausente.

 

Ninguém me compreende

esta busca ansiosa:

tenho o mar comigo,

quero ainda a rosa.

Joguem fora a âncora!

[…][8]

 

Também comigo foi assim: primeiro, veio a ilha; depois, o continente. A família foi minha primeira ilha. Minha mãe, meu anjo da guarda de todas as horas, respondeu a alguém que não me ensinava a cozinhar porque me queria estudando. Até hoje não me arrisco a fritar um mísero ovo. Mas me vi cercada de revistas e livros por todos os lados. Essa parte foi providenciada por meu pai. Eu esperava ansiosamente pelas visitas semanais ao Caiçara. Os gibis, as reinações de Narizinho e os contos de fadas russos, de Hans Christian Andersen e dos irmãos Grimm eram “censura livre”. Cresci e me apaixonei por Robin Hood e Ivanhoé, lutei ao lado de Arthur, Carlos Magno e Bradamante, detestei D. Quixote (ele era a negação do mundo dos cavaleiros medievais que eu aprendera a amar, só posteriormente lhe dei o crédito merecido), viajei ao redor da Lua e ao centro da Terra, percorri 20.000 léguas submarinas com o Capitão Nemo e cheguei à ilha misteriosa, aprendi com o homem que calculava, contei quatro e não três mosqueteiros, quis saber quem estava por trás da máscara de ferro e o que estava por trás do retrato de Dorian Gray, subi o morro dos Ventos Uivantes e voltei para casa com Ulisses, acompanhei a tirania de Ivan, o Terrível, e a caçada a Moby Dick, sofri com Salambô, Julieta, Jane Eyre, Iracema, Helena, a Escrava Isaura, Oliver Twist e os miseráveis, sorri com Elizabeth Bennet e a moreninha, admirei o Capitão, isto é, a Capitã Tormenta, testemunhei os últimos dias de Pompeia e a revolução dos bichos, não lamentei a sorte (ou azar) de Fausto e investiguei, motivada por Sherlock Holmes, os crimes da rua Morgue, do Padre Amaro e de Lady Macbeth, diante de quem Odete Roitman era uma dama adorável. E isso foi só o começo. Dei várias voltas ao mundo em infindáveis e recicláveis 80 dias! Pois não disse certo poeta português que, para viajar, basta existir?[9]

Na minha ilha, cada vez maior, igualmente cabiam meus avós, tios, primos, entre outros. Filha única, os irmãos de infância que tive foram, principalmente, os primos Mauro, Flávio, Cláudio e Eduardo.

No Colégio Santa Teresa, jardim da minha infância e primeira adolescência, estudei, fiz as primeiras amizades, Valéria, Maria de Jesus, Flávia, Eugênia, Mônica, Izabel Elísia, Danielle, Márcia Beatriz, Acácia, Jamila, Eulália, Wesley, ainda outros, lista sempre incompleta, rostos preservados no tempo ou levados pelo vento, estudei de novo, brinquei de Polícia e ladrão (naquele tempo, todo mundo queria ser Polícia, ninguém queria ser ladrão, o que trazia certo inconveniente, mas isso parece ter mudado hoje), estudei mais (era dia de prova da professora Eulina Maranhão!), joguei algum tênis de mesa e muito pingue-pongue, estudei muito mais, fiz a acusação a Capitu no julgamento em que ela foi condenada por adultério (a primeira vez que fui Promotora de Justiça!), aí não estudei mais lá, meu pai queria o continente, minha mãe também. Voltei ao trem, deixei São Luís. Café com pão, bolacha não.[10]

Desembarquei no Rio, não sei se era janeiro. O mar não era o mesmo, era pintado de outra cor. Santa Teresa não era colégio, era bonde ou bairro. O jeito foi estudar no Colégio Itamarati, Instituto Guanabara, da Tijuca. Foi somente um ano nessa estação. Foi bom. Mas voltei ao trem. Café com pão, bolacha não.

Retornei à ilha. De repente, do colégio fez-se a universidade, a Federal do Maranhão, e eu me formei em Letras, para ser diplomata ou professora. A professora Marisa Moreira me conduziu à Roma Antiga, com a professora Ceres Fernandes fui Jocasta por uma manhã e o saudoso professor Fernando Moreira, meu primeiro Virgílio – aquele da Comédia que virou Divina –, me levou num bonde chamado Desejo e me contou os segredos de Jane Austen, sem orgulho ou preconceito, até hoje minha autora de cabeceira. Na Aliança Francesa, conheci Albert Camus, Prosper Merimée, Corneille, Baudelaire… Era preciso honrar o idioma dos nossos fundadores.

“De repente, não mais que de repente”, como no soneto de Vinicius de Moraes,[11] eu joguei fora a âncora e zarpei para a terra de Tennessee Williams. Aportei em Eugene, que não é uma ilha, mas eu me senti numa. Até me abrir para o continente. E para outra ilha. Ainda não a Ilha Desconhecida, Saramago ainda não era presente. Foram muitas aventuras na University of Oregon: Shakespeare, Edmund Spenser (o Camões da língua inglesa), Thomas Kyd, Thomas Middleton, John Dryden, Aphra Behn, da Ilha da Rainha, além das viagens com Goethe, Maquiavel e outros. Mergulhei nas aulas e no livro Mighty Opposites: Shakespeare and Renaissance Contrariety (1979), do meu Professor Robert Grudin, especialista na obra do bardo inglês, até hoje meu escritor favorito, desaparecido, mas não morto, há mais de 400 anos. Para mim, não há autor mais universal ou mais completo. Foi muito bom.

Todavia, voltei à minha ilha, atendendo ao chamado de Têmis. Corri para não me atrasar nas aulas do professor Pedro Leonel Pinto de Carvalho, torci para que o tempo parasse nas aulas do professor Agostinho Ramalho Marques Neto, não dormi na véspera das provas do saudoso professor Nywaldo Macieira e estive no Tribunal de Nuremberg com a também desaparecida professora Maria Eugênia Serra Costa Aguiar, no papel de Beatriz. Formei-me em Direito, para ser algo que eu ainda não sabia o que seria. Embarquei na nau ministerial, sob o timão da Procuradora de Justiça Elimar Figueiredo de Almeida Silva, quase por acaso. Mas foi amor à segunda vista. E dei adeus ao Barão do Rio Branco, que sumiu no horizonte.

Tive saudade do trem. Deixei de novo a ilha, rumo à estação do Belo Horizonte. Café com pão de queijo, bolacha não. Falar de trem em Minas é quase um pleonasmo. De repente, do mestrado fez-se o doutorado na Vetusta Casa de Afonso Pena. Meu segundo Virgílio foi o professor e Procurador de Justiça Carlos Augusto Canêdo Gonçalves da Silva. E meus primeiros livros vieram a lume. Era hora de deixar as montanhas e voltar à ilha, escorridos quase quatro anos. Outras viagens vieram. Também outros livros. De repente, era março, não janeiro, e eu estava novamente no Rio, recebendo a Menção Honrosa do Prêmio Pedro Calmon no imponente auditório do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. De repente, era dezembro, e lá estava eu de novo para segurar o belo troféu do PEN Clube do Brasil.

No dia 15 de setembro de 2016, entretanto, recebi um bilhete para embarcar em um novo trem, fabricado em 1908, mas sempre remodelado, com vagões elegantes e exclusivos. No primeiro, há 12 poltronas fixas, originalmente ocupadas pelos passageiros fundadores, depois substituídos por seus sucessores, todos efetivos; no segundo, há mais 28 poltronas fixas, reservadas aos demais passageiros da mesma classe; no terceiro, mais afastado, há 20 poltronas, destinadas aos passageiros correspondentes; por derradeiro, nos seguintes, encontram-se as bagagens. O número de cadeiras fixas nos três primeiros vagões não se altera; as bagagens, por outro lado, estão sempre aumentando. Essas cadeiras possuem patronos. De vez em quando, um passageiro desce do trem, com todas as honras; sua bagagem, no entanto, nele permanece. Disseram-me que eu agora seria imortal; a ideia me deixou animada, confesso, mas algo na palavra “passageiro” me incomoda. Fico com a impressão de que a única imortalidade possível está na bagagem de cada um. O meu assento é o de nº 12. A cadeira em questão tem como patrono Joaquim Maria Serra Sobrinho, como fundador Clodomir Serra Serrão Cardoso e como últimos ocupantes Odylo de Moura Costa, filho e Evandro Ferreira de Araújo Costa, mais conhecido por seu nome literário, Evandro Sarney.

Senhoras e senhores, na data de hoje, subo neste trem batizado de Academia Maranhense de Letras ou apenas AML, conduzido pelo competente e experiente maquinista Benedito Bogéa Buzar. O trem parte. Café com pão, bolacha não. De logo, ouço parte de um poema, cantado com a música da Tocata de Villa-Lobos:

 

[…]

lá vai o trem sem destino

pro dia novo encontrar

correndo vai pela terra

vai pela serra

vai pelo mar

cantando pela serra do luar

correndo entre as estrelas a voar

no ar

[…][12]

 

Desculpai-me a ousadia, sem dúvida não tenho a voz de Edu Lobo para interpretar Ferreira Gullar na versão Villa-Lobos ou vice-versa, porém eu sigo as instruções do Poeta, desaparecido em 2016, mas bastante vivo no meu sonho. Ademais, soube que cantar pode dar Prêmio Nobel de Literatura…

Dou adeus ao meu grupo escolar. Dou adeus à minha espada de brincar. Dou adeus ao menino que eu quis amar, “que o trem me leva e nunca mais vai parar”.[13]

Estou eu ainda enlevada pela poesia gullariana, quando o trem se aproxima da primeira estação. Pela janela, vislumbro uma aldeia em festa, acarinhada pelo luar, à beira de um rio. Lá o tempo parou, e ainda é dezembro, nos versos de um vate quase anônimo:

 

Repica o sino da aldeia,

Troa o foguete no ar!

O rio geme na areia,

Na areia brilha o luar.

Quantas vozes, que alegria!

O povo da freguesia

Corre em chusma, folgazão.

No caminho arcos de flores,

Por toda parte cantores,

Folguedos e agitação!

 

[…][14]

 

E antes que eu pergunte o motivo da agitação, vem-me a resposta: “Porque produz tanto abalo/Esta festa sem rival?/É hoje a missa do galo,/Santa missa do Natal![15]

Quero ouvir o final do poema ou conversar com o Poeta, mas o trem segue seu rumo e chega à estação. De repente, estou no Rio, não sei se é janeiro, mas a República ainda não nasceu. Procuro pelo Poeta da aldeia, logo identificado como Joaquim Maria Serra Sobrinho ou, simplesmente, Joaquim Serra, patrono da Cadeira nº 12 desta Casa de Antônio Lobo, jornalista por excelência, além de professor, político, administrador público, teatrólogo e crítico de arte, todavia modesto e recluso por opção. Tal é sua modéstia que costuma se refugiar em pseudônimos. Sigo a trilha do Amigo Ausente, de Ignotus, Max Sedlitz, Pietro de Castellamare e Tragaldabas (Harry Potter ainda não era nascido!), que me levam a seus escritos, de páginas carregadas pelo vento ou reunidas em algumas obras: Julieta e Cecília (1863), Mosaico, poesia traduzida (1865), O salto de Leucade (1866), A casca da caneleira, romance marcado pela autoria coletiva (1866), Versos de Pietro de Castellamare, tradução (1868), Um coração de mulher (1867), Quadros (1873) e Sessenta anos de jornalismo, a imprensa no Maranhão, 1820-80, por Ignotus (1883).

Nesse Rio imperial, continuo à procura de Joaquim Serra, a propósito primo da Sra. Maria Tereza da Serra Costa, avó das minhas estimadas professoras Maria Tereza Cabral Costa Oliveira e Maria Eugênia Serra Costa Aguiar, referências inelutáveis de competência e amor ao magistério no Curso de Direito da UFMA.

Sou atraída pela manifestação de mais de 10.000 pessoas aclamando a Princesa Isabel da praça defronte ao Paço Imperial no dia 13 de maio de 1888. Conta-me Mary del Priore que ela, “vestida de branco-pérola e rendas valencianas, assinou com uma caneta de ouro a lei que pôs fim à escravidão no império”.[16] Leio nos jornais: “Delírio e estrondosas manifestações de regozijo popular”.[17] Nesse momento ouço André Rebouças comentar que o patrono da Cadeira nº 12 da AML foi “o publicista brasileiro que mais escreveu contra os escravocratas”. Tão relevante foi o seu papel que José do Patrocínio posteriormente o elegeu patrono da Cadeira nº 21 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Leio a sua biografia. Nasceu em São Luís a 20 de julho de 1838, filho do político e jornalista Leonel Joaquim Serra. Ele estudou humanidades na então Província do Maranhão. Foi para o Rio, onde permaneceu entre 1854 e 1858 com o intuito de ingressar na antiga Escola Militar, porém não seguiu tal carreira e retornou à capital maranhense livre para explorar caminhos que não envolvessem a obtenção de um diploma de faculdade. Muito jovem lançou-se no mundo do jornalismo e da poesia, encontrando no Publicador maranhense, capitaneado por Sotero dos Reis, de 1858 a 1860, o veículo inaugural de seus escritos. Nos anos que se sucederam, ele fundou o jornal Coalizão, arauto das ideias do Partido Liberal, na companhia de amigos (1862), e o Semanário maranhense (1867). Também se dedicou ao magistério e à política, exercendo o ofício de professor de Gramática e Literatura no Liceu Maranhense, conquistado por concurso, o mandato de deputado provincial de 1864 a 1867 e o cargo de secretário do governo paraibano nesse mesmo período. Sua trajetória conheceu uma guinada quando ninguém menos do que o grande Machado de Assis, um dos fundadores da futura Academia Brasileira de Letras, o apresentou à intelectualidade da corte em crônica publicada no Diário do Rio de Janeiro em 24 de outubro de 1864, tornando-se o seu padrinho literário. Quatro anos depois, Joaquim Serra estabeleceu-se no Rio, onde trabalhou nas redações dos periódicos Reforma, Gazeta de notícias, Folha nova e O país. Dirigiu o Diário Oficial de 1878 a 1882, do qual decorosamente se afastou por motivo de discordância com o Gabinete de 15 de janeiro de 1882. Por essa época, mais exatamente de 1878 a 1881, foi deputado geral pelo Maranhão, firmando-se, sobretudo, mas não exclusivamente, com a pena incansável de jornalista, como um dos expoentes da campanha abolicionista, o que justifica plenamente o comentário de André Rebouças.

