SÓ PRA CHATEAR

SÓ PRA CHATEAR

Elsior Coutinho
Cadeira nº 18

Joaquim Itapary envia-me, por whatsapp, um vídeo em que o grupo formado por um filho e três netas do grande Nelson Gonçalves interpreta o samba Só pra chatear, composto por Príncipe Pretinho e gravado originalmente em 1947 pela dupla – vejam que bacana – Zé da Zilda e Zilda do Zé (o que me leva a suspeitar se tratasse de um casal casado). A letra:

Eu mandei fazer um terno
Só pra chatear
Com a gola amarela
Só pra chatear
Mandei bordar na lapela
Só pra chatear
Um nome que não era o dela
Só pra chatear.
Comprei um par de sapato branco
Mas sei que ela só gosta de marrom
Só pra chatear, só pra chatear
Cada pé de sapato tem um tom…
Comprei um bangalô – pra chatear – lá na favela
Mas vou morar na Lapa, perto dela
Só pra chatear!

Embora o Príncipe Pretinho não seja sequer lembrado pelas gerações mais recentes, ele foi um compositor importante de sua época, parceiro de Herivelto Martins e de outros autores famosos de então. E muitas de suas letras foram sucesso nas vozes, por exemplo, de Dalva de Oliveira, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Nelson Gonçalves, Carmen Costa, Trio de Ouro, Cyro Monteiro, Marlene, Jorge Veiga, Isaura Garcia, e por aí vai…

Escutei a música e passei a imaginar, indagativamente, que motivo teria levado o nobre moreninho a escrever tal letra. Cada leitor/a fique à vontade para, se lhe aprouver, tirar sua dedução, mas a minha é esta: o rapaz, empregado no comércio, bem-parecido, vivaz, modesto de trajo mas elegante no trato, comunicativo, alma poética e vocacionada para o letrismo musical. Já era conhecida e elogiada a qualidade de suas primeiras composições, havendo intérpretes interessados em gravar algumas. De quebra, dedilhava com desenvoltura o seu violãozinho barato. Pois esse moço enrabichou-se por uma musa, bem-feitinha da cabeça aos pés, que tanto podia ser do tipo “morena sestrosa”, como a de Ary Barroso em Aquarela do Brasil, ou “loirinha dos olhos claros de cristal”, como a de João de Barro (o Braguinha) em Linda loirinha. Fez-lhe a corte e teve sucesso imediato. Flertaram, namoraram, amaram-se.

Mas o príncipe de ébano era pobre, e esse terá sido o pretexto para que a beldade aos poucos se fosse cansando e afastando-se dele. Requestada que certamente era por outros rapazes de seu bairro – a famosa Lapa, no centro do Rio de Janeiro, reduto de boêmios, poetas aos montes, uns de família mais ou menos endinheirada, e…zás! um deles fisgou o coração da moça. E a moça, contrariamente àquela senhorita que, desafiando o preconceito de cor arraigado na mãe, “foi morar lá colina com o neguinho que é compositor”, como está dito no samba O neguinho e a senhorita, de Noel Rosa e Abelardo da Silva, tornado sucesso principalmente no bom gogó de Noite Ilustrada – a moça, eu ia dizendo, deu ao rapaz o malvado bilhete azul. O coitado amargou dias e dias de sofrimento, raiva, bebedeira, depressão e uma vontade danada de dar um troco qualquer à pérfida criatura.

Mas eis (e este “mas eis” tem causado tanta reviravolta nesta vida…) que um dia o moço saltou da cama com o sonho fresquinho na cabeça: um profeta da umbanda, especializado no jogo do bicho, mas inexplicavelmente pobre, induzira-o, convicto e peremptório, a descarregar no burro, naquele mesmo dia, tudo em dinheiro que pudesse. Ele recolheu o que tinha na Caixa Econômica, aumentou-o com um empréstimo obtido a um colega de emprego, correu e chegou a tempo à banca da esquina, fez a fé, e já na boquinha da noite o próprio banqueiro foi ao seu barraco avisá-lo de que tirara a sortegrande. Dinheiro que não acabava mais! Foi a conta: o mal-estar moral e o desânimo físico como que se evolaram de um sopro e a vida do moreno mudou da água para ao vinho. Via-se cercado de meninas bonitas: negras, ruivas, brancas, mulatas, loiras, morenas; comia em restaurantes classe média; frequentava teatros e cinemas; assistia com assiduidade aos jogos de seu time, em São Januário; lanchava e espairecia na Confeitaria Colombo; enfim, vivia a vida no melhor regime. Para confirmar de vez o rumo certo dos ventos, o dono da firma o promoveu a subgerente e o salário foi lá pra cima. Aí o moreno fez o que vinha planejando: primeiro, comprou o bangalô há muito cobiçado, localizado em sua própria favela, mas para onde nem se mudou, preferindo usar o imóvel somente para seus encontros amorosos.