Afora os artigos, seus escritos incluem poesia, ensaio, teatro, como autor e tradutor, dentre outras modalidades textuais. Desafortunadamente, suas peças, pelo que é sabido, jamais foram impressas. “Versos sobre versos, prosa e mais prosa, artigos de toda casta, políticos, literários, o epigrama fino, o epíteto certo ou jovial, e, durante os últimos anos, a luta pela abolição, tudo caiu daqueles dedos infatigáveis, prestadios, tão cheios de força como de desinteresse”, sintetiza o amigo Machado[18]. Mas foi com o jornalismo, sem dúvida, que Joaquim Serra alcançou o reconhecimento maior da intelectualidade brasileira. Chega-me aos ouvidos, pelos corredores do tempo, a observação de Nelson Werneck Sodré de que ele era “respeitado por seus contemporâneos como mestre do jornalismo”, também lembrada por Benedito Buzar, o nosso Presidente da AML, para quem “Joaquim Serra terá devido ao próprio jornalismo, à marca efêmera da folha de jornal, a rápida passagem de seu nome pelas letras pátrias”. O mesmo Buzar me estende a terceira edição do livro Sessenta anos de jornalismo: a imprensa no Maranhão (2001), classificando-o como um dos primeiros “e ainda um dos melhores” estudos sobre a imprensa local, “tanto por seu objeto específico como pela importância de quem o escreve”. E arremata afirmando que Joaquim Serra é “um dos maranhenses de maior lustre intelectual, um dos brasileiros de atuação mais intensa e polimorfa em seu tempo, hoje injusta e injustificadamente esquecido”.[19]

Volto à capital do Império do Brasil. Ainda vagueio em busca de Joaquim Serra. Recorro ao seu amigo, o Bruxo do Cosme Velho, para conhecer de perto tão ilustre personagem. Mas já é tarde. Ele falece no Rio, terra que o imortalizaria no panteão dos homens notáveis, apenas alguns meses após a assinatura da Lei Áurea, a 29 de outubro de 1888, no crepúsculo do Império. Diz-me Machado de Assis, alguns dias após a morte de seu mui estimado amigo, que, além de modesto – cujas ideias eram como “moedas de ouro, sem efígie, com o próprio e único valor do metal”, já que “saíam todas endossadas por pseudônimos” –, ele tinha “a virtude do sacrifício pessoal”. O Bruxo do Cosme Velho lamenta o “contraste singular entre os méritos de Joaquim Serra e os seus destinos políticos” e o fato de que não recebeu em vida o reconhecimento popular que lhe seria devido pela sua atuação como paladino da justiça: “Quando chegou o dia da vitória abolicionista, todos os seus valentes companheiros de batalha citaram gloriosamente o nome de Joaquim Serra entre os discípulos da primeira hora, entre os mais estrênuos, fortes e devotados; mas a multidão não o repetiu não o conhecia”. Pergunto-lhe sobre o estilo do publicista e político ludovicense, e ele me responde que era “feito de simplicidade, e sagacidade, correntio, franco, fácil, jovial, sem afetação nem reticências”, que não se assemelhava ao “humour de Swift, que não sorri, sequer”, porém, diversamente, que “o nosso querido morto ria largamente, ria como Voltaire, com a mesma graça transparente e fina, e sem o fel de umas frases nem a vingança cruel de outras, que compõem a ironia do velho filósofo”. Embora emocionado e triste, Machado de Assis conclui em tom triunfal: “Creio que Joaquim Serra era principalmente um artista. Amava a justiça e a liberdade, pela razão de amar também o (sic) arquitrave e a coluna, por uma necessidade de estética social”.[20]

Nada mais tenho a fazer nesse Rio imperial. O trem apita na estação e eu parto com ele. Café com pão, bolacha não. Vou para o Distrito Federal, à procura do Senador Clodomir Serra Serrão Cardoso, mais conhecido pelo nome parlamentar de Clodomir Cardoso, fundador da Cadeira nº 12 da AML e, a propósito, professor fundador da Faculdade de Direito do Maranhão. A viagem é curta, nem vejo surgir o cerrado pela janela. E então me lembro de que Brasília simplesmente não existe, ainda é um sonho a esperar a chegada de Juscelino Kubitschek ao poder. Desembarco novamente no Rio e me deixo levar pela corrente de suas ruas, até que reconheço Aglaia, saída das páginas do romance A coroa de areia, do imortal Josué Montello, a caminho do Senado para tentar uma entrevista com o parlamentar. Deseja pedir-lhe a intervenção em favor de seu marido João Maurício, preso por ativismo político na turbulenta década de 30. Lá ouço alguém anunciar: “Aqui tem a senhora o Senador Clodomir Cardoso, uma das figuras mais eminentes do Brasil, em qualquer tempo. Mestre de todos nós, aqui no Senado.”[21] A apresentação me parece insuficiente, pois se trata de alguém que, além de destacado político, foi professor, jornalista, jurista, poeta e autor de diversos trabalhos jurídicos e literários. Recorro a seu colega José Sarney para descrevê-lo: “Com seu porte ereto, a cabeleira branca, o olhar de autoridade e professoral, era tido como um dos homens que representavam, na linha da tradição, as virtudes morais dos maranhenses”, além de “um dos maiores jurisconsultos do país”, dotado da “visão do estadista lastreada numa grande formação cultural”.[22]

Da entrevista do Senador Clodomir Cardoso com Aglaia, guardo apenas uma de suas frases, que atravessou a porta que nos separava: “Não traio minha consciência. Isso nunca.” Ela parte, e sou levada ao gabinete do Senador, mas ele não está mais lá. Espero. Interesso-me pelas obras de sua autoria, caprichosamente arrumadas na estante, a grande maioria versando sobre temas jurídicos: A municipalidade de São Luís (1916), A debênture num concurso de credores (1917), A condição política da mulher casada em face da Constituição de 1891 (1925), A mulher e o direito de voto ante a Reforma Constitucional de 1926, A intervenção federal nos Estados, Sociedades anônimas (1930), dentre outras. Mas o que mais me encanta é o seu ensaio “Ruy Barbosa: a sua integridade moral e a unidade de sua obra”, que alia a profundidade da abordagem à escolha de um ícone como objeto de estudo, publicado na Revista de Língua Portuguesa em 1926. Ele retorna, intimido-me, a princípio, com a sua austeridade, porém logo a conversa flui como as águas de um rio caudaloso. Ele me fala dos seus tempos de magistrado no Pará e de Promotor de Justiça da Comarca de Bragança e Maracanã, de Prefeito em São Luís, de Deputado, de seus vários livros… Pergunto-lhe sobre a sua poesia, e ele se revela modesto. O tempo passa e deixo-o relutante para retomar o trem, pensando em como um homem como ele, referência moral de toda uma geração, faz falta no Brasil hodierno, mergulhado em aguda crise ética.

O trem se põe em marcha e volto à janela. O meu carro é forrado de palhinha, porém cai faísca nele. Café com pão, bolacha não. Logo vejo um rio, o Parnaíba, e uma barca, levando o velho João da Grécia e sua jovem Maria, esta arrastada pela correnteza da vida para um fim trágico nas mãos de seu marido ciumento, uma história que, desafortunadamente, continua a se repetir, com frequência intolerável, para desgraça de outras tantas Marias, não obstante as sementes espalhadas pela Lei Maria da Penha, à espera que o tempo e os homens as transformem em frutos vistosos. Não vejo a faca de cabo de prata, mas ela está lá, todo o tempo, no fundo ou no topo da mala de couro de João e, por fim, no corpo indefeso de Maria. A corrente, diz o novelista Odylo Costa, filho, em A faca e o rio (1965), “puxa com força” e não é fácil “ir contra o velho rio poderoso”.[23] Não há remanso no futuro de Maria… Pelo menos, a sua história ganhou o mundo, foi traduzida para o inglês pelo Prof. Lawrence Keates, da University of Leeds, e chegou às telas de cinema pelo olhar do holandês George Sluizer.

De repente, surpreendo-me ao ver João da Grécia e Maria no trem, ele a lhe oferecer laranjas maduras, que ela aceita com gosto.[24] E então não mais os vejo. O trem chega à terceira estação. E estou de novo no Rio, ignoro se é janeiro, mas o ano é 1963. Saio da estação em busca do jornalista, cronista, poeta, ficcionista, crítico literário e político maranhense Odylo de Moura Costa, filho, penúltimo ocupante da Cadeira nº 12 da Academia Maranhense de Letras e quarto ocupante da Cadeira nº 15 da Academia Brasileira de Letras, cujos padrinhos de casamento com a amada piauiense Nazareth, como testemunho de seu prestígio no meio intelectual nacional, foram ninguém menos do que Manuel Bandeira, seu melhor amigo, que o tinha como filho, Ribeiro Couto e Carlos Drummond de Andrade. Na madrugada de Santa Teresa, encontro o seu primogênito, Odylinho, todavia é uma ocasião trágica: ele é assassinado por menores abandonados ao defender a namorada, o que causa uma verdadeira comoção no país. “Mãos frias,/porque mãos vazias”, diria Dagmar Destêrro, imortal desta Casa.[25] O pai, magnanimamente, perdoa publicamente o algoz de Odylinho e ainda vem a empreender incansável luta em prol dos menores infratores, de que resulta o nascimento da antiga Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor – FUNABEM. E faz de sua dor matéria-prima para o belo soneto petrarquiano “A meu filho”:

 

Recorro a ti para não separar-me

deste chão de sargaços mas de flores,

onde há bichos que amaste e mais os frutos

que com tuas mãos plantavas e colhias.

 

Por essas mãos te peço que me ajudes

e que afastes de mim com os dentes alvos

do teu riso contido mas presente

a tentação da morte voluntária.

 

Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te

Me tire o gosto do terreno barro

E a coragem dos lúcidos deveres.

 

Que estas árvores guardam, no céu puro,

entre rastros de estrelas, a lembrança

dos teus humanos olhos deslumbrados.[26]

 

Outros eventos dolorosos se sucedem. Pouco mais de um ano depois, falece aos 11 anos a filha Maria Aurora, portadora de deficiência mental profunda. Um violento enfarte o acomete. E a dor do Poeta uma vez mais se transforma em verso, consoante testificam os tercetos de seu soneto intitulado “Dedicatória”:

 

[…]

 

Veio depois a vida e mergulhou

a minha alma na grande dor severa,

barco afogado em rio adormecido.

 

Do sofrimento o verso rebentou.

Antes, meu Pai e minha Mãe, quisera

que esse verso jamais fora nascido.[27]

 

Para Mallarmé, com efeito, en poésie, il s’agit, avant tout, de faire de la musique avec sa douleur, laquelle directemente n’importe pas, o que leva o amigo Bandeira a dizer que Odylo fait de la musique avec sa douleur, isto é, “toca música com sua dor”, pontificando: “Música de timbre próprio, de inefável doçura, sem melaço.”[28] Nesse período de luto, Manuel Bandeira faz um soneto para Odylo e Nazareth e Carlos Drummond carinhosamente dedica ao jornalista o “Soneto de Odylo”. Quando da preparação da segunda edição de sua Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos, Bandeira, aliás, tem o privilégio de ser o primeiro a ler alguns dos poemas inéditos do maranhense, especialmente aqueles marcados pela tragédia com o filho adolescente, classificando-os entre “os mais belos da poesia de língua portuguesa”.[29] E Odylo, que jamais abandonara a poesia completamente, se abre definitivamente para os encantos das musas Érato e Terpsícore, vindo a publicar vários livros de poesia, principiando por Tempo de Lisboa e outros poemas (1966) e Cantiga incompleta (1971), no breve espaço de 1966 a 1979, em que sobressai a predileção pelos sonetos, “tão perfeitos de inspiração e forma que ninguém os acredita obra de principiante tardio, mas de grande poeta laureado”, conforme constata Rachel de Queiroz.[30] Jorge Amado confessa que há muito “não lia versos em voz alta para Zélia ouvir”, enquanto Carlos Drummond o chama de “poeta contumaz e geral”, que “sabe tirar do soneto uma sutil modulação em que se casam o gosto moderno e clássico”.[31]

Foi como se houvesse arrebentado um dique no peito do Poeta ludovicense. Também o seu lado ficcionista vem à tona com a novela A faca e o rio (1965) e os contos “A invenção da ilha da Madeira” (1966) e História de Seu Tomé meu pai e minha mãe Maria (1970). Para a mesma Rachel de Queiroz, a primeira obra é uma “bela tragédia sertaneja”, escrita pelo “dono de uma prosa que tanto tem de poética e colorida quanto tem de segura e enxuta”.[32] Tomo coragem e procuro o imortal escritor ludovicense. Ele me recebe calorosamente, com um largo sorriso. Em um canto, vejo algumas de suas numerosas obras. Pergunto-lhe, de chofre, qual o segredo de sua poesia, e ele me responde com estes versos do soneto “Oferta”:

 

[…]

 

Não me proponho – nunca! – à faina ingrata

da tortura da forma, essa que outrora

jogava o poeta insone noite afora,

artesão de ouro trabalhando a prata.

 

Quero o abandono incólume do fruto,

na disciplina rija e natural,

onde a árvore não põe sinal de esforço.

 

Trago-te o verso, após, como um tributo

ofertado na mão, luz matinal

de abelha e mel a escorrer do dorso.[33]

 

Mas há algo no ar. O Poeta parece se despedir. Vejo os originais de seu livro Boca da noite (1979), e me deparo com este soneto shakespeariano, menos usual na sua obra poética:

 

De repente, eis-me em tudo tão tranqüilo

como se a morte já tivesse vindo.

Não me ocupa o amanhã para construí-lo.

Nem me lembra se o ontem não foi lindo.

Da cinza não me queixo pois foi brasa.

Entre os livros não sofro solitário.

Árvore e filhos deram luz à casa.

Tive flores de irmãos no meu calvário.

Sinto entre as sombras o invisível rio

descer tão lento agora que a canoa

pára no susto antigo que a povoa.

Nem alegria ou dor, calor ou frio.

No mundo ponho uns olhos bons de avô:

foi a boca da noite que chegou.[34]

 

E a boca da noite acaba por tragá-lo aos 64 anos, uma semana depois de entregar esses originais à sua editora. Os seus muitos e ilustres amigos das letras se reúnem para homenageá-lo. Fica-me a eloquente sentença de Guimarães Rosa: “Você é um dos seis melhores, maiores poetas nossos. A mim, em muito, talvez o que me traz mais necessariamente a poesia, como conversa prévia que Deus concede, como marulho do riacho. Como consolação. Obrigado Odylo.”[35] Quase posso ouvir a voz inconfundível de outro Poeta destas bandas: “ser poeta é duro e dura/e consome toda/uma existência”.[36] Desejo quedar-me no Rio para poder apreciar mais da excepcional obra de Odylo, para poder me abandonar nessa odylíada,[37] mas não devo atrasar o trem. Sou Cinderela, não devo passar de meia-noite.

O trem deixa o Rio, Joaquim Serra, Clodomir Cardoso e Odylo Costa, filho para trás. Café com pão, bolacha não. O mar vira sertão, e o sertão vira Baixada. O trem alcança uma ilha, terra de Joaquim Itapary, outro imortal desta Casa, mas é uma ilha diferente, “cercada de verdes campos,/por todos os lados”,[38] como a descreve outro de seus insignes filhos, um poeta que, acompanhado de um amigo e um irmão mais velho, sobe no trem na pequena estação onde paramos por alguns minutos. O Poeta se despede de seu torrão natal, São Bento, que vai desaparecendo no horizonte, com um soneto do qual consigno o último terceto: “Longe de ti, jamais estou sozinho/teu perfume ao meu lado vem, caminha/qual uma imensa rosa, sem espinhos.”[39]

Eu dele me aproximo para prosear e ele me acolhe com jeito de menino do interior, revela que nasceu Evandro Ferreira de Araújo Costa, depois Evandro Sarney, a 16 de maio de 1931, tendo como pais Sarney de Araújo Costa e Kiola Leopoldina Ferreira de Araújo Costa, ela de “voz mais doce do que o mel” na hora da bênção vespertina.[40] Explica que terminou o primário no Grupo Escolar Mota Júnior e que foi “criado à beira dos igarapés sambentoenses, bem ali, acolá, onde o mar termina e o rio Aurá começa e desce, lento, enfeitado de verde do mangue, depois pelas folhas de mururú e que vai terminar no verde só verde e mais verde dos campos dos Perizes”.[41] Fala-me da primeira casa de sua família, com suas “muitas e grandes janelas”,[42] situada atrás da Igreja do Senhor São Bento, e eu penso que ele está destinado a abrir muitas janelas para o mundo. Seu amigo e o irmão se apresentam, o primeiro se chama Álvaro, mas é conhecido como “Vavá”, e o segundo nasceu José Ribamar, contudo o Maranhão, o Brasil e o mundo o conhecem como José Sarney, dono do mar e dos marimbondos de fogo.

A prosa é tão boa que não percebemos quando o Rio Aurá vira baía. “Nossos caminhos eram de campos/mas, também eram de mar”,[43] comenta o Poeta. Café com pão, bolacha não. Chegamos a São Luís, nossa derradeira estação. Evandro recorda outra chegada perdida no tempo e menciona que ali aportara ainda em idade escolar. Vejo e ouço a Ilha pelos olhos e ouvidos do Poeta: o apito da fábrica Santa Amélia e o barulho dos seus teares, aquela situada defronte da pousada de D. Sérgia, D. Lídia Candido e Pedro Costa, onde residira com o irmão José, os pães quentinhos da padaria da Rua São Pantaleão, as aulas no Liceu Maranhense da época de Mata Roma, Ruben Almeida e muitos outros mitos do magistério maranhense… Não vejo lampiões de gás, porque, nos alvores do séc. XX, o Prefeito Clodomir Cardoso já os substituiu por iluminação elétrica.

Continuo com o Poeta, de memória extraordinária, agora com o corvo de Edgar Allan Poe a seu lado. Evandro me conta a sua história. É casado com D. Aglaé,[44] esposa exemplar, amor dos tempos do colégio, e tem seis filhos, sendo três mulheres e três homens.[45] Seu pendor para as letras se manifestou ainda na adolescência, tendo como veículo inicial de expressão grêmios e movimentos literários estudantis, em que se moldou o intelectual aos poucos amadurecido em talentoso poeta, apreciador dos sonetos, sem exclusão do manejo de outros formatos poéticos, a exemplo do amigo Odylo; em combativo jornalista, dedicado, sobretudo, às questões políticas; em sensível cronista, cujos temas iam de Erasmo Dias a Jorge Amado, da vida circense à viagem para a Baixada Maranhense; e em celebrado orador, da mesma nobre estirpe de Astolfo Serra. Confidencia-me o irmão José que Evandro Sarney, aos 18 anos, já “era a estrela mais aplaudida” dos comícios políticos da então Oposição, que era corajoso nas refregas políticas, grande cronista e boêmio, vivendo “como os poetas do século XIX, em que ser literato importava numa vida de inspiração aventureira”.[46]

Foi secretário na administração de Eugênio Barros e eleito deputado estadual, exercendo o mandato, com sucessivas reconduções, de 1954 a 1970. Mas, como no poema de Drummond, no “meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho”.[47] E esta veio na forma de um grave acidente, que, conquanto sem sequelas físicas, pouco a pouco o afastou da política, porém o aproximou mais da família e da literatura.[48] Evandro se aposentou no cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

No âmbito literário, integrou o grupo da Guanabara, foi eleito para a Academia Maranhense de Letras em 24 de janeiro de 1980 e tomou posse na Cadeira nº 12 em 25 de abril do mesmo ano, em sucessão ao grande poeta Odylo Costa, filho, ocasião em que foi saudado pelo Ministro Carlos Madeira. Lá o irmão José já o esperava desde 1953. Em 1983, a tríade inédita de irmãos nesta Casa se completaria, com o ingresso de Ivan Sarney, outro poeta, quase 15 anos mais jovem. Evandro é ainda fundador da Cadeira nº 16 da Academia Sambentuense, tendo como patrono o constitucionalista Raymundo de Araújo Castro.

Sob a pena do jornalista atuante, possui volumosa colaboração em órgãos da imprensa local. Sua produção, abrangendo poesias, crônicas, contos, artigos e ensaios, está presente nas páginas de livros, jornais e revistas. E elogiados discursos de sua lavra encontram-se registrados nos anais da Assembleia Legislativa do Estado.

No apartamento do Poeta, pergunto por seus livros, e ele me mostra a sua bibliografia: Não convertamos uma questão de futuro em questãocomercial (São Luís, 1956), Cantigas de quebra-mar: poesia e prosa (São Luís, 1979), Noite maranhense (contendo o discurso de posse na AML; em coautoria com Carlos Madeira) e Aquele verde tão verde: poemas e crônicas (São Luís, 1981).

São Luís é o grande tema, ainda que não exclusivo, de sua obra poética, tomada pelo lirismo, como demonstram estes versos de abertura do poema “São Luís em tempo de louvação”:

 

Meiga, morena e bela Ilha.

Ilha pequena, ilha grande

Que nos meus braços faz vazante

E preamar nos meus olhos.

Ai, que amor de pecados

Na cama de tuas dunas

E na espuma do teu mar.

 

[…][49]

 

Não menos eloquentes são os versos finais do poema “Apenas um relatório poético”:

 

[…]

 

A ilha de São Luís é um armistício

Perante todas as guerras.

 

Por isso eu canto esta ilha,

Que nem uma Cigarra velha,

 

Canto até perder a voz.[50]

 

Não por acaso, Carlos Cunha saúda Evandro Sarney como o “cantor da Ilha” no final do prefácio do livro Cantigas de quebra-mar (1979), ressaltando que ele “vive em permanente diálogo com São Luís, deslumbrado com as belezas da ilha, em exaltação à natureza que o comove”, bem como que ele “sabe como poucos captar as nuances idílicas do cotidiano de nossa terra”.[51] Não é uma cidade qualquer, entretanto, que se vê exaltada pela pena do Poeta. É uma cidade inconstante, porque em constante movimento, ao sabor das marés, ora cercada “de águas e ondas, gaivotas e peixes”,[52] ora “sem verde e sem flores”, envolvida por um mar “sem água e sem flores”, um “mar seco, vazante”.[53] É uma cidade que ora lhe sorri, ora o “lança ao mar como amante usado”.[54] Daí a presença do mar em muitos de seus poemas devotados à natureza, sua permanente fonte de inspiração. São tantos os seus poemas molhados de mar! Enfim, a São Luís de Evandro é uma cidade com corpo “amigo de mulher”,[55] “salgado de mar”,[56] com o perfume das rosas que transformam o jardim do Poeta em “estranho anfiteatro”.[57] Nenhum outro poeta celebrou tanto a natureza desta ilha.

Na sua obra impregnada do mais puro lirismo, ainda se destacam os poemas inspirados em experiências marcantes de sua vida pessoal, como a chegada aos 50 anos,[58] e nos seus amores, mãe, esposa, filhos e netos, a exemplo do poema “Louvação em três cantos para a neta Evandra”, além daqueles consagrados à Baixada Maranhense e à sua querida São Bento.

Ainda uma palavra sobre a sua poética. Carlos Madeira, em seu discurso de recepção de Evandro Sarney nesta Casa, apresenta outra perspectiva sobre o verdadeiro sentido da exaltação do Poeta à cidade:

 

A sua louvação à cidade, porém, não é a de um poeta visual, preso à beleza das coisas ou à sua historicidade. […] A cidade é apenas o espaço que se alarga à medida em que ele sofre e ama, sente e sonha, estabelecendo uma correspondência entre o espaço externo e a intimidade que se aprofunda, no dia-a-dia de sua vida. É ela uma gaiola de ouro, onde o poeta pode recriar os caminhos de sua juventude e contemplar as acácias do seu jardim.[59]

 

Na visão de Carlos Madeira, “São Luís é para ele o recanto essencial de um universo alargado por sua visão poética”, sendo que o esconderijo de Evandro “não é só a velha cidade”, mas também a sua vila natal, pois o “poeta só se acha seguro no seu chão de infância”.[60]

Aos 84 anos, a 10 de abril do ano passado, nesta São Luís que tanto o inspirou, ele desce do trem da Academia e da vida, deixando valiosa bagagem para o nosso deleite. Creio que seu túmulo é o mar da Ilha. Lembro suas palavras: “Desconheço o mar que me espera em naufrágio.” Ouço o corvo que o acompanhava repetidamente sentenciar: Nevermore. “Nunca mais.” Nevermore.[61] Mas o corvo logo voa, e um urubu pousa numa árvore próxima. E então vejo o Poeta renascido em seu poema mais célebre:

 

No topo dessa árvore sem fruto

Vejo-te, urubu, pássaro horrendo

Na aberração da tua dor trazendo

A vestimenta do teu próprio luto.

 

Vendo-te triste, retraído, escuto

Tua voz rancorosa maldizendo

O dia, a hora, o trágico minuto

Da natureza, a raça concebendo.

 

Ambos somos iguais, ave agoirenta

O veneno que encheu a tua taça

É o mesmo que interiormente me sustenta.

 

Como tu, revoltado, e até profano

Maldigo dez mil vezes minha raça

E esse destino que me fez humano.[62]

 

Olhando para trás, vejo que São Luís sempre esteve presente na vida dos escritores ligados à Cadeira nº 12 da AML, ou como berço, ou como túmulo. Foi o alfa de Joaquim Serra, Clodomir Cardoso e Odylo Costa, filho, assim como o ômega de Evandro Sarney. E a Cidade Maravilhosa, em epíteto dado, segundo alguns, por um caxiense, Coelho Neto, foi o ômega dos três primeiros. Há mais pontos em comum entre essas quatro ilustres figuras: todos foram jornalistas, políticos e, em menor ou maior grau, com maior ou menor sucesso, poetas. Todos foram paladinos da Justiça, como Joaquim Serra em sua luta pela abolição da escravatura e Odylo Costa, filho em sua cruzada em defesa dos direitos dos menores infratores.

Alphonsus de Guimaraens, ao tomar posse na Cadeira nº 15 da ABL, chamou-a de “Cadeira da Poesia”, por ter como patrono Gonçalves Dias e como fundador Olavo Bilac, dentre outros nomes de sua linha sucessória. Paulo Coelho, ao assumir a Cadeira nº 21, denominou-a “Cadeira da Utopia”, por considerar ser este o elemento presente em todos os intelectuais de sua história. Fiquei então a pensar qual epíteto daria à Cadeira nº 12 da Casa de Antônio Lobo. Ocorreram-me várias opções, tal a riqueza da biografia de seus nomes: “Cadeira dos Grandes Tribunos”, “Cadeira dos Poetas Esquecidos”, “Cadeira do Bem Falar e do Bem Escrever”, mas todas me pareceram insatisfatórias, incapazes de abraçar todas as facetas dos intelectuais que honraram a Cadeira nº 12. Então me decidi por “Cadeira do Sonho”, porque os quatro escritores de que falei nesta oração foram todos idealistas, sonharam com um mundo melhor, pelo qual lutaram com a força da palavra, ora armada em prosa, ora vestida de poesia, ora com a pena do jornalista ou o discurso do político, ora com a arte do poeta, contista ou cronista ou a proficiência do ensaísta.

Tenho eu algo em comum, por mínimo que seja, com estes homens extraordinários? Deixo a questão para mentes mais esclarecidas. Contentar-me-ei em apontar uma diferença, que, de tão singela, é por si só evidente. Sou mulher. E a diferença é tão mais evidente porque sou apenas a nona mulher a ingressar nesta Augusta Casa, em quase 109 anos decorridos desde a sua fundação. Não há patronas na AML. São duas fundadoras de cadeiras: Laura Rosa (1943) e Mariana Luz (1949). Sucederam outros acadêmicos Conceição Neves Aboud (1955), Dagmar Destêrro (1974) e Lucy Teixeira (1979), estas já desaparecidas; Ceres Costa Fernandes (2002), Laura Amélia Damous (2003) e Sonia Almeida (2006), estas as ilustres e ilustradas representantes atuais do sexo feminino na AML. Seja no magistério ou em cargo administrativo, seja no cultivo do ensaio ou da poesia, elas já provaram e continuam provando, cada uma em sua especialidade, o valor das intelectuais, escritoras e poetas maranhenses. Mais do que isso, são faróis da intelectualidade não apenas para as mulheres, mas também para os homens. Minhas homenagens às confreiras da AML e a todas as escritoras maranhenses, que ainda pedem passagem para mostrar o seu valor, como na marcha carnavalesca de Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a Chiquinha Gonzaga: “Ó abre alas/Que eu quero passar/Ó abre alas/Que eu quero passar/Eu sou da Lira/Não posso negar/Eu sou da Lira/Não posso negar […]”.

Senhoras e Senhores Acadêmicos, esta é uma noite de celebração. The feast of reason and the flow of soul, isto é, “a festa da razão e o fluir da alma”, nas palavras do poeta britânico Alexander Pope. “Bebo, a goles, a glória deste dia,/goles medidos de bebida rara”,[63] tomando de empréstimo versos do poeta Odylo Costa, filho. E fostes vós quem me oferecestes esta bebida inebriante, quem me proporcionastes a suprema honra de hoje transpor os umbrais desta Augusta Casa e realizar um sonho que não era só meu e que, na verdade, não acabou, só está começando. É que integrar uma Casa cuja missão é a valorização e promoção da cultura e das letras maranhenses é uma grande responsabilidade. Prometo-vos sempre me esforçar para estar à altura dessa honra.

Por derradeiro, sinto-me na obrigação, para que não se configure propaganda enganosa, de vos dizer quem sou. Busco auxílio em Fernando Pessoa e vos declaro: “Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer ser nada./À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”[64] Mas se julgardes haver alguma substância nesse nada, digo-vos que eu “sou eu/mais pedaços dos outros”,[65] uns maiores, outros menores, uns do tamanho de uma vida, outros do tamanho de um momento, uns legados de indivíduos, outros pertencentes a instituições. Trago comigo pedaços de meus pais, e quão imensos são, de toda a minha família, de meus amigos, das escolas e universidades onde estudei ou lecionei, das academias e instituições a que pertenço, particularmente o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM), a Academia Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), a Academia Ludovicense de Letras (ALL), a Academia Caxiense de Letras (ACL), a Associação dos Amigos da Universidade Federal do Maranhão (AAUFMA), a Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica (SBPJ), o PEN Clube do Brasil… Sabei ainda que visto a armadura da Justiça e empunho a espada da lei, como membro do Ministério Público, instituição altaneira patroneada por Celso Magalhães, imortal desta Casa, a qual tanto tem contribuído para a construção de um Maranhão mais cidadão, a despeito das ações dos Barões de Grajaú hodiernos.

Avizinha-se a hora da nova partida do trem. É hora, pois, dos agradecimentos.

A Deus, Senhor de todos os trilhos e comboios da vida.

Aos meus pais, Wilson Pires Ferro, desaparecido em 2014, e Eunice Graça Marcilia Almeida Ferro, hoje completando 82 anos, meus anjos protetores, condutores de todas as horas, que jamais me deixaram perder a direção ou descarrilar e que me deram asas para voar e tentar repetir o voo de Dédalo: nem tão perto do mar, que me faça negligenciar a grandeza e as alturas do sonho; nem tão perto do Sol, que me faça olvidar as águas frias da realidade e a pequenez da condição humana. A vós, todo o meu amor, todo o meu carinho, todo o meu respeito.

À Academia Maranhense de Letras, na pessoa de seu Presidente Benedito Buzar, e aos amigos acadêmicos que, com afeto e tenacidade, promoveram a minha candidatura ou a ela aderiram ativamente em seus momentos embrionários.

A todos os mais de 30 acadêmicos desta Augusta Casa que sufragaram o meu nome em setembro do ano pretérito.

À Acadêmica Ceres Costa Fernandes, estimada professora, por haver carinhosamente aceito o convite para me receber na AML nesta data.

Ao Acadêmico José Maria Cabral Marques, por haver acalentado o meu sonho.

À D. Maria Thereza de Azevêdo Neves, grande incentivadora, muito mais que uma amiga.

Aos meus saudosos avós, senhores dos caminhos dos Ferros e dos Almeidas.

À família, dos ramos Ferro, Almeida e Meireles, que são o meu porto seguro, e aos amigos, que trazem alegria à minha viagem pelos trilhos da vida.

Aos meus professores do Colégio Santa Teresa, do Colégio Itamarati, dos cursos de Letras e Direito da Universidade Federal do Maranhão – a exemplo das acadêmicas Ceres Costa Fernandes e Sonia Almeida e dos acadêmicos Agostinho Marques, José Carlos Sousa Silva e José Maria Ramos Martins, este já ausente do trem, respectivamente –, do Mestrado e Doutorado da Universidade Federal de Minas Gerais e da University of Oregon, porque, se há uma profissão que leva o trem a avançar pela terra, pela serra e pelo mar, é esta a do professor.

Ao Ministério Público do Maranhão, minha locomotiva no exercício do Direito e na busca pela Justiça.

A todos que se fizeram presentes nesta solenidade.

O trem apita na estação. Não devo deixar os passageiros esperando. Tomo a mão de meu pai, embarco com ele no trem e deixo falar em mim o Ferreira Gullar de todos nós:

 

[…]

 

o que pra ele era rotina

para mim era aventura

 

quando chegamos à gare

o trem realmente estava

 

ali parado esperando

muito comprido e chiava

 

entramos no carro os dois

eu entre alegre e assustado

 

meu pai (que já não existe)

me fez sentar ao seu lado

 

talvez mais feliz que eu

por me levar na viagem

 

meu pai (que já não existe)

sorria, os olhos brilhando

 

VAARÃ VAARÃ VAARÃ VAARÃ

 

tchuc tchuc tchuc

tchuc tchuc tchuc

 

[…][66]

 

Café com pão, bolacha não, café com pão, bolacha não, café com pão, bolacha não, café com pão, bolacha não, café com pão, bolacha não, café com pão, bolacha não, café com pão, bolacha não…[67]

 

Café com pão, bolacha não.

 

Muito obrigada.

[1] SERRA, Astolfo. A vida simples de um professor de aldeia. Rio de Janeiro, 1944. p. 111-112.

[2] Ver CHAGAS, José. Os azulejos do tempo – patrimônio da humana idade. São Luís: Sotaque Norte, 1999. p. 181. A poesia referida é o soneto “O sonho como medida”.

[3] Ver TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor: memória e ficção. Posfácio de Noemi Jaffe. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 37-38. O texto em questão intitula-se “O sonho”. Foi Carlos Drummond de Andrade quem chamou os textos curtos de A disciplina do amor de “miniaturas”.

[4] SARNEY, Evandro. Aquele verde tão verde: poemas e crônicas. São Luís, 1981. Estes versos são do poema “Cantiga do começo e do fim” ou “1º poema no pórtico do meu cinquentenário”.

[5] Ainda na primeira infância, morreram Antonieta, Raimundo Nonato, Lauro e Aquiles. Sobreviveram Wilson, José Ribamar, Waldemar, Mário, Salvador e Maria da Graça.

[6] NASCIMENTO, Jorge. Popularidades maranhenses. In: REIS, José Ribamar Souza dos; CORDEIRO FILHO (Coords.). Perfil do Maranhão 79. São Luís, 1980. p. 162.

[7] Além de Eunice, Marcos Vinicius e Ducilia tiveram mais quatro filhos: Maria de Nazareth, Therezinha de Jesus, Raimundo e Marcos Vinicius Filho.

[8] COSTA FILHO, Odylo. Boca da noite: poesia. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979. p. 36; e COSTA FILHO, Odylo. Poesia completa. Organização de Virgílio Costa. Rio de Janeiro: Aeroplano: Fundação Biblioteca Nacional, 2010. p. 75-76. Estes versos abrem o poema “Ihéu”.

[9] O poeta aludido é Fernando Pessoa.

[10] Ver GULLAR, Ferreira. Toda poesia (1950-1999). 18. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. 248-249. Referência a versos do famoso “Poema sujo”.

[11] MORAES, Vinicius de. Livro de sonetos. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 23.

[12] GULLAR. Toda poesia (1950-1999), p. 245-246. O poeta Ferreira Gullar, no seu “Poema sujo” (1975), deu letra à Tocata, mais conhecida como “O Trenzinho do Caipira”, composição de Heitor Villa-Lobos integrante da peça Bachianas Brasileiras nº 2, cuja caraterística principal é a imitação do movimento de uma locomotiva com os instrumentos da orquestra.

[13]Ibidem, p. 246.

[14] SERRA, Joaquim. Textos escolhidos. Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro. Disponível em: <www.academia.org.br/academicos/joaquim-serra/textos-escolhidos>. Acesso em: 01 out. 2016. Versos extraídos do poema “A missa do galo”.

[15]Ibidem.

[16] DEL PRIORE, Mary. Beije-me onde o sol não alcança: uma história de amor no século XIX. São Paulo: Planeta do Brasil, 2015. p. 260.

[17] Ver ibidem, p. 260.

[18] Frase extraída de artigo de Machado de Assis, originalmente publicado na Gazeta de notícias, Rio de Janeiro, 05 nov. 1888.

[19] Ver as orelhas, de autoria de Benedito Buzar, do livro de IGNOTUS [Joaquim Serra]. Sessenta anos de jornalismo: a imprensa no Maranhão. 3. ed. São Paulo: Siciliano, 2001.

[20] Trechos extraídos do referido artigo machadiano em homenagem a Joaquim Serra.

[21] MONTELLO, Josué. A coroa de areia: romance. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 368.

[22] SARNEY, José. Clodomir Cardoso: uma referência moral. In: CARDOSO, Clodomir. Senador – Clodomir Cardoso. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 1996. p. 7-8.

[23] COSTA FILHO, Odylo. A faca e o rio. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1965. p. 123.

[24]Ibidem, p. 80.

[25] SILVA, Dagmar Destêrro. Parábola do sonho quase vida: poesia. São Luís: SIOGE, 1973. p. 43. Versos extraídos do poema “Mãos vazias”.

[26] COSTA FILHO, Odylo. Cantiga incompleta. Prefácio de Heráclio Salles. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1971. p. 93; e COSTA FILHO. Poesia completa, p. 517. O poema foi originalmente publicado na obra Tempo de Lisboa e outros poemas (1966).

[27] COSTA FILHO. Boca da noite, p. 15; e COSTA FILHO. Poesia completa, p. 57.

[28] Palavras de Manuel Bandeira reproduzidas no livro Cantiga incompleta (1971), de Odylo Costa, filho (p. 149), extraídas da apresentação da obra Tempo de Lisboa e outros poemas (1966).

[29] Ver ODYLO Costa, filho. Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.academia.org.br/academicos/odylo-costa-filho/biografia>. Acesso em: 1 out. 2016.

[30] Ver a apresentação de Rachel de Queiroz nas orelhas do livro A faca e o rio (1965), de Odylo Costa, filho.

[31] Ver a segunda orelha do livro Boca da noite (1979), de Odylo Costa, filho.

[32] Ver a apresentação de Rachel de Queiroz nas orelhas do livro A faca e o rio (1965), de Odylo Costa, filho.

[33] COSTA FILHO. Boca da noite, p. 45; e COSTA FILHO. Poesia completa, p. 83.

[34] COSTA FILHO. Boca da noite, p. 33; e COSTA FILHO. Poesia completa, p. 73.

[35] Ver a primeira orelha do livro Boca da noite (1979), de Odylo Costa, filho.

[36] MACHADO, Nauro. Nauro Machado. Seleção [de] Hildeberto Barbosa Filho. São Paulo: Global, 2005. p. 27. (Coleção Melhores poemas). Versos extraídos do poema “O parto”.

[37] Ver CORRÊA, Dinacy. Odylíada: uma lição de amor. São Luís: Eduema, 2015.

[38] SARNEY. Aquele verde tão verde. Estes versos são do poema “Cantiga do começo e do fim” ou “1º poema no pórtico do meu cinquentenário”.

[39] Versos do soneto “Ode a São Bento”, reproduzido em: MELO, Álvaro Urubatan. Apontamentos para a literatura de São Bento. São Luís: Academia Sambentuense, 2012. p. 87.

[40] SARNEY. Aquele verde tão verde. Ver o referido poema “Cantiga do começo e do fim” ou “1º poema no pórtico do meu cinquentenário”.

[41]Ibidem. Palavras extraídas da dedicatória da obra.

[42]Ibidem. Versos extraídos do poema “Cantiga do começo e do fim” ou “1º poema no pórtico do meu cinquentenário”.

[43]Ibidem. Versos extraídos do poema “Cantiga do começo e do fim” ou “1º poema no pórtico do meu cinquentenário”.

[44] O nome completo da esposa de Evandro Sarney era Maria Aglaé Barbosa de Araujo Costa.

[45] Evandro Sarney teve os seguintes filhos, do primogênito à caçula: Roberto Sarney de Araujo Costa, Conceição de Maria de Araujo Costa (Conci), Tânia Maria de Araujo Costa, Evandro Sarney de Araujo Costa, Sarney de Araujo Costa Neto e Ana Luzia de Araujo Costa.

[46] SARNEY, José. Meu irmão Evandro. Disponível em: <www.josesarney.org/blog/meu-irmao-evandro/>. Acesso em: 23 out. 2016.

[47] Ver ANDRADE, Carlos Drummond. No meio do caminho. Drummond: 100 anos. Carlos Machado, 2002. Disponível em: <http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond04.htm>. Acesso em: 2 abr. 2017.

[48] Ver POETA Evandro Sarney Costa morre aos 84 anos de idade. O Estado do Maranhão, São Luís, 11 abr. 2016. Geral, p. 12.

[49] SARNEY, Evandro. Cantigas de quebra-mar: poesia e prosa. São Luís: SIOGE, 1979. p. 21.

[50] SARNEY. Aquele verde tão verde.

[51] Ver o prefácio de Carlos Cunha, intitulado “Evandro Sarney, o cantor da Ilha”, em SARNEY. Cantigas de quebra-mar, p. 13.

[52] SARNEY. Cantigas de quebra-mar, p. 21. Palavras extraídas do poema “São Luís em tempo de louvação”.

[53]Ibidem, p. 29. Palavras extraídas de “Um poema molhado de mar”.

[54]Ibidem, p. 21. Palavras extraídas do poema “São Luís em tempo de louvação”.

[55]Ibidem, p. 22. Palavras extraídas do poema “São Luís em tempo de louvação”.

[56]Ibidem, p. 21. Palavras extraídas do poema “São Luís em tempo de louvação”.

[57]Ibidem, p. 44. Palavras extraídas do poema “O diálogo das rosas”.

[58] Ver SARNEY. Aquele verde tão verde. Os poemas são: “Cantiga do começo e do fim” ou “1º poema no pórtico do meu cinquentenário”, “Cantiga em auto-retrato” ou “2º poema no pórtico do meu cinquentenário”, “3º poema no pórtico do meu cinquentenário”, “4º poema no pórtico do meu cinquentenário” e “Último poema no pórtico do meu cinquentenário”.

[59] SARNEY, Evandro; MADEIRA, Carlos. Noite maranhense. Posse de Evandro Sarney na Academia Maranhense de Letras. p. 31.

[60]Ibidem, p. 32-33.

[61] Ver o poema The Raven, de Edgar Allan Poe. Poetry Foundation. Disponível em: <https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poems/detail/48860>. Acesso em: 2 Apr. 2017.

[62] SARNEY. Cantigas de quebra-mar, p. 56. Trata-se do soneto “O urubu”.

[63] COSTA FILHO. Boca da noite, p. 22; e COSTA FILHO. Poesia completa, p. 63. Estes versos abrem o poema “A glorious day”.

[64] Ver o poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos. A magia da poesia. Disponível em: < http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/fernando-pessoa-poemas/>. Acesso em: 2 abr. 2017.

[65] FERRO, Ana Luiza Almeida. O náufrago e a linha do horizonte: poesias. São Paulo: Scortecci, 2012. p. 30. Versos extraídos do poema “Eu”.

[66] GULLAR. Toda poesia (1950-1999), p. 247. Versos extraídos do “Poema sujo”.

[67] O parágrafo deve ser lido de modo a imitar a partida de um trem, em ritmo cada vez mais rápido e com entonação cada vez mais alta, até atingir um ápice.

 

DISCURSO DE RECEPÇÃO

 

 

                       HORIZONTE

 

                                           (Fernando Pessoa – Mar Português)

 

        Ó MAR anterior a nós, teus medos

       Tinham coral e praias e arvoredos

       Desvendadas noites e  a cerração,                                                          

       As tormentas passadas e o mistério,

       Abria em flor o Longe, e o Sul sidéreo

       Splendia sobre as naus da iniciação.

 

        Linha severa da longínqua costa –

       Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta

       Em árvores onde o Longe nada tinha;

       Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:

       E, ao desembarcar, há aves, flores,

       Onde era só, de longe a abstrata linha.

 

       O sonho é ver as formas invisíveis

       Da distância imprecisa, e, com sensíveis

       Movimentos de esprança e de vontade,

       Buscar na linha fria do horizonte

       A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –

       Os beijos merecidos da Verdade.

       

 

 

Senhor Presidente,

Caros Confrades,

Minhas Senhoras e meus Senhores,

 

Menina Ana Luiza, dona da minha admiração e do meu bem-querer, porque sois apaixonada por mares e conquistas e pelos instantes matinais da fundação da nossa São Luís, achei estes versos parecidos convosco.

Não escondo que estou, sobremodo, agradada em ser distinguida, por vossa escolha, para receber-vos nesta noite constelada de tantos amigos e talentos.

A Academia Maranhense de Letras vos recebe, hoje, em seu quadro, com grande orgulho e renovado júbilo, porque chegais a um lugar que vos pertence e vos aguardava, haja vista vossa consagradora votação, mercê do mérito de quem labora em incansável faina construtiva, objetivando a excelência, apurando-se no uso de suas ferramentas de trabalho, na criação de ideias, execução de pesquisas e na produção de escritos, em contínua busca da realização de um trabalho literário valoroso.

Emerge, no nosso universo acadêmico, mais uma vez, a presença do elemento feminino.  Apraz-me ter sido escolhida para receber uma mulher na Casa de Antônio Lobo, que se somará às outras três valorosas representantes do gênero feminino, a nona em ordem de entrada, em um quórum de quarenta membros, ao longo de 109 anos. E não vai nisso nenhuma recriminação a uma possível misoginia dos confrades, tão-somente a alegria de ver a representação feminina na literatura maranhense, tão alta em excelência e número, ganhar mais e mais  espaço neste convívio acadêmico.

 

Minhas Senhoras, Meus Senhores,

 

A confreira que recebemos, hoje, é Promotora de Justiça, professora da Universidade CEUMA (Centro de Ensino Universitário do Maranhão) e professora do Ministério Público do Maranhão, Graduada em Letras e Direito (Universidade Federal do Maranhão), Mestre e Doutora em Ciências Penais pela Universidade Federal de Minas Gerais, membro da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da qual já foi presidente, membro fundador da Academia Ludovicense de Letras, membro da Academia Caxiense de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão. Escritora, ensaísta, conferencista, historiadora e poeta, Ana Luiza ainda acrescenta à sua cultura poliédrica o gosto pelo estudo das línguas: lê, fala e escreve em inglês e francês; lê e fala em italiano e espanhol e cursou alemão. Tem 14 livros publicados, entre livros de matéria jurídica, história e poesia.

Como se ainda tempo lhe sobrasse, não descuida da prática de esportes. Participa de corridas amadoras, mas já foi campeã universitária e maranhense de tênis de mesa, cultivando o mens sana in corpore sano. Questionada pelo escritor e confrade, José Neres Costa, em entrevista de fevereiro de 2016, concedida ao ilhavirtual.com, informativo sobre Literatura Maranhense, editado por ele, de como enveredar por três caminhos, poesia, direito e historiografia, que nem sempre são confluentes e que exigem vocações e esforços diferenciados, tendo logrado sucesso nos três, e qual seria dessas áreas a que se sentiria mais realizada, ela respondeu:

     É difícil dizer, porque essestrês caminhos me realizam de diferentes maneiras. Com o Direito e a Historiografia, privilegio o meu olhar científico; com a Poesia, o meu olhar estético. Para mim, são vasos comunicantes, não campos estanques. A Justiça é um denominador comum. Uso poesia (ainda que de forma contida, “domada”) nos meus livros de Direito e História. E a História, o Direito em geral e o Direito Penal em particular são fontes ricas e inesgotáveis de material para os meus poemas. Os meus livros jurídicos, que são os mais numerosos (sete ao todo), representam as profissões que abracei: Promotora de Justiça e professora universitária. Os meus livros de poesia (quatro) refletem a minha paixão atávica pela literatura e pela poesia. São a janela principal de minha subjetividade para o mundo. […] Finalmente, a Historiografia significa para mim o novo, o desafio mais patente, o território nunca dantes desbravado, porque não tenho formação em História, sou graduada em Letras e Direito, embora apaixonada, desde criança, pela História em si e pela sua relação com a literatura […] assim sinto-me mais realizada como profissional no Direito, mais realizada como pesquisadora na Historiografia e mais realizada como cidadã do mundo na poesia.

     

Estimada Ana Luiza, vós o dissestes: a vossa obra é trina. Monta-se no tripé Direito, Historiografia e Poesia. Com a prevalência das produções jurídicas, e nem poderia ser diferente: dentre as quatorze obras editadas, a metade é de conteúdo jurídico, a outra metade distribui-se entre a Historiografia e a Poesia.

A prevalência do Direito em vossa bibliografia e a vossa entrada como membro desta casa de literatura são igualmente bem-vindas e não nos causam alguma estranheza; a Academia Maranhense de Letras, criada nos moldes da Academia Francesa e da Academia Brasileira de Letras, segue uma tradição que delas nos vem: nossos quadros, nunca foram totalmente preenchidos por escritores dedicados exclusivamente a produzir  literatura, no sentido restrito de literatura/arte.

Esta agremiação, como as demais citadas, é composta, sim, de genuínos escritores, com formação essencial literária ou não: teóricos da literatura, poetas, linguistas, críticos, ficcionistas, juristas, músicos, gramáticos, médicos, engenheiros, historiadores, jornalistas, economistas, publicitários e muito mais. A formação original de cada um favorece a diversidade estilística das obras e só enriquece a nossa produção acadêmica.

Permanecendo nas ondas de inspiração náutica, que embalam esta oração, direi que naus oriundas de mares diversos, com os mais variados calados, encontram seu acolhimento no porto deste sodalício. Sobre a essência destes mares-berços, informam-nos as palavras de Claude D’Abbeville, na História da missão dos padres capuchinhos à Ilha do Maranhão:

 

          Mas porque se denominam mares, no plural, e não mar, no singular? […] por ser sabido haver muitos mares que chamamos de diferentes nomes, tendo diversos nomes, muitos tendo diversas propriedades e virtudes, diversos sabores e cores, ao menos em aparência. Mas essa diversidade provém tão somente dos tempos ou dos lugares e das profundezas de onde ela é milagrosamente retirada, não deixa de ser una, em si, todas as águas do mar quanto às dos rios e das fontes, sendo da mesma natureza, todas receberam a fecundidade de engendrar e nutrir, por esse espírito divino que lhes foi sobreposto, como está dito no Gênesis – Spiritus Domini ferebatur super aquas. E o Espírito de Deus pairava sobre as águas.

.

Parafraseando D’Abbeville, narrador de viagens, poeta neste texto, nós, escritores, também, recebemos o dom da fecundidade de engendrar e nutrir. Nossas águas são plurais e nelas cabem gêneros tais como a epistolografia, a oratória, a prosa jornalística, a historiografia, os ensaios literários ou não, ao lado dos gêneros literários considerados puros. O tratamento dado à palavra, não importa o assunto, pode transmudar o texto de denotativo em conotativo, de simples informativo, em arte da palavra. Eis a fascinante questão: identificar o texto literário. Os seus limites. Direi que o texto que exprime o belo/arte, aquele que provoca a emoção estética, seria o diferencial.

Heródoto e Sócrates, historiador e filósofo, só para exemplificar com estes dois grandes nomes, constam de todos os manuais de História da Literatura, alguém jamais pôs dúvidas nesta inserção, porque ambos escreveram peças de extrema beleza literária inscritas, também, na Historiografia e na Filosofia.

 

 

 

 

Senhoras e Senhores,

 

Ana Luiza Almeida Ferro nasceu em São Luís, cresceu em meio ao afeto de uma família educógena, que se desdobrou em oferecer à menina um ambiente familiar propício ao desenvolvimento dos talentos revelados desde a mais tenra infância. Leitora voraz, ela encontrou na biblioteca do pai Wilson Ferro, professor de História da Universidade Federal do Maranhão, os livros chamados de capa e espada, que foram a sua primeira paixão e, a seguir, os clássicos da literatura francesa e inglesa, que lhe inspiraram também o aprendizado destas línguas, levando-a a obter os certificados mais altos concedidos no Brasil a esses estudos. Dedicou-se também, já na idade adulta, ao estudo de alemão, italiano e espanhol.

Estudou o antigo primário e parte do secundário no Colégio Santa Teresa. Prenunciando a intelectual futura, destacou-se em todas as matérias e abiscoitou inúmeros prêmios; foi no colégio das Irmãs Doroteias, que se iniciou no tênis de mesa; depois vice-campeã do colégio, o que a levaria mais tarde à conquista do título estadual e de campeã universitária, na Universidade Federal do Maranhão e na Universidade do Oregon, em Eugene, estado do Oregon, Estados Unidos.

Terminou seus estudos secundários no Colégio Itamarati, Instituto Guanabara, no Rio de Janeiro, em 1983, durante a breve estada da família naquela cidade.

Volta a São Luís e o amor aos livros e à literatura a encaminha para o vestibular do Curso de Letras da Universidade Federal do Maranhão. Licenciada em 1988, ainda nesse ano, seguindo o chamado de outra vocação, ingressa no Curso de Direito da mesma instituição de ensino superior.

Diz a própria Ana Luiza que, ainda no Colégio Santa Teresa, se lhe revelou a vocação para o Ministério Público, quando foi escolhida para ser a voz da acusação, em tribunal de júri escolar, no qual foi julgada – e condenada por adultério, registre-se – a personagem Capitu, do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Seguindo ainda o chamado da literatura, fez o curso La Enseñanza de la Traducción, promovido pela San Diego State University, da Califórnia, EUA. Já os estudos de pré-mestrado, na área de Inglês, com foco em Literatura, sobretudo a inglesa, na condição de bolsista do Rotary, fê-los na Universidade do Oregon. Lá a paixão por Shakespeare levou-a também a especializar-se em English Drama (1991), ocasião em que trancou a matrícula na UFMA, no Curso de Direito, no qual viria a graduar-se em 1993.

Constata-se que, mesmo cursando Direito, não abandonou os estudos literários, os mesmos que direcionaram sua vocação para o Ministério Público. Chamo a atenção para a imbricação dos fios que tecem o texto/contexto das duas áreas de conhecimento, Letras e Direito na vida de Ana Luiza.

Não é sem razão que a Faculdade de Direito do Recife, uma das mais antigas do Brasil, criada em 1827, foi o viveiro de grandes nomes da história da literatura brasileira, e produziu ex-alunos da estatura de Graça Aranha, Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna, José Lins do Rego, Sílvio Romero e muitos mais.

Ana Luiza cursou Mestrado e Doutorado em Ciências Penais, em Belo Horizonte, na tradicional Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG.

Em 1994, foi aprovada no concurso público para ingresso na Carreira Inicial do Ministério Público do Maranhão.

Foi aprovada, também, no concurso para Professora Auxiliar, na área de Língua e Literatura Inglesa, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Maranhão, mas não chegou a exercer o magistério.

 

Atualmente, é Promotora de Justiça, titular da 14ª Promotoria de Justiça Criminal da Comarca de São Luís, de entrância final, para onde foi promovida em 2009, além de Professora de Direito da Universidade CEUMA e Professora da Escola Superior do Ministério Público do Maranhão.

No plano internacional, é membro do Latin American Quality Institute, organização sediada no Panamá, a qual lhe concedeu o troféu Latin American Quality Institute 2016, o título de Master in Total Quality Administration e a certificação de Global Quality, no México, por sua atuação como escritora, bem como da Accademia Internazionale Il Convivio, da Itália.

 

 

Professora Ana Luiza,

 

Declarastes que os vossos livros jurídicos são os mais numerosos (sete ao todo) e representam as profissões que abraçastes: Professora Universitária e Promotora de Justiça. Foram eles que projetaram vosso nome dentro e fora do Brasil. Em especial, a obra Crime organizado e organizações criminosas mundiais (2009, 704p.), estudo sistemático das organizações criminosas, estrangeiras e brasileiras, das teorias e concepções criminológicas mais pertinentes à compreensão do fenômeno, como a teoria da associação diferencial e a noção de crime do colarinho branco, do mito da Máfia, do terrorismo em confronto com o crime organizado, etc… Este livro vos levou a palestras e entrevistas, até mesmo na TV, em circuito nacional, no renomado programa de Jô Soares.

Desta publicação derivaram, ainda, dois artigos: “Reflexões sobre o crime organizado e as organizações criminosas” e “Os modelos estruturais do crime organizado e das organizações criminosas”, incluídos no livro Direito Penal empresarial, crime organizado, extradição e terrorismo, vol. 6, da coleção Doutrinas Essenciais, 2011, uma republicação, em edição especial, dos melhores artigos doutrinários já publicados pela prestigiada Editora Revista dos Tribunais, ao longo de 100 anos.

 

Publicações na área jurídica:

 

 

O tribunal de Nuremberg: dos precedentes à confirmação de seus princípios. (2002).

 

– Escusas absolutórias no Direito Penal (2003), no Direito penal brasileiro e comparado.

 

Robert Merton e o funcionalismo (2004).

 

O crime de falso testemunho ou falsa perícia: atualizado conforme a Lei nº 10, de 28 de agosto de 2001 (2004), no Direito penal brasileiro e comparado.

 

Interpretação constitucional: a teoria procedimentalista de John Hart Ely (2008).

 

– Criminalidade organizada: comentários à Lei 12.850, de 02 de agosto de 2013. Em coautoria com Flávio Cardoso Pereira e Gustavo Reis Gazzola.

 

 

 

Senhoras e Senhores,

 

A autora possui, ainda, inúmeras conferências pronunciadas dentro e fora do Brasil, artigos e peças processuais publicados em revistas especializadas, tais como a Revista dos Tribunais, a De Jure, a Revista do IHGM e a da AMPEM.

Omitimos aqui, a identificação das peças, para não cansar tão augusta plateia, devido à extensão de seu currículo.

O valor de sua produção jurídica é reconhecido e não foi avaliado por mim, por se tratar de assunto que foge ao meu conhecimento. Para avaliá-lo, louvei-me nas competentes críticas exaradas e nos constantes convites para que a autora ministre conferências e palestras, no Brasil e no estrangeiro, e no fato de seus artigos serem selecionados para publicação em periódicos de reconhecida importância nacional e internacional.

 

 

 

Senhoras e Senhores,

 

O lançamento, em 2008, do primeiro livro solo de poemas de Ana Luiza, denominado Quando: poesias, surpreendeu alguns que a criam afeita unicamente ao mundo lógico e árido dos escritos jurídicos, dos quais, à época, já  consolidada como autora da área, havia publicado cinco festejadas obras.

Desconheciam que a veia poético-literária de Ana Luiza veio a público bem antes, em 1982, com um prêmio – predecessor dos muitos que viria a receber por sua produção literária –, o 1º lugar no Concurso Epistolar Internacional para jovens, promovido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, Regional do Maranhão.

A sensibilidade, alimentada na infância, na companhia constante dos livros de aventura e poesia que a menina devorava, identifica os autores da sua admiração e seus primeiros mentores literários: Shakespeare, Jane Austen, Alexandre Dumas, Júlio Verne, Machado de Assis, José de Alencar e Goncalves Dias. A obra Orgulho e preconceito, de Jane Austen, analisada no original, inclusive, foi tema de sua monografia de conclusão do Curso de Letras.

Em Ana Luiza, o sentimento de pertencimento ao mundo literário precede o seu ingresso no mundo das leis. O primeiro curso de eleição da autora foi o Curso de Letras Deste curso, dou o testemunho de professora, lugar de onde pude acompanhar a trajetória da aluna brilhante. Motivada pelas letras, chegou a cursar disciplinas no nível de pós-graduação, com foco em literatura, principalmente a inglesa: o curso La Ensenhañza de la Traducción, da Universidade de San Diego State, Califórnia, realizado no âmbito da UFMA, e as disciplinas English Drama e Advanced Shakespeare na Universidade do Oregon, em Eugene, Estado do Oregon, Estados Unidos, em 1991, são alguns deles. O lançamento de seus livros de poesia coroa a numerosa publicação de artigos em revistas e a participação em concursos na área, obtendo prêmios e publicação das obras.

No livro Quando: poesias (2008), Ana Luiza não se prende a um único modelo de forma ou escola: ela nos apresenta sonetos, poemas rimados, versos brancos, experimentos com a linguagem – em alguns poemas beirando o concretismo, noutros flertando com as aliterações de inspiração simbolista -, buscando, ainda, a sua identidade poética, mas sempre com o domínio apropriado da linguagem.

Se o lado jurista se faz presente na sede de saber manifesta, no manejo das hipóteses e no cuidado com o sentido lógico das coisas, não podemos dizer que o pensamento se sobrepõe ao sentimento. Aqui busco a palavra de Fernando Pessoa, quando diz, “o que em mim sente, está pensando.” A capacidade criadora, somando-se à interiorização da angústia existencial, cria sentimentos profundos expressos em palavras fortes, como acontece no poema “Quero”. O sentimento do mundo e a interação com o Outro estão presentes em vários poemas: citamos “Pixote”, de viva inquietação social.

Este livro lhe proporcionou a primeira premiação internacional na área da poesia, o segundo lugar do prêmio “Poesia Prosa ed Arti Figurative, categoria “Libro edito in portoghese”, promovido pela Accademia  Internazionale Il Convivio, da Itália, em 2014. Escolhido por uma banca mista de escritores italianos e portugueses.

Em O náufrago e a linha do horizonte: poesias (2012), a autora mantém a linguagem culta e intensifica a angústia existencial do seu primeiro livro solo. O tema marítimo, que subjaz, emerge do seu inconsciente nos versos que marcam a poeta, pari passu, com a jurista e a intelectual.

O mar, que engolfa todos os poemas, poderia constituir-se no fio de Ariadne ou na rosa dos ventos que aponta o caminho da libertação a ser achado. Tentativa inútil, esse mar não é o lugar da aprendizagem, de engendrar e nutrir, mas o repositório da angústia, onde os sonhos submergem, ou se congelam.  Do seu labirinto não há saídas.

 

O soneto ONáufrago é expressivo dessa negação:

 

À espera do chamado, encharco o meu pensamento

 do que emerge de dentro, do que submerge de fora

 dos ventos que colho, das entranhas que alimento

 borbulham ideias no caos oceano do eu em mora.

 

No último terceto, do mesmo soneto […] “a chuva cai e os sonhos enrijecem no sangue”, mas, ainda assim, a poeta tenta subir aos píncaros olímpicos do transcender: “a carruagem de Apolo procura os domínios de Pã”, para, em seguida, renunciar ao sonho, frente à crua realidade: “e eu me debato embalde, e mergulho no mangue”.

 

 

Em fragmento de outro poema, a identificação negativa chega ao ápice e a poeta não divisa mais a linha do horizonte, abre-se o abismo para sepultar o sonho:

 

Sou o beco escuro em noite sem luar

Sou o revólver empunhado pronto a disparar

       Sou a voz sufocada que não consegue falar

Sou o barco condenado que afunda em alto-mar

 

Neste espaço, entre o naufrágio e a linha do horizonte, que se faz mais longínquo e inviável, a poeta braceja, luta e soçobra em alto mar, ou por vezes, em falso horizonte de lama. O mar, metaforicamente, se configura como o espaço de sua luta. A luta com as palavras, que no dizer de Carlos Drummond de Andrade: “É a luta mais vã”.

Como agudamente observam, na apresentação deste livro, as confreiras e poetas Laura Amélia e Sônia Almeida: “[…] o náufrago está para o horizonte, assim como o poeta, para a poesia. O que acontece no percurso justifica a ilusão”.

 

Escritora Ana Luiza,

 

Chegais como estudiosa e pesquisadora de História, em momento muito oportuno. O recebimento em nossa Academia de mais um representante da pesquisa historiográfica nos é muito bem-vindo. Perdemos, ao longo dos últimos anos, alguns dos nossos mais valorosos trabalhadores da messe da historiografia maranhense. Eméritos e saudosos pesquisadores, que interpretaram, reconstituíram e editaram numerosas obras da História do nosso estado: Mário Meireles, Antônio Carlos de Lima e por último o polígrafo Jomar Moraes, humanista, historiador e editor, por excelência, que partiu há menos de um ano. Todos deixaram lacunas difíceis de serem preenchidas.

Dissestes que a Historiografia seria para vós o desafio mais patente, representando o novo, o inexplorado, “o território nunca desbravado”, porque não tendes a formação específica e formal de um curso universitário para referendá-la.

 

Senhoras e senhores,

 

Discordo de tal açodada afirmação. Entendo que, dos caminhos da escritora Ana Luiza, a Historiografia foi o último a ser trilhado. Mas, como dizem os ingleses, last but not the least, o último, mas não o menos importante. O gene da Historiografia está contido no seu DNA. Do lado materno, a ancestralidade vem de, nada menos que, o escritor romântico e épico, de Minas de Prata, O guarani, Iracema, o grande José de Alencar, por meio da bisavó da nossa confreira, Luisa Rodrigues de Alencar Almeida, nascida no Ceará, professora normalista, jornalista, pianista, violonista, poeta e poliglota, de quem ela herdou o segundo prenome, descendente do grande escritor e mulher avant la lettre, dentre as suas contemporâneas; do lado paterno, seu avô, João Meireles Ferro, era familiar do grande historiador maranhense, membro desta Casa, Mário Meireles, autor de dezenas de livros históricos, dentre eles os clássicos História do Maranhão, França Equinocial e O Brasil e a partição do mar-oceano, e mais  dezenas de publicações.

No lar da menina Ana Luiza, outra referência fundamental na sua formação, o pai, Wilson Ferro, professor de História da Universidade Federal do Maranhão. Lá, respirava-se História. A biblioteca, repleta não só de compêndios da matéria, como de livros de aventura, os chamados capa e espada, era o mundo onde a menina mergulhava nas águas da imaginação. Montava grandes batalhas com a sua coleção de soldadinhos de chumbo e vivia com eles guerras e conquistas de novos mundos.

Em 2011, licenciada em Letras e bacharel em Direito, cursos de sua livre e soberana escolha, já Promotora de Justiça concursada, envolve-se com pesquisas e trabalhos sobre a França Equinocial, direcionada por seu espírito investigativo e motivada pela polêmica da fundação de sua bela São Luís e pelos escritos de Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux.

Tendo ingressado no Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão em 2011, participa com outros autores da obra França Equinocial: uma história de 400 anos (2012). Os estudos historiográficos, brasa dormida no seu íntimo e na sua inquietude intelectual, reacendem-se, atingem seu ápice, e ela produz o premiadíssimo livro 1612: os papagaios amarelos na Ilha do Maranhão e a fundação de São Luís ( 2014).

Este alentado compêndio, 776 p., prefaciado pelos eméritos historiadores Lucien Provençal e Vasco Mariz, e pelo pesquisador Antonio Noberto, além de carinhosamente apresentado por seu pai, Wilson Ferro, tem como tema central a fundação da França Equinocial no Maranhão, em 1612, focalizando desde os seus antecedentes até os primeiros anos que se seguiram à expulsão dos franceses do norte do Brasil. Nesta obra, o mar reverte seu sinal para positivo, a linha do horizonte alarga-se e alegra-se, povoada de humana gente, animais, flores e frutos. É uma viagem exploratória e crítica que acompanha a Era dos Descobrimentos e a partição do Mar-Oceano, as primeiras tentativas portuguesas de povoamento e colonização do Brasil e do Maranhão, as investidas gaulesas pelo Novo Mundo, as guerras de religião que ensanguentaram a França na segunda metade do século XVI e cujos efeitos ainda assombrariam esse país e seus empreendimentos no século seguinte, a chegada de cerca de 500 franceses (os “papagaios amarelos”, como eram chamados pelos índios) à Ilha do Maranhão, o reconhecimento da terra, a fundação da cidade de São Luís, a decretação das leis institucionais da colônia, a convivência dos padres capuchinhos Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux com os tupinambás da Ilha e das circunvizinhanças, a Batalha de Guaxenduba, a subsequente trégua firmada entre os gauleses e os lusos, a rendição do Forte São Luís, o destino das principais figuras da disputa franco-ibérica pelo Maranhão.

Nesse estudo, é reafirmada pela autora, em primeiro plano, a atribuição da honra da fundação de São Luís aos gauleses.

Sobre esta obra diz Lucien Provençal, historiador, Membro da Academia Estadual de Var e da sociedade Francesa de História Marítima, autor de várias obras, entre as quais La Ravardière e a França Equinocial:

 

Lauteur a consulté avec une très louable persévérance tout ce que les historiens de toutes nacionalités ont écrit sur le sujet; ele expose et analyse avec talent tous les arguments développés; rien ne lui échappe; les citations nombreuses renforcent une étude sans faille. Je partage totalement les conclusions de l’ouvrage.

 

 Tradução do próprio autor:

 

       A autora consultou com uma perseverança muito louvável tudo o que os historiadores de diferentes nacionalidades escreveram sobre esse tema; ela expõe e analisa todos os argumentos desenvolvidos com grande talento, maestria e exaustividade; as numerosas citações reforçam um estudo sem falhas. Compartilho plenamente das conclusões da obra.

 

Tal juízo é complementado por Vasco Mariz, ex-embaixador, sócio emérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e autor de Os franceses no Maranhão:

 

      O presente livro da senhora Ana Luiza Ferro é um estudo sério, bem documentado e pormenorizado desse episódio histórico, escrito com elegância e fluência de estilo. Naturalmente, nem sempre estive de acordo com todos os seus pontos de vista, mas, na interpretação de fatos tão remotos de nossa história, é mais do que normal que existam pequenas divergências entre os autores que se ocuparam de assunto tão fascinante. Recomendo aos interessados e sobretudo aos pesquisadores a leitura e o estudo desta obra, que veio enriquecer a bibliografia da França Equinocial.

 

Este novo domínio intelectual proporcionou-lhe duas importantes premiações nacionais, com o livro 1612: os papagaios amarelos na Ilha do Maranhão e a fundação de São Luís: a menção honrosa do Prêmio Pedro Calmon, 2014, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e o Prêmio Literário Nacional PEN Clube do Brasil, 2015, categoria Ensaio. A obra tem duas edições simultâneas: a brasileira e a europeia, em Portugal, ambas de 2014.

Podemos encaixar aqui, na categoria ensaio biobibliográfico, o livro Mário Meireles, historiador e poeta. (2015).

 

Acadêmica Ana Luiza,

 

Esta noite é uma noite única para vós. Não se repetirá. Única, porque só tereis uma entrada aqui, nesta Casa, e esta é para sempre, guardai-a, pois, com muito carinho.

A cerimônia da sucessão, rediviva a cada nova posse, encerra o significado do espírito de imortalidade, inspirador desta academia, cultuado e renovado, a cada novo confrade que chega, guardando e reavivando a memória dos que se foram.

Realizando esta liturgia, recriamos o desiderato da imortalidade acadêmica, que não é a do indivíduo, e, sim, a da sua criação literária e a da própria Academia Maranhense de Letras, a caminho de seus 109 anos.

 

Confreira Ana Luiza,

 

A Academia Maranhense de Letras é composta por membros que aqui se encontram para cumprir um compromisso de constante e aplicado serviço à cultura do nosso estado. Não pretendemos a láurea de agremiação de eruditos instalados em uma redoma de incomunicabilidade; não aceitamos o ferrete de elitistas, nem de vestais de uma cultura passadista. Queremos, sim, ser, ao mesmo tempo, guardiões e promotores da cultura, aqui entendida como união de inteligência, razão e sensibilidade, fantasia e memória, valores eruditos e populares, vanguardismo e preservação. Cumprir este compromisso: eis a vossa missão.

Sede bem-vinda, entrai, a Casa é vossa.

 

Textos Escolhidos

ENSAIO (FRAGMENTOS)

 

NOTA INTRODUTÓRIA

 

São Luís, a Atenas dos trópicos, em sua condição insular, diversamente da Atenas dos gregos, sempre estimulou a corte do mitológico deus grego dos mares, Poseidon.

Foi pelos mares que, durante o século XVI, franceses e portugueses frequentaram a ilha que lhe serviria de berço. Foi pelos mares que os primeiros, chamados de “papagaios amarelos” pelos índios, chegaram à mesma ilha, no alvorejar do século XVII, com a missão de torná-la um pedaço da França e a sede de um idealizado império ultramarino na América do Sul. Foi pelos mares que os últimos, designados pelo nome indígena de peró, a conquistaram, depois a perderam para os holandeses e, por fim, a retomaram até o rompimento definitivo dos laços coloniais do Maranhão com Portugal já no século XIX.

Ao leitor que deseje embarcar nesta nau exploratória, esta é uma viagem ao passado primordial do Maranhão e do Brasil setentrional.

É uma viagem a uma época em que a partilha do mundo dependia da partição do Mar-Oceano e da intrepidez dos navegadores no desafio ao Mar Tenebroso e a seus monstros lendários. É uma viagem, a bordo da temida nau Régent, seguida por mais dois navios, à França Equinocial dos fidalgos Daniel de la Touche e François de Razilly, promissora tentativa de implantação de uma colônia no Maranhão, em nome da Coroa gaulesa, sob a regência de Maria de Médicis, durante a minoridade do Rei Luís XIII, menos de um século após o malogro da França Antártica, no Rio de Janeiro. É uma viagem de descobrimentos ao tempo das primeiras tentativas portuguesas de povoamento e colonização do Brasil e do Maranhão, da definição nebulosa da origem do nome “Maranhão”, das investidas dos gauleses pelo Novo Mundo, das guerras de religião que ensanguentaram a França na segunda metade do século XVI e cujos efeitos ainda assombrariam o país e seus empreendimentos no século seguinte, da chegada de cerca de 500 “papagaios amarelos” à Ilha do Maranhão, do reconhecimento da terra, da fundação da cidade de São Luís, da decretação das leis institucionais da colônia, da convivência dos padres capuchinhos Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux com os tupinambás da ilha e das circunvizinhanças, do regresso de François de Razilly à França, dos antecedentes, da deflagração e dos desdobramentos da Batalha de Guaxenduba, da subsequente trégua firmada entre os gauleses e os lusos, da rendição do Forte São Luís, dos fatos que determinaram o destino das principais figuras da disputa franco-ibérica pelo Maranhão e dos sucessivos governos de São Luís até a invasão holandesa.

Esta nau navega sob o signo de 1612, o Ano de Ouro dos “papagaios amarelos” na Ilha do Maranhão, no qual, a 8 de setembro, em uma memorável cerimônia solene de posse dos recém-vindos, uma grande cruz foi chantada pelos aliados tupinambás, chefiados por Japi-açu, e a fortificação da infante povoação foi batizada de Forte Saint Louis, em honra a Luís XIII, e a 1º de novembro, em cerimônia complementar, o estandarte real, contendo as armas de França, foi plantado por membros da mesma nação indígena e foram decretadas as Leis Fundamentais da França Equinocial. Mas esta embarcação vai muito aquém e muito além desse marco temporal simbólico, em busca das rotas que levaram à edificação da França Equinocial e dos caminhos que se abriram ou se fecharam após o seu fim. Por este oceano de águas ainda pouco exploradas pela historiografia, já navegaram em águas profundas alguns poucos ilustres timoneiros, a exemplo de Philippe Bonnichon, Mário Meireles, maior historiador maranhense, Vasco Mariz e Lucien Provençal e Andrea Daher.

À semelhança dos três navios que compuseram a notável expedição da França Equinocial, Régent, Charlotte e Sainte Anne, em honra, respectivamente, a Maria de Médicis, à esposa de um almirante e à Condessa de Soissons, esta nau é uma modesta homenagem a uma Dama já quatrocentona: São Luís.

São Luís é uma cidade peculiar: nascida francesa, tornou-se, afinal, uma das mais lusitanas das urbes brasileiras, de Cidade de La Ravardière a Cidade dos Azulejos ao passo dos séculos, Patrimônio Mundial da Humanidade.

Ostentando uma população superior a um milhão de habitantes, em contraste com os cerca de dez a doze mil tupinambás residentes na Ilha Grande quando do desembarque dos franceses em Jeviré em 1612, São Luís guarda incomparáveis tesouros em sua rica história. Seus sobradões, revestidos de azulejos, que já testemunharam épocas de fausto, ainda conservam a majestade de outrora, não obstante os imperdoáveis maus-tratos infligidos ao patrimônio histórico; seus mirantes, que já fitaram horizontes mais alvissareiros, ainda identificam no mar argênteo o regaço ou o cemitério das embarcações empregadas nas épicas navegações dos gauleses e lusos, a despeito da limitada visão de alguns de seus novos caciques; seus monumentos, que já serviram de celebração a tantos feitos e desagravo a tantos malfeitos, ainda preservam acesa a chama de um amanhã mais afortunado; seus modernos prédios, que já se inseriram no cenário quadrissecular, ainda prometem o desembarque do progresso nas praias do marasmo.

O Palácio dos Leões e a Igreja e Seminário de Santo Antônio, na opinião de uns, ou o antigo Recolhimento (atual Colégio Santa Teresa) e a Igreja do Rosário, na Rua do Egito, na concepção de outros, assinalam os mesmos sítios onde os franceses ergueram, respectivamente, o Forte São Luís e o Convento de São Francisco, onde funcionou a primeira escola do Maranhão, para os meninos colonos e indígenas, no que, ainda nos dias atuais, é o coração da cidade, compreendendo o seu centro administrativo e as suas igrejas tradicionais.

Se herdou dos portugueses os traçados das ruas, as linhas arquitetônicas do casario colonial e os azulejos dos sobradões, São Luís recebeu de seus fundadores vencidos, porém jamais olvidados, o nome, a localização e as primeiras construções.

Esta nau deve o seu primeiro ímpeto exploratório à inspiração proporcionada pela paixão dos escritores Mário Meireles e Wilson Pires Ferro pelo fascinante capítulo da história do Brasil intitulado “França Equinocial”, escrito com sangue, palavras e ações, envolto em fatos e lendas, a merecer uma maior atenção por parte dos historiadores e de outros estudiosos das Ciências Sociais e Humanas. O episódio, apesar de fundamental para a efetiva colonização lusitana de toda a porção norte do Brasil, é pouco conhecido.

Para a sua viagem de descobrimentos, esta nau se valeu não apenas de inúmeros documentos de época e dos clássicos livros de bordo dos cronistas Claude d’Abbeville, Yves d’Évreux e Diogo de Campos Moreno, testemunhas privilegiadas dos eventos, mas também de um variado e qualificado acervo de livros, artigos e escritos em geral sobre o tema selecionado ou um de seus aspectos, impressos ou eletrônicos, antigos ou recentes, alguns ainda não explorados pela historiografia específica.

O itinerário não se restringe à passagem pelo mar sereno dos fatos incontroversos, nem ao recolhimento no porto seguro dos pontos assentados pela História; igualmente inclui a navegação pelas águas encrespadas pelas tormentas das polêmicas relativas à França Equinocial e aos seus principais personagens, como a questão central da fundação da cidade de São Luís, ante a maré revisionista dos propugnadores do mito da “origem” lusitana de São Luís. E não se esquiva de explorar mais detidamente algumas enseadas pouco visitadas pelos estudiosos, como aquela na qual François de Razilly assume o papel de cofundador quase esquecido da cidade e tem o seu papel na implantação da colônia gaulesa no Maranhão largamente subestimado.

Embarquemos, pois, nesta nau com destino à França Equinocial de La Ravardière e Razilly, com seus segredos, credos, sonhos, esperanças, intrigas, jogos de bastidores, documentos, conquistas, estratégias, alianças, batalhas, tréguas, reviravoltas, casamentos, traições e abandonos, eventos e lendas, antecedentes e consequências, defensores e opositores, visando à apresentação de uma contribuição crítica e abrangente para os estudos do tema, que alie o rigor científico exigido pela academia ao interesse despreocupado dos amantes leigos da História, mediante a narração o mais possível fiel dos fatos, o esclarecimento de dúvidas, a análise de episódios obscuros e o oferecimento de novos pontos de vista.

A Autora

 

[…]

 

CAPÍTULO 14 – O MITO DA “FUNDAÇÃO” PORTUGUESA DE SÃO LUÍS E A POLÊMICA SOBRE AS ORIGENS DA CIDADE

 

[…]

O que chamamos de mito da “fundação” portuguesa da cidade de São Luís ostenta perfeitamente as características apontadas pelos estudiosos. Trata-se de um mito de origem, que narra a “criação” da capital maranhense, isto é, a sua fundação, “o tempo fabuloso do ‘princípio’”, do ponto de vista lusitano. Constitui um movimento de “voltar para trás”, de “retorno às origens” da cidade, sob a ótica lusa, quando da conquista do Maranhão em 1615, em consequência do triunfo dos portugueses sobre os franceses comandados por La Ravardière e François de Razilly.

Este mito foi construído por uma historiografia, alimentada por relatórios, cartas e outros documentos da época colonial, que, no período subsequente à conquista lusitana, vocalizaram as posições, interesses e preocupações das elites políticas ibéricas (da metrópole) e dos segmentos sociais que as representavam ou simplesmente as apoiavam no Maranhão, para os quais era importante “encobrir a realidade”, ou seja, apagar os traços da ocupação gaulesa efetuada pelas letras e pelas armas na Ilha de São Luís a partir de 1612 e, concomitantemente, tachá-la de invasão promovida por hereges (protestantes), em desacordo com a vontade divina (daí a “história sagrada” relatando a interferência da divina Providência em favor dos católicos lusos).

E hoje tal mito sobrevive por meio de uma historiografia que desconsidera ou descontextualiza evidências históricas do feito de La Touche e Razilly, em prol da equivocada versão de que São Luís foi fundada pelos portugueses. Este mito oferece, desde a sua concepção original, idealizações no tocante à atuação dos lusitanos na formação da cidade (elevados, com todas as glórias, à categoria de heroicos conquistadores e fundadores de algo que já existia, que já fora fundado). Estas idealizações incluem, mormente a partir do século XX, a exaltação, ora sutil, ora arrebatada, da figura de Jerônimo de Albuquerque como símbolo de brasilidade, de afirmação da identidade e integridade nacional, por suas raízes mestiças (em referência a ações praticadas numa época em que o Brasil ainda nem sonhava em ser uma nação independente), em contraposição à presença do estrangeiro invasor, predominantemente retratado e atacado na figura do fidalgo Daniel de La Touche.

[…]

Este mito, como manda a tradição, também é parcialmente verdadeiro, tem um “fundo de verdade”: os portugueses efetivamente conquistaram o Maranhão, mas não o reconquistaram, porque Aires da Cunha, Luís de Melo da Silva e outros que antecederam os franceses da expedição de 1612 jamais haviam logrado êxito nesse propósito; o dia 8 de setembro de 1612 marca a condução de uma cerimônia gaulesa de tomada de posse da Ilha do Maranhão, contudo serve igualmente de marco da fundação da cidade de São Luís; Jerônimo de Albuquerque, de fato, dedicou-se à urbanização de São Luís, de que esta necessitava, porém não fundou a cidade, iniciada por Razilly e La Ravardière, tanto que não ousou mudar-lhe a denominação, dada pelos inimigos vencidos, nem foi o único responsável por um processo urbanizador que ultrapassaria em muito os limites temporais de seu governo; o grupo dos Novos Atenienses realmente defendeu a interpretação da atribuição da fundação da cidade aos franceses, todavia esses intelectuais não a criaram, pois ela já existia antes do século XX e não estava restrita à posição de Ferdinand Denis, tratando-se, na verdade, do resgate da memória de um fato histórico, por longo tempo desestimulada e sufocada pelos ibéricos, especialmente pela metrópole portuguesa em relação à sua colônia sul-americana, e por seus aliados.

O mito português, destarte, reúne todos os elementos clássicos do gênero: relato de uma “criação”, permitindo o conhecimento das “origens”, do “tempo fabuloso do ‘princípio’”, dos “tempos heroicos”; representação de figuras e fatos históricos idealizados, amplificados e glorificados por meio de tradições literárias; manipulação do real, de feição a ocultar ou subestimar aspectos do fato não enquadráveis na narrativa tida como verdadeira e a sobrevalorizar e exagerar alguns aspectos selecionados; e presença do elemento sobrenatural ou sagrado. Na atualidade, o mito analisado exibe seis características bastante peculiares:

  1. a) desqualificação da historiografia (dominante) que propugna o reconhecimento aos franceses do papel de fundadores da cidade de São Luís, tachada de “não científica” (simples repetidora acrítica de posicionamentos de trabalhos anteriores) ou de mera expressão dos interesses e anseios das elites do Maranhão;
  2. b) desqualificação dos autores que defendem as origens gaulesas de São Luís, historiadores ou não, pesquisadores ou não, visualizados como “não cientistas” e como meros reprodutores de uma versão mítica francófila;
  3. c) desqualificação dos fundadores da França Equinocial e de suas realizações e exaltação do papel desempenhado pelos vencedores de Guaxenduba;
  4. d) escolha de Daniel de la Touche como antagonista do herói Jerônimo de Albuquerque;
  5. e) subvalorização do papel do indígena na fundação da cidade e na disputa franco-portuguesa pelo Maranhão;
  6. f) mecanismo de projeção de seus traços característicos como mito para um alter, mediante a identificação de um suposto “mito” da fundação francesa de São Luís, o que denominamos “visão de espelho”.

Antes de passarmos ao exame da configuração do mito português em textos de autores modernos, vejamos o que pode ser compreendido como fundação de uma cidade.

Segundo o Dicionário Houaiss, fundar significa “assentar as fundações de (uma construção); edificar”; é, por derivação, “dar início; estabelecer o princípio de; criar, instituir”, enquanto fundação exprime o “ato ou efeito de fundar, de instituir”; a “base sobre a qual se constrói um edifício; alicerce” (no campo da construção).

No livro História da cidade, Leonardo Benevolo explica a origem das cidades e acompanha a sua formação e evolução no tempo e no espaço. Não há, nem nunca houve, uma única modalidade de fundação. As cidades nascem de diversas maneiras. O espaço onde está situada a cidade italiana de Bolonha na atualidade, por exemplo, “tem sido habitado desde a mais remota Antiguidade, e foi escolhido pelos romanos para a fundação de uma colônia, em 189 a.C”. A belga Bruges, tida como a maior cidade mercantil na região da Europa transalpina, desenvolveu-se “em volta de um castelo fortificado – chamado posteriormente Oudeburg, o velho burgo – fundado pelos condes de Flandres ao longo do curso do Rio Reye, no final do século IX”. A alemã Nuremberg, que ficou tão conhecida após o término da Segunda Guerra Mundial, em virtude do julgamento dos grandes criminosos de guerra nazistas, “foi fundada pelo Imperador Henrique III em 1040, no ponto de confluência das vias de comunicação entre a Baviera, a Francônia, a Suábia e a Boêmia”, sendo que o local selecionado “é um vale percorrido pelo Rio Pegnitz, e dominado por um morro onde foi construído um castelo”, aparecendo o conjunto habitado inicial “entre o morro e o rio, concentrado ao redor do mercado, que permanece a partir de então o centro principal da vida da cidade”.

O autor deixa claro que umas cidades sofreram repetidas transformações ao longo do tempo, não preservando a configuração original assumida quando da fundação, enquanto outras tiveram definido o seu feitio ao tempo mesmo da fundação, sem alterações posteriores expressivas, além de enfatizar que as cidades variam muito de forma, sem que haja uma regra geral para a opção por um ou outro modelo, e que o fundador de uma cidade é também o dono da área ocupada:

 

Veneza, Bruges, Bolonha e Florença são exemplos de grandes cidades, fundadas na Antiguidade ou na Alta Idade Média e repetidamente transformadas na Baixa Idade Média. Não é possível descrevê-las sem levar em conta este dinamismo, e sua forma complicada registra todas as vicissitudes de seu desenvolvimento.

Muitas outras cidades menores, ao contrário, foram fundadas na Baixa Idade Média, e muitas vezes sua forma definitiva foi fixada, de uma vez por todas, no momento da fundação.

Estas cidades têm todas as formas possíveis. Os estudiosos tentaram classificá-las em vários tipos: lineares, circulares, radiocêntricos, em tabuleiro etc.; mas não se conseguiu encontrar uma causa constante pela qual se escolhe um tipo de cidade e não outro. Cada cidade é imaginada como um caso especial, seja quando é desenvolvida com uma cadeia de decisões sucessivas, seja quando é inventada com uma única decisão inicial. Não se aceita nenhuma regra geral, mas se leva em conta um sem-número de circunstâncias: a natureza do terreno, a tradição local, as sugestões exóticas, o simbolismo sagrado e profano. Cada um destes motivos pode ser determinado.

Quem funda uma cidade – o rei, o feudatário, o abade, ou o governo de uma cidade-Estado – é também o proprietário de todo o terreno […].

 

Por outro lado, é evidente que o início das cidades igualmente ostenta pontos em comum. A pesquisa de Benevolo parece apontar, em geral, para os seguintes traços comuns na formação das cidades mundiais:

  1. a) delimitação de uma área geográfica, com modificação da paisagem natural mediante o erguimento de construções, mais ou menos próximas entre si, de destinação pública e/ou privada, laboral e/ou residencial;
  2. b) aglomeração estável de pessoas;
  3. c) existência de um governo oficial;
  4. d) existência de vias e de um lugar de ajuntamento para fins cívicos, comerciais, militares e/ou religiosos;
  5. e) especialização de atividades, não diretamente ligadas ao cultivo da terra, como as comerciais.

No dia 8 de setembro de 1612, São Luís reunia todos estes padrões fundacionais. Possuía, no mínimo, um forte principal, que não era o único na ilha; uma praça pública para celebrações cívico-religiosas, que ganharia brevemente um pelourinho e uma forca; um porto; numerosas habitações de um ou dois pavimentos; um convento parcialmente edificado, primeira escola do Maranhão, cuja capela seria concluída no Natal, seguida da construção de outra capela; um grande armazém, tudo assentado em uma área delimitada e preparada por seus fundadores e pelos aliados índios para abrigar essa estrutura (um promontório previamente escolhido).

E ainda cresceria nos anos subsequentes, até a queda da colônia, com o acréscimo, por exemplo, de lojas e uma serraria. Até a conquista lusitana, lá viveram, além dos nobres e dos soldados, diversos artífices – carpinteiros, pedreiros, fundidores, serralheiros, tecelões, alfaiates, sapateiros, entre outros –, dois astrólogos e um cirurgião, não apenas homens, porém igualmente mulheres e crianças, comprovando a variedade populacional e a especialização de atividades já existentes na cidade em evolução.

A cerimônia de 8 de setembro foi, sem dúvida, um evento solene de tomada de posse da terra; afinal, quem funda uma colônia e com ela uma cidade precisa ser, por antecedente de ordem lógica e material, o senhor do território. São Luís começou como sede de uma promissora colônia, como muitas cidades pelo mundo nascidas de colônias fundadas, por exemplo, pelos gregos e, depois, pelos romanos. Formou-se a partir da construção de um forte, assim como incontáveis cidades europeias se originaram de castelos, posto que a fortificação dos lugares escolhidos para o abrigo de povoações era uma necessidade daqueles tempos de imensa insegurança territorial. Do mesmo modo que outras tantas cidades do Velho Continente, São Luís teve a sua feição original – imprimida pelos franceses – profundamente transformada posteriormente – pelos conquistadores lusitanos.

[…]

Como visto, a fundação de São Luís em nada foi inferior à fundação da maior metrópole brasileira da atualidade, das duas primeiras capitais do Brasil e da primeira capital de Sergipe, já que a instalação de frágeis núcleos primordiais, de palha, barro e madeira, foi um traço compreensivelmente comum a grande parte das cidades iniciadas pelos lusitanos no Brasil Colônia.

Já vimos como o mito da “fundação” portuguesa da cidade de São Luís foi construído e fomentado como instrumento de afirmação da legitimidade da conquista e da colonização lusitana do Maranhão, por meio do apelo ao sagrado e da desqualificação dos franceses (acoimados de invasores, usurpadores e hereges), numa relação simbiótica entre a promoção dos interesses da fé e a dos interesses da Coroa, traduzida na comunhão de estratégias político-militares e letradas, em prol da edificação do Império luso, da justificação do poder colonial da metrópole e da expansão dos esforços de evangelização. No período colonial, o português Bernardo Pereira de Berredo representa muito bem a historiografia que bebeu das águas originais desse mito.

Com a proclamação da Independência do Brasil e a gradativa laicização da percepção de mundo, principia uma segunda fase, na qual o mito foi aos poucos adaptado aos novos tempos, quase dessacralizado, contudo sem perder os seus traços francófobos de origem. Os franceses ainda eram os invasores da terra, antes luso-espanhola, depois somente lusa, agora brasileira, mas perdeu o sentido chamá-los de hereges. Nesse contexto, Barbosa de Godóis (1860-1923) confirma Berredo na atribuição da honra da fundação da cidade aos portugueses, após a expulsão dos gauleses “invasores”, porém deixa no passado o enfoque anti-heresia.

Em artigo de 1993, Olavo Correia Lima reflete uma terceira fase do mito lusitano, na qual predomina o ataque a um suposto mito da fundação de São Luís pelos súditos de Maria de Médicis, denominado “Mito Capital” (é o que designamos “visão de espelho”).

[…]

Não há dúvidas, portanto, sobre a existência de um mito lusitano a respeito das origens de São Luís. Todavia, não há mito gaulês no sentido que lhe atribuem Lacroix e os seus seguidores, de “tradição inventada”, de “criação fantasiosa de algo que desconhece o real”. A atribuição da autoria da fundação de São Luís aos franceses encontra sólida justificação nos fatos conhecidos, revelados pelas fontes primárias. Ao contrário do que é frequentemente propalado, não é uma interpretação criada pelos Novos Atenienses, não está adstrita a um tempo (século XX) ou a um espaço (Maranhão). Neste sentido, o único mito possível é o da “fundação” portuguesa da cidade. Daí a constatação de que a controvérsia sobre a fundação de São Luís é uma falsa polêmica, em que um mito (luso), travestido de “ciência”, é contraposto à verdade histórica autorizada nas fontes disponíveis, inadequadamente transformada em mito (francês).

Por outro lado, todo acontecimento humano, todo fato relevante na história da humanidade, ocorrido em um tempo primordial, admite interpretações míticas, o que significa que a fundação de São Luís promovida por Daniel de la Touche e François de Razilly admite mitificações, entre francófilos e lusófilos indistintamente, por razões distintas, sobre a atuação dos gauleses em aspectos raramente percebidos pelos estudiosos, como aquela que obscurece a figura de Razilly e o converte em um fundador constantemente esquecido, apesar de sua posição de “senhor da colônia”, participante de todos os eventos preparatórios e implementadores da fundação e responsável pelo batismo do próprio forte que daria o nome à cidade, em favor da onipresente supervalorização da figura de La Ravardière, pois, afinal, é mais fácil e mais simbólico destacar os feitos de um único herói ou concentrar as críticas em um único vilão.

É claro que o culto às origens francesas do Maranhão do final do século XIX ofereceu condições propícias a que um grupo de intelectuais maranhenses do século XX resgatasse do limbo do esquecimento importantes fatos históricos relacionados à história de São Luís. É claro que a origem francesa da cidade tem mais apelo turístico, pela sua singularidade. E pode servir a diferentes interesses e fins, de diferentes grupos e diferentes elites. Mas não é por isso que defendemos os franceses como fundadores de São Luís. Fazer ciência “honesta”, primar pela “honestidade histórica”, não significa neutralidade, porque esta é um mito; no entanto, implica investigar todos os principais aspectos e implicações de uma questão, e não desconsiderar como acrítico, alienado ou não científico a priori todo o entendimento que não navegue pelas mesmas águas.

 

(Do livro 1612: os papagaios amarelos na Ilha do Maranhão e a fundação de São Luís, 2014)

 

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CRÔNICAS

 

UM CERTO JOSUÉ

 

Não foi na décima noite, nem numa véspera de Natal. Foi na décima quinta noite. Nos idos de março. Não Júlio César, mas um certo Josué, imperador das letras timbiras. Nesta data, Josué empreendeu a viagem sem regresso, uma viagem fantástica, mágica. Perto da meia-noite. Subiu os degraus do Paraíso com a elegância machadiana que sempre marcou a sua arte, a sua profunda e prolífica relação com a palavra escrita, com uma palavra depois de outra.

Não houve baile da despedida. E nem seria possível. Heróis não se despedem, nem dizem adeus. Porque jamais partem de verdade. São imortais, permanecem na memória, nas mentes, nos corações, nas obras. Porém, no grande teatro da literatura maranhense, há certamente um camarote vazio, o de nº 31. Outro camarote vazio, o de nº 29, repousa solitário no teatro maior da literatura brasileira. No palco, enquanto o tempo não passa, os personagens guardam o silêncio reverencial, o silêncio da confissão. Nada é como dantes. A mulher proibida está acessível ao mundo; o carrasco que era santo abandonou o seu ofício; o Tio Juca não está para conversa; Dom José perdeu o seu tesouro; a formiguinha que aprendeu a dançar não consegue caminhar; o bicho deixou o circo.

São Luís, coração de sua geografia ficcional, quão bela noiva de Vila Rica, ainda mais que o Maranhão, ainda mais que o Brasil, ainda mais que o mundo, chora o desaparecimento de seu consorte ilustre e ilustrado. Os tambores de São Luís lhe rendem homenagem, imprimindo ao presente os sons do passado, enquanto o Largo do Desterro se cobre de luto, na encruzilhada do tempo, tempo aprisionado em cada fachada de azulejo, em cada janela de mirante da Praia Grande, através do olho mágico da literatura. O mar lhe presta tributo, batendo-se, amuado, contra o Cais da Sagração, sagração que não lhe vem apenas de seus conterrâneos, mas igualmente de leitores e admiradores de além-mar.

Não há herdeiro ou herdeira do trono. Não há herdeiro possível para um professor de uma estante giratória, que percorreu tantos caminhos literários com o mesmo brilhantismo, do romance à novela, do conto à biografia, da literatura infantil e juvenil ao ensaio, da história à crônica, da conferência ao teatro. Não há herdeiro possível para quem cultivou a arte literária com a suprema habilidade de um semeador da palavra, para quem recebeu tantos prêmios e exerceu tantas funções e cargos expressivos. O maior escritor maranhense do século passado e um dos principais do país de todos os tempos não deixa herdeiros, deixa seguidores.

Perdoa-me a intimidade, por chamar-te simplesmente Josué. O outro, o teu homônimo, desbravou Canaã como ninguém. Derrubou as muralhas de Jericó ao som de trombetas. Tu conheceste São Luís e a alma maranhense como nenhum outro. Derrubaste muralhas de papel ao leve roçar de tua pena. Descortinaste para o Brasil o ser ludovicense com a sinceridade expressionista de um Van Gogh, o sentimento impressionista de um Renoir e a genialidade de ambos. No labirinto de espelhos da tua obra, compuseste um mosaico de razões e emoções, que mais se assemelha aos azulejos dos casarões coloniais da cidade. A ti pertence a coroa de areia, esta que emoldura a cabeça de ouro de todos os representantes da “Atenas Brasileira”, coroa que se constrói e desconstrói com a areia que cobre, quão manto imaculado, as praias desta ilha abençoada. És a pedra viva de nossas memórias. Sempre serás lembrado cada vez que os usos, as gentes, as paisagens, os acordes, as cores de teu mundo imaginário, de tua São Luís ficcional, que também é tão real, aflorarem de teus romances, de tuas novelas, de teus livros encantados, como encantadora é a tua arte, o teu baú da juventude e da maturidade. Cada vez que os temas e as personalidades sobre os quais te debruçaste, com o olhar crítico do cientista, emergirem de teus ensaios. Conquistaste um apartamento no céu. Sei que não o manterás com as janelas fechadas. Sei que de lá, pensativo, sob ou sobre a luz da estrela morta, contemplarás a noite sobre Alcântara, a agitação dos tambores de São Luís e o despertar do Largo do Desterro. E, antes que os pássaros acordem, de uma varanda sobre o silêncio, sob um beiral para os bem-te-vis celestiais, retomarás o fio da meada e pegarás a tua pena, já saudosa de ti, para escreveres, uma vez mais, sobre a cidade que amavas, a primeira e a última convidada de teus sonhos e preocupações.

Aleluia!

 

(Do jornal O Estado do Maranhão, 15.04.2006)

 

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SEDE BEM-VINDOS!

 

Senhores visitantes e turistas, neste mês de tantas celebrações, gostaria de vos dizer que São Luís vos recebe de maré cheia, sob a toada do bumba-meu-boi, na Praça da Alegria ou no Largo dos Amores. Sobre a cidade, não espereis de mim o esforço da imparcialidade dos julgadores, mas a prosa apaixonada dos que não se cansam de lhe fazer a corte. Principio vos lembrando de que “minha terra tem palmeiras”, tomando de empréstimo as palavras de certo poeta que ganhou o Brasil e o mundo. Porém, isso já sabíeis, não é surpresa, sobretudo se já percorrestes as suas vias mais próximas do aconchego do mar, na companhia, talvez, dos holandeses, ou se já pisastes na ponta d’areia, no calhau ou no olho d’água de nossas belas praias. Não vos garantirei, no entanto, que nessas famosas palmeiras ainda cante algum sabiá. Mais fácil encontrardes um bem-te-vi. Mas vos asseguro, e não me tomo de pejo em fazê-lo, seguindo a constatação inspirada do mesmo vate, que “minha terra tem primores” e, ainda mais induvidoso, que:

 

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores. (Canção do Exílio)

 

De fato, esta é a “Ilha dos Amores”. Primeiro vieram os franceses, que são conhecidos nessa arte, e a fizeram sua. Talvez já tenhais vos deparado com o seu fundador, Daniel de La Touche, descansando no Palácio La Ravardière, sede do Poder Executivo Municipal, ou transitando em larga avenida. E São Luís se tornou a única capital brasileira que nasceu gaulesa no longínquo ano de 1612. Em seguida, vieram os portugueses, que a cobriram de mimos, enfeitando os seus imponentes sobradões com azulejos. E São Luís, do alto de seus mirantes – que só posteriormente seriam sinônimo de prestigiada rede de TV –, ao som do vira, virou a “Cidade dos Azulejos”, um pedaço de Lisboa no Brasil, bem representado pela Rua Portugal. Depois, vieram os intelectuais, os escritores e os poetas, que não eram gregos, mas a transformaram, com justiça, na “Atenas Brasileira”. E São Luís nunca mais deixou de ser, na observação de Astolfo Serra, “terra onde se amam os versos, os recitativos, a oratória, as tertúlias literárias e onde existe verdadeiro culto pela arte de dizer e de escrever” (Guia histórico e sentimental de São Luís do Maranhão, p. 17). Basta atentardes para o apreço que temos pelo “tu”, preferência, aliás, que compartilhamos, por exemplo, com os irmãos gaúchos.

E quando visitardes a Praia Grande e a Rua da Estrela, coração do Centro Histórico e do casario colonial da urbe, apurai a vista, pois podeis vos encontrar com o Mulato de Aluísio Azevedo. Se desejais um encontro com o Poeta, procurai o Largo dos Amores, donde Gonçalves Dias, altaneiro, descortina o Rio Anil e aproveita para cortejar a Maria Aragão. E, como não sabemos o porvir, recomendo-vos uma visita à Igreja dos Remédios, com sua majestade gótica. Todavia, se sentirdes falta de um sermão, segui para a Igreja de Santo Antônio, onde podereis, quiçá, ouvir, extasiados, as preleções do Padre Antônio Vieira. Ou entrai no Convento das Mercês, construído em 1863, ou na Catedral Metropolitana, de cujo acrotério vigia Nossa Senhora da Vitória, a qual, conforme a lenda, em forma de radiosa Virgem, possibilitou o triunfo dos lusitanos sobre os franceses na Batalha de Guaxenduba, ao transformar a areia em pólvora para os soldados. Ou adentrai o prédio ao lado, o Palácio Arquiepiscopal, antigo Colégio dos Jesuítas. Em ambos os casos, estareis em frente ao sítio de fundação da cidade, guardados pelos leões do poder, postados na entrada do Palácio que se estende sobre os alicerces do outrora Forte de São Luís, que deu nome à capital maranhense, em honra ao rei francês. Ainda nessa área, podereis ver caminhar Graça Aranha, a pensar na sua Canaã.

Se o que quereis é mistério, dai uma espiadela para o interior da Fonte do Ribeirão, edificada em 1796, e imaginai para que serviam as suas famosas galerias subterrâneas no Maranhão Colonial, se para o contrabando de escravos ou se para o trânsito dos jesuítas da Igreja do Carmo até a Igreja de São Pantaleão. Ou, se tendes coragem, esperai a passagem da carruagem de Dona Ana Jansen, senhora de grande fortuna e marcante personalidade, duas vezes viúva, de grande influência na vida socioeconômica e política da cidade no séc. XIX, nas noites escuras de sexta-feira, deixando o cemitério em direção às ruas de São Luís. Atentai para os cavalos e o cocheiro escravo decapitados, mas não esperai para receber da alma penada de Donana uma vela acesa, que certamente se transmutará em osso de defunto no dia seguinte. Preferi a lagoa da mesma senhora, onde, nesta época, no arraial, como em muitos outros espalhados pela cidade, é possível dançar, em homenagem aos santos juninos, com Pai Francisco e Mãe Catirina ao redor do boi, que não é meu, porém da Companhia Barrica, de Morros, Nina Rodrigues, Axixá, Icatu, Cururupu, Maioba, Maracanã, Pindoba, Guimarães, Alcântara, Ribamar, Fé em Deus, São Simão… Mas quando fordes ao mirante da lagoa, procurai a serpente que, segundo contam, envolve a cidade e continua a crescer até que sua cauda alcance a cabeça, momento em que não desejareis estar aqui, porque será o tempo em que São Luís desaparecerá em meio às águas do Oceano Atlântico… Ou talvez isto ocorra antes, quando o Rei Touro, El-Rei D. Sebastião, se desencantar e voltar à forma humana… Não vos preocupeis, todavia; lembrai-vos de que a Virgem está vigilante, do alto da fachada da Catedral.

Por fim, quando vos fatigardes com a perambulação pelas ruas e becos estreitos do centro da cidade, como, por exemplo, a Rua Direita, que é tortuosa; a Rua do Norte, que fica ao sul; a Rua dos Remédios, onde não há farmácias; a Rua do Sol, onde há somente sombra por causa dos casarões; a Rua do Passeio, que termina no Cemitério do Gavião; e o Beco do Quebra-costas, que, ao contrário, realiza o que promete; ou ainda for cedo para a brincadeira dos arraiais, fazei uma pausa para provar do sapoti, do bacuri e do cajá. Não vos olvideis que graviola é jacama, açaí é juçara e fruta-do-conde é ata. E preparai-vos para um delicioso almoço ou jantar à base de camarão, pescada ou carne-de-sol, com arroz de cuxá, cuxá e macaxeira, à beira do mar de águas prateadas.

São Luís vos saúda com a hospitalidade que caracteriza a alma ludovicense, carregada de sonho e poesia. Pois, afinal, como disse o Poeta, nossa vida, sem dúvida, tem mais amores. Sede bem-vindos!

 

(Do jornal O Estado do Maranhão, 13.06.2010)

 

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O REI DO RÁDIO

 

Não o conheci em seus tempos áureos. E não o vi partir para a eternidade em 18 de janeiro de 1983, pouco depois de recuperar a visão que a vida levara de seus olhos, mas não de seu espírito. Lembro-me de visitá-lo muitas vezes, menina e, mais tarde, adolescente, na Rua São Pantaleão, 817, onde morava. Gostava de me exibir seus livros, como os de José de Alencar e Humberto de Campos, e suas histórias, colhidas em um passado não tão distante, não necessariamente nessa ordem. Aqueles e estas constantemente se tornavam matéria de uma prosa fácil, fluente, sem termo, carregada de um natural saudosismo. Nunca o vi zangado. Pouco me recordo de detalhes; ficou-me, entretanto, a lembrança do carinho e amor que me devotava, visíveis na atenção que dedicava àquela criança curiosa, que, apenas posteriormente, teria a real dimensão dos momentos especiais de convivência com aquele senhor de sorriso amigável e fala mansa, seu padrinho, com tantas histórias – e talvez algumas estórias – para contar. De fato, eu jamais soube o que era verdade ou ficção. Certa vez, contou-me que descendia de José de Alencar. O Alencar de sua genitora era, sem dúvida, deveras sugestivo. Nunca pude confirmar, no entanto. Àquela altura, é verdade, sua memória já lhe pregava peças, e não eram as de teatro, com as quais estava acostumado. Entretida com suas histórias, era trazida das brumas do passado para as luzes do presente por Dona Lulu, sua dileta esposa, de fulgurantes olhos azuis:

– Deixa a menina descansar e vir tomar o lanche, Beni.

Reencontro-o hoje, muito à vontade ao ser entrevistado, nas páginas do livro Perfil do Maranhão 1979, um pouco amarelecido pela impiedosa ação de Cronos, editado por Cordeiro Filho e José de Ribamar Souza dos Reis, em que é citado como uma das “legendas do nosso rádio”, no capítulo das “Popularidades maranhenses” (p. 161-163), na honrosa companhia da educadora Zuleide Bogéa, do mestre Ruben Almeida, do também radialista Carlos Celso e do boxeador Lupercino Almeida.

Marcos Vinicius Sérgio de Almeida ou “Beni”, como simplesmente o chamava Dona Lulu, veio ao mundo no dia 09 de setembro de 1913, em Belém do Pará. Em tributo ao seu quinquagésimo aniversário, o pórtico da casa de seu nascimento recebeu uma placa comemorativa. Filho de Luisa Rodrigues de Alencar Almeida, cearense, professora normalista e conhecida jornalista, pianista, violonista e declamadora de poesias – a quem devo parte de meu prenome –, e de Raimundo Tomás de Almeida, proprietário da Casa Ribamar, fundada em 1926, na época tida como o maior empório musical do norte do país, Marcos Vinicius fez como Júlio César: veio, viu e venceu. Não com a espada, mas com a potente e aveludada voz de radialista e locutor, seu principal instrumento de trabalho. Todavia, o prenome composto, recebeu-o, por obra de sua mãe, de outro romano, saído da ficção do polonês Henryk Sienkiewicz, Quo Vadis.

São Luís acolheu-o calorosamente e fez dele um filho devotado, de forma que a Câmara, por voto unânime de seus vereadores, concedeu-lhe o título honorífico de “Cidadão de São Luís”. “Rei do Rádio”, eleito por duas vezes consecutivas (1953-1954), teve como madrinhas na posse da eleição nada menos do que Marion e Ângela Maria, o Sapoti do Rádio nacional. Pioneiro, criou na Rádio Timbira o Departamento Especial de Rádio Teatro. Trabalhou, igualmente, na Rádio Ribamar. Integrou, juntamente com Otelo Cavalcanti e Nobre Fonseca, o célebre trio artístico conhecido como “Os Três Mosqueteiros”, participando de tournées bem-sucedidas em Belém e Recife. Acontecimento naqueles anos dourados foi a encenação da novela “O Direito de Nascer”, via microfone, sendo sempre lembrado o duelo entre Marcos Vinicius e Otelo Cavalcanti, em conexão com Rodolfo Mayer, famoso astro de “Redenção”, primeira novela a ser levada ao ar neste país. O esporte bretão também o fascinava: foi presidente do saudoso Tupan Esporte Clube, período em que o time conquistou o bicampeonato.

O leitor que surfou nas ondas do rádio, quando por lá navegavam sereias como Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Linda Batista, Conceição de Oliveira e Orlandira Matos, certamente o ouviu ou dele ouviu falar. Alto, bem-apessoado, autêntico gentleman, assediado pelas fãs, o que lhe rendeu muita confusão com Dona Lulu, senhora dos estonteantes olhos azuis que mencionei, era pai de cinco filhos (os que vingaram): Eunice, Maria de Nazareth (“Naná”), Therezinha de Jesus, Raimundo e Marcos Vinicius Filho (“Marquinho”). Sou uma de suas netas.

Parabéns, vovô, pelo seu aniversário!

 

(Do jornal O Estado do Maranhão, 09.09.2010)

 

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POEMAS

 

O PORTEIRO

 

Sob tênue e dúbia luz,

entre prédios, paus e pedras,

papéis apressados e triste ladrar,

caminha solitário o porteiro

– porteiro da noite.

 

Passo inquieto, eterno esperar,

olhar fugidio e instinto treinado,

aperta a cruz e segue calado

sob cortante e ébrio açoite,

prossegue acuado o porteiro

– porteiro do frio.

 

O silêncio errante perde o fascínio:

vozes e vultos emergem distantes,

tenso supor de perigo latente

a espalhar trêmulo torpor;

horror da espera, conflito iminente,

cedo aguarda, quieto o porteiro

– porteiro do medo.

 

O cerco se faz na rua desnuda,

desce a violência insana e vã:

irmã da droga, prima do álcool;

golpes e socos, animais em luta,

gritando e gemendo em surda agonia;

morte espreitando no canto da vida:

cede o vento, a violência, o porteiro

– porteiro da morte.

 

Amanhece.

Na polícia, a ocorrência;

no jornal, a notícia;

e para a rua marcada

um novo porteiro:

herdeiro da noite

do frio

do medo

da morte.

 

(Do livro Versos e anversos, 2002)

 

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QUANDO

 

Quando a última luz se apagar

a noite eterna será meu sol

as estrelas piscarão no atol

e eu lá, pequena, a cismar.

 

Quando a última voz se calar

ouvirei o silêncio dos ressentidos

soltarei o grito engasgado dos contidos

em meio à solidão do mar.

 

Quando o último perfume se esvair

buscarei a fragrância das flores

com o cheiro de mil amores

e me porei, surpresa, a sorrir.

 

Quando o último sabor se perder

encontrarei o gosto da vida

no doce aceno da partida

e degustarei as delícias do ser.

 

Quando o último toque se findar

sentirei a chama que me consome

apalparei a frágua da minha fome

e descobrirei o verdadeiro lar.

 

Quando a última porta se fechar

daquele parapeito da janela do tempo

verei a vida passar em contratempo

e me olvidarei nas asas do sonhar.

 

(Do livro Quando: poesias, 2008)

 

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MEDO

 

Sou o beco escuro em noite sem luar

Sou o revólver empunhado pronto a disparar

Sou a voz sufocada que não consegue falar

Sou o barco condenado que afunda em alto-mar

Sou a água invasiva que não para de inundar

Sou o mar portentoso prestes a encrespar

Sou a pena que não escreve para não errar

Sou o dedo que aponta para não se culpar

Sou a mão que conquista para não se curvar

Sou o passado atormentado que não quer acabar

Sou o presente ocupado que teima em faltar

Sou o futuro incerto que ameaça chegar

Sou a morte que não se esquece de matar

Sou a vida que não se lembra de viver.

 

Eu sou

e jamais deixarei de ser

pois temer ou me ter

é próprio do ser humano

que se diz sano

em um mundo

de vez em quando

cada vez mais

por vezes demais

insano.

 

(Do livro O náufrago e a linha do horizonte: poesias, 2012)

 

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O NÁUFRAGO

 

À espera do chamado, encharco o meu pensamento

do que emerge de dentro, do que submerge de fora

dos ventos que colho, das entranhas que alimento

borbulham ideias no caos oceano do eu em mora.

 

Qual náufrago agarrado à tábua, órfão de seu barco

contemplo as nuvens, que me ignoram e passam

afundo sob os pedregulhos com que atiro e arco

torno à superfície das águas que sitiam e enlaçam.

 

Ah, quisera eu ser levada por ondas encrespadas

à ilha de Morus, do nunca e de depois-de-amanhã

aonde assomam sereias que não querem ser fadas.

 

Mas a chuva cai e os sonhos enrijecem no sangue

a carruagem de Apolo procura os domínios de Pã

e eu me debato embalde, e mergulho no mangue.

 

(Do livro O náufrago e a linha do horizonte: poesias, 2012)

 

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O NÁUFRAGO II

 

Do f

o

r

t

e da ilha

 

vislumbro

 

os meus sonhos

 

delirantes

 

a bordo de um barquinho

 

que se esvaece

 

p   o   u   c   o      a      p   o   u   c   o

 

d   e   v   a   g   a   r

 

na extrema linha

 

do horizonte.

 

(Do livro O náufrago e a linha do horizonte: poesias, 2012)

 

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O NÁUFRAGO III

 

O náufrago

 

é o eu

 

cercado

 

os lados                     de outrem

 

por todos

 

(Da Revista Poesia Sempre: Polônia, Fundação Biblioteca Nacional, ano 15, n. 30, 2008)

 

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O NÁUFRAGO VIII

 

Navego pelas ondas de teu corpo

sem saber que rochedos evitar

sou uma errante vaga de teu anticorpo

a explorar as profundezas do mar

perto do iceberg que me afundará

se eu perder o controle do timão

ou do braço que me oferecerá

pequenas tábuas de salvação

quando alguma tormenta se avizinha

busco o porto seguro de teu peito

e a bujarrona não é mais minha

até o próximo coração desfeito

as tuas veias sorvem o meu sangue

e eu naufrago na tua imersa ilharga

ágil volvo à tona e repouso langue

e confio a tuas mãos a carga

refugio-me sob os teus ombros

e guardo no seio os sonhos submersos

agarro-me aos numerosos escombros

que a maré acolheu e refez em versos.

 

(Da revista italiana Il Convivio, ano 17, n. 66, 2016)

Iconografia