Belo dia, desceu o morro direto para a rua do Ouvidor, onde, numa alfaiataria renomada, tirou as medidas de um terno para o qual deu os detalhes adrede pensados e repensados. Aproveitou a prazerosa jornada para comprar um par de sapatos, também prévia e requintadamente idealizado. E, para completar a obra, comprou um violão de boa marca e um caderno especial para nele lançar suas composições. Subiu o morro leve e solto, cansaço zero, pois a felicidade tem desses poderes, ainda mais se forrada com um bom saldo bancário. Sentou-se a uma mesinha do barraco do qual com antecipada saudade começava a se despedir, pois já apalavrara o aluguel de um apartamentinho na Lapa, e então, bebericando com parcimônia um conhaque de respeitado rótulo, escreveu o samba a que aqui se dá destaque, cuja letra – diga-se a bem da verdade – ele mesmo achou meio crapulosa, mesquinha. Letra que ele leu, releu, tresleu, perguntou-se se não estava sendo algo indigno, se tal ação era compatível com sua personalidade, eis que era cordato, não rancoroso, mas… tinha sido humilhado, traído, esnobado, sofrera muito, e isso bastava: ia mandar gravar! O importante era que “ela”, a falsa, a volúvel, ouvisse a música, soubesse quem era o autor, entendesse seu recado e, ainda que não sofresse, ou se magoasse, mas se se sentisse chateada, um tantinho assim que fosse, pronto: a ideia da vingança já teria surtido o efeito desejado.

Termino minha fantasia e retomo a história que vim contar. Voltei a ouvir a música, e a minha lembrança, inundada de saudade, voou direto para o nosso grupo familiar (que o doce brincalhão Waldemiro Viana denominava Coutinho’s Brothers), hoje totalmente esboroado com a partida definitiva dos meus irmãos Tarcísio (2014), Mário (2016) e Milson (2020) – e como dói! Eram só vozes e dois violões. Nada de percussão. Entre as vozes, duas femininas: a cunhada Eugênia Medeiros e, ocasionalmente, a prima Terezinha Rocha. Cantava-se uma multidão de autores: de Catulo da Paixão a João do Vale, de Noel Rosa a Mário Lago, de Cartola a Luiz Gonzaga, de Luiz Vieira a Gilberto Gil, de Chico Buarque a Nonato Buzar, de Herivelto Martins a Dorival Caymmi, de Caetano Veloso a Roberto Carlos, de Taiguara a César Nascimento, de Adelino Moreira a Papete, de Orestes Barbosa a César Teixeira, de Carlos Gomes a Benito de Paula, de Ary Barroso a Zeca Pagodinho, de Ataulfo Alves a Cascatinha e Inhana, de Vinícius de Moraes a Geraldo Vandré, de Evaldo Gouveia & Jair Amorim a Lupicínio Rodrigues, enfim, um mundo de compositores e intérpretes de todos os gêneros do nosso rico cancioneiro.

Algumas patuscadas do grupo, aí pelos anos 1980/90, contaram com a presença de figuras como José Chagas, Jomar Moraes, Manuel Lopes, Viégas Netto, Paulo Moraes, o próprio Waldemiro, Bernardo Almeida, o musicófilo Bezerra Neto e, ao menos uma vez, que me lembre, o violonista Amaral Raposo e a escritora Ceres Costa Fernandes. Chagas e Manuel Lopes, mais assíduos àquelas musicadas libações, tinham suas preferências e as manifestavam quase sempre: o primeiro costumava pedir a valsa Rosa (“Tu és divina e graciosa, estátua majestosa do amor…”) música de Pixinguinha e letra do mecânico Otávio de Souza, e o segundo nunca dispensava Rasguei o teu retrato, de Cândido das Neves, gravada por Vicente Celestino (…”eu ontem rasguei o teu retrato, ajoelhado aos pés doutra mulher”). Outra das preferidas do Chagas era justamente o samba zombeteiro e vingativo do Príncipe Pretinho, a ponto de, certa vez, ajudar a cantálo, e veja-se de que modo: a princípio boquejando baixinho a letra, à proporção que a peça avançava, ele, já puxando fogo alto, como bem certificava o vermelho intenso que lhe abrasava o pescoço, o rosto e as orelhas, encostou no crooner Mário, um braço levantado, como quem diz “deixa o final comigo”, e apossou-se da música no seu instante paroxístico: depois de o autor dizer que comprara um bangalô na favela, mas que iria morar na Lapa, “perto dela”, o Poeta, com a veemência de quem fosse o verdadeiro protagonista do tal ato de vindita, fez descer o bração, simultaneamente ao brado do bordão pesado e feroz:

– Só pra chatear!

